Livro de ex-assessor de Trump reforça papel lateral do Brasil na política americana

País é mencionado seis vezes, e Bolsonaro aparece em dois trechos em memórias de John Bolton

Lúcia Guimarães
Nova York

Se alguém duvidava do papel cada vez menor do Brasil na política externa continental americana, o livro do ex-assessor de Segurança Nacional da Casa Branca, John Bolton, é um exemplo difícil de ignorar.

O presidente Jair Bolsonaro é mencionado duas vezes, de passagem, em "The Room Where It Happened: A White House Memoir" (a sala onde aconteceu: um livro de memórias da Casa Branca).

E o Brasil merece seis menções no texto, todas no contexto do esforço para ajudar a oposição venezuelana na tentativa de apressar o fim do regime de Nicolás Maduro.

Apesar de narrar uma visita ao Brasil, em novembro de 2018, para conhecer o presidente eleito, Bolton não faz nenhuma observação sobre o que pensa de Bolsonaro.

Escreve apenas: “Voei de Andrews para o Rio de Janeiro para ver o recém-eleito presidente brasileiro Jair Bolsonaro a caminho da reunião do G20 em Buenos Aires”.

Em seguida, passa a falar de um telefonema para Donald Trump em que trataram de Ucrânia.

Jair Bolsonaro e John Bolton, então assessor de Segurança Nacional dos EUA, encontraram-se no Rio de Janeiro
Jair Bolsonaro e John Bolton, então assessor de Segurança Nacional dos EUA, encontraram-se no Rio de Janeiro - nov.18/Assessoria da Presidência/Twitter

A outra menção apenas coloca o presidente brasileiro ao lado do colega americano na visita a Washington. “Trump parecia estar se segurando bem, dizendo, numa entrevista coletiva com o novo presidente brasileiro Jair Bolsonaro: ‘Não impusemos sanções realmente duras à Venezuela ainda'.”

No mesmo capítulo, Bolton menciona a ajuda da Rússia à Venezuela, especulando que o auxílio deveria aumentar nos meses seguintes. “Mas, ao mesmo tempo, entretanto”, escreve, “o ministro da Defesa do Brasil, Fernando Azevedo, me dizia que o fim já estava à vista para Maduro”.

O livro tem lançamento marcado para esta terça (23) e já é o mais vendido na Amazon. O governo Trump tentou impedir a publicação das memórias de Bolton, alegando que o livro contém informações que colocam em risco a segurança nacional.

No sábado (20), um juiz negou o pedido de suspensão do livro, mas fez duras críticas ao autor, condenando as revelações detalhadas sobre negociações americanas com vários países.

O juiz Royce Lamberth concluiu que era tarde demais para sustar a distribuição do livro, já disponível em dezenas de Redações e em trânsito de depósitos para entrega.

Desde sábado (20), cópias piratas do livro de Bolton começaram a circular online em formato PDF. O ex-assessor de Trump, que diz ter renunciado ao cargo, ainda que Trump afirme que o demitiu, foi um vilão silencioso do processo de impeachment do republicano porque se recusou a depor na Câmara depois de receber US$ 2 milhões (cerca de R$ 10,6 milhões) de adiantamento da editora.

Bolton é um prolífico anotador de reuniões e interações no poder, o que faz de suas memórias o volume mais detalhado e também incriminador entre os escritos por ex-assessores de Trump.

As revelações mais graves feitas por Bolton se referem à China, o país que oferece a maior ameaça existencial ao poder e à economia dos EUA. Dá exemplos de completo despreparo do presidente americano para negociar com os chineses, claramente alegres com a fraqueza do interlocutor.

Ele conta que Trump pediu ao líder chinês, Xi Jinping, para ajudar na sua reeleição, comprando mais produtos agrícolas americanos para agradar estados rurais. Em troca, teria oferecido frear uma investigação na Justiça americana contra a empresa de telecomunicações Huawei.

Uma das passagens que mais chocaram a mídia americana foi sobre o endosso que Trump deu a Xi, quando ele explicou que estava construindo campos de concentração para mais de 1 milhão de membros da minoria étnica muçulmana uigur.

Bolton escreve: “Trump disse que Xi devia ir adiante construindo os campos, ele achava que era exatamente a coisa certa a fazer”.

O autor relata o gosto de Trump para “fazer favores pessoais a ditadores”, como levantar as sanções contra o oligarca russo Oleg Deripaska, ex-sócio do diretor da campanha presidencial de 2016, hoje em prisão domiciliar por evasão de impostos e fraude bancária.

Ele considera que obstrução de Justiça, para o presidente, é como “um estilo de vida”.

E, como se quisesse reforçar o argumento de seu ex-assessor e novo inimigo, Trump demitiu no sábado (20) o procurador federal Geoffrey S. Berman, do Distrito Sul de Manhattan, responsável por investigações de vários aliados do presidente.

Numa entrevista pré-gravada que foi ao ar no domingo (21) à noite, na rede ABC, Bolton disse que Trump havia proposto intervir na investigação do banco estatal turco Halbank por violações das sanções econômicas contra o Irã.

O republicano teria dito ao presidente turco, Recep Tayyip Erdogan: “Olha, aqueles promotores em Nova York são todos gente do Obama. Deixa que eu boto o meu pessoal lá e a gente cuida disso”.

O Distrito Sul abriga historicamente a mais temida equipe de promotores federais americanos, a ponto de ser conhecido pelo apelido de “Distrito Soberano.”

Nesta segunda (22), Trump voltou a atacar Bolton no Twitter, escrevendo que deu uma chance a uma pessoa que não poderia ser chancelada para um posto no gabinete pelo Senado por ser considerado um “doido”. Mas, queixou-se, “ele acabou por se mostrar grosseiramente incompetente e um mentiroso”.

Tuítes coléricos sobre traições pessoais não devem faltar nos próximos meses. Está marcado para o dia 28 de julho o lançamento de um livro de Mary Trump, sobrinha do presidente, com o título "Too Much and Never Enough: How My Family Created the World's Most Dangerous Man" (demais e nunca o bastante: como minha família criou o homem mais perigoso do mundo).

Mary é psicóloga e filha de Fred Trump 2º, o irmão mais velho de Donald Trump, que morreu de alcoolismo, em 1981, aos 42 anos.

Mary e o irmão Fred Trump 3º moveram processo contra os três irmãos do pai, Donald, Robert e Maryanne Trump, no começo da década passada, quando se consideraram roubados pelos novos termos do testamento do pai do atual presidente, Fred sênior, morto em 1999.

Uma das histórias que ela deve detalhar é sobre a reação de Trump à disputa pelo espólio do pai: cortar a assistência médica do sobrinho neto, filho de Fred Trump 3º, que nascera 18 meses antes com paralisia cerebral.

A família fez um acordo com Mary e Fred fora dos tribunais, e Trump mandou no domingo um recado, numa entrevista ao site Axios. Lembrou que o acordo do espólio inclui uma cláusula de confidencialidade.

Contagem regressiva para uma nova ação na Justiça para impedir a publicação das memórias da sobrinha.

Em setembro, será a vez do general H.R. McMaster, antecessor de Bolton na assessoria de Segurança Nacional. O militar da reserva escreveu “Battleground: The Fight to Defend the Free World” (campo de batalha: a luta para defender o mundo livre), e espera-se que ele vá explorar o dano causado pela errática política externa de Trump ao protagonismo e à segurança dos Estados Unidos.

McMaster é autor de um best-seller e leitura obrigatória entre oficiais e historiadores militares, o aclamado “Dereliction of Duty” (abandono do dever), de 1997, sobre o colossal fiasco americano na Guerra do Vietnã.

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