Descrição de chapéu Coronavírus

Monstros, fuga para a Lua, pazes com o ex: sonhos revelam efeito da pandemia sobre mente humana

Leia relatos de 14 pessoas de diferentes profissões ao redor do mundo

São Paulo

Monstros invisíveis, um buraco cheio de corpos doentes, tentar voltar para casa e não conseguir. A angústia de viver uma pandemia de um vírus pouco conhecido pode continuar nos assombrando quando dormimos, e por isso tanta gente relata estar tendo sonhos inquietantes como os descritos acima.

Se o que sonhamos reflete o que se passa na nossa mente em particular, analisados coletivamente os sonhos podem trazer elementos reveladores sobre um período histórico. Ao menos desde o século passado, coletâneas de sonhos têm ajudado pesquisadores a traçarem um panorama do efeito de acontecimentos críticos sobre o inconsciente coletivo.

Catarina Pignato

Um caso emblemático é o diário feito pela ensaísta alemã Charlotte Beradt com sonhos relatados por seus vizinhos entre 1922 e 1939, época da ascensão do nazismo e do começo da Segunda Guerra Mundial. Os relatos, considerados uma chave para analisar os efeitos de um regime totalitário na psiquê dos cidadãos daquele país, ficaram escondidos por um bom tempo, até serem publicados, em 1968, no livro “Sonhos do Terceiro Reich” (editado no Brasil pela Três Estrelas).

Em 1940, um soldado britânico capturado pelos nazistas anotou os sonhos de seus colegas em um campo de prisioneiros na Alemanha, com a intenção de estudá-los no futuro. Kenneth Davies Hopkins morreu no local antes de cumprir seu objetivo, mas seu caderno de anotações foi encontrado e estudado posteriormente.

Durante esta pandemia, especialistas em várias partes do mundo também estão fazendo suas coleções de sonhos. Uma delas é a psicóloga americana Deirdre Barrett. Professora da Universidade Harvard, ex-presidente da Associação Internacional para o Estudo dos Sonhos e autora de vários livros sobre o tema, Barrett já coletou cerca de 8.000 relatos de 3.610 pessoas, metade delas nos EUA e a outra metade em outros países, especialmente no Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.

Segundo ela, nos escritos apareceram desde sonhos literais, de ser atingido pelo vírus, até aqueles mais metafóricos, como sentir-se ameaçado por nuvens de insetos venenosos, um furacão, um incêndio ou hordas de bandidos. Há também aqueles relacionados com as recomendações de distanciamento social —sair e perceber que esqueceu a máscara ou alguém tossir em cima de você— ou com a solidão do isolamento —ver-se abandonado em uma ilha deserta. Alguns poucos, completa, são positivos, com a pessoa se recuperando da doença ou descobrindo a cura para toda a humanidade.

Em comum, afirma ela, esses sonhos carregam uma carga de ansiedade muito maior do que em “períodos mais normais”. Mas não chegam a ser pesadelos terríveis, a não ser no caso de profissionais de saúde que lidam com pacientes de Covid-19. “Estes estão tendo muito mais pesadelos traumáticos, que são reencenações literais de seus desafios diários: eles sonham com pacientes em ventiladores que tentam, sem sucesso, salvar."

Segundo Barrett, é possível dizer que a pandemia é um trauma para esses profissionais, para pacientes com Covid-19 e para pessoas que perderam entes queridos para a doença. Para os demais, é um "fator estressor", que tem gerado muitos "sonhos ansiosos" —não necessariamente traumáticos.

A especialista nota similaridades nos relatos ao redor do mundo, mas pontua uma diferença em relação aos sonhos com presidentes, primeiros-ministros, prefeitos e governadores —que, aliás, são muito mais frequentes agora do que em outros tempos: “Americanos e asiáticos geralmente colocam esse líder em um papel negativo, enquanto europeus sonham com esses políticos sendo úteis”, explica. Sua amostra na América Latina e na África, no entanto, não é suficiente para fazer uma avaliação nessas regiões.

Barrett procurou coletâneas de sonhos de outras pandemias, como a de gripe espanhola de 1918, mas não encontrou. O que notou é que há semelhanças no período atual para os relatos colhidos por Hopkins no campo de prisioneiros alemão, talvez pela similaridade da experiência do confinamento, já que as condições lá não eram tão ruins quanto nos campos de concentração: os prisioneiros eram adequadamente abrigados e alimentados, mas tinham restrições aos movimentos e à interação social.

“Uma diferença são os muitos sonhos de ataques de insetos agora, que não vemos em outras crises. Monstros invisíveis também aparecem mais nos sonhos pandêmicos”, completa.

A Folha pediu a pessoas ao redor do mundo que relatassem sonhos que tiveram durante a pandemia. Leia 14 deles a seguir.

Fuga para a Lua

"Eu, minha irmã e mais algumas pessoas estávamos a bordo da SpaceX para ir morar na Lua e fugir do coronavírus. No meio do caminho, tivemos que voltar para a Terra, mas conseguimos ir para a Lua de novo usando a Apolo 11. A parte boa é que, na segunda viagem, conseguimos levar minha mãe também. Então, todos os passageiros e a tripulação ficaram morando na Lua para escapar da pandemia."

Magdalena Estrada, 25, designer, Argentina

Ataque de 'romulanos'

"Meus primos e minha tia se mudavam de sua pequena cidade chuvosa na Irlanda para Malta. E minha família e eu fomos visitá-los. Chegar lá foi uma provação. Peguei o trem errado e o avião errado, por engano. Passei horas tentando chegar ao aeroporto. Era um sistema de metrô muito desconhecido, com trens em zigue-zague por todo o lugar. Quando finalmente cheguei a Malta, estávamos jantando em um restaurante em um píer cercado por janelas de vidro quando fomos atacados por “romulanos” [personagens de “Star Trek”]. [O personagem] Jean-Luc Picard estava lá e me deu conselhos sobre como afastá-los. Não queria voltar para Londres porque o tempo estava bom em Malta. Mas o país era muito pobre, com estradas de terra e edifícios meio acabados, então eu estava na dúvida sobre ficar ou voltar. Fui a um bar e conheci um cara que tinha acabado de fazer um doutorado aos 29 anos, algo que me deixou com ciúmes porque estou preocupado com minha carreira no momento. Então peguei o táxi errado e fui para a cidade principal de Malta. As condições de vida melhoraram um pouco, mas ainda não eram desejáveis. Eu vi uma [loja de departamento] Zara, acho."

Stephen Kenney, 38, gestor de ativos, Inglaterra

Buraco do fim do mundo

"O mundo estava acabando, e as pessoas estavam doentes. Aquelas que morriam contaminadas eram jogadas por militares dentro de um buraco, umas em cima das outras. Via familiares e pessoas conhecidas nessa cova, foi assustador. Os que sobreviviam tinham que se esconder dentro de um túnel e eu ficava fugindo dos militares para não ser jogada também. Tenho esse pesadelo todas as noites e estou arrasada, tanto que comecei a fazer terapia. Fico sempre achando que alguém vai levar a mim e aos meus filhos para algum lugar."

Dayciarys Reyes López, 31, gerente de alimentos, Venezuela

Carne com coronavírus

"A Covid-19 foi espalhada pela carne que as pessoas estavam comendo, e eu estava testando tudo antes de podermos comer. Também tentava impedir as pessoas de comerem carne quando sabia que estava contaminada."

Kim Hames, 67, médico, Austrália

O monstro nos alcançou

"Existiam alguns monstros, minhas amigas e eu tínhamos que fugir deles. Então pegávamos um carro, que por sinal era bem antigo, e aí fomos viajar na estrada. Tínhamos uma sensação de felicidade por viajar, porém estávamos fugindo desse monstro. E nessa fuga acabamos chegando na cidade onde minha mãe mora, São Roque (SP), e fomos a um restaurante, mas o monstro descobriu que estávamos lá. Aí acordei com ansiedade e com medo."

Juliana Ribeiro, 30, supervisora de marketing, EUA

Fazendo as pazes com o ex

"Sonhei que conversava com meu ex-namorado sobre os problemas do nosso relacionamento. Estávamos em um hotel em um país estrangeiro e conversamos sobre reestabelecer a comunicação ou uma amizade e superar o passado. Foi bom, pois sentimos que era hora de lidar com nossas questões e seguir em frente. Nesta quarentena tenho sonhado muito com pessoas com quem não tenho uma boa relação. Acho que meu inconsciente está me dizendo que é hora de fazer as pazes com elas. Isso por que estamos passando é uma oportunidade de olhar para dentro e ficar bem com a gente e com os outros."

Jean-Pierre Doumbeneny, 40, técnico em informática, Canadá

Contaminei minha família

"Acordei me sentindo mal. Achei que poderia ser cansaço, mas os sintomas pioraram e, no dia seguinte, minha filha, meu pai e minha mãe passaram mal também. Fomos ao hospital e foi diagnosticado o coronavírus em todos nós. Me senti muito culpada, porque trabalho em uma unidade hospitalar e, por mais que me cuide, estou exposta. Eu só pensava que era a única que poderia ter transmitido o vírus para eles. Acordei e a primeira coisa que fiz foi olhar para minha filha e ver que estava tudo bem. Foi um alívio. Tenho essa preocupação constante de contaminar minha família e não estou tendo boas noites de sono."

Suzete de Carvalho Alfredo, 33, assistente de finanças de um hospital, Angola

Sem passagem de volta

"Eu estava no Rio de Janeiro, onde ia visitar amigos numa casa coletiva que era o misto do local onde eu morei na juventude e um espaço novo. No sonho, eu era visitante, mas ao mesmo tempo morador, e as pessoas eram conhecidas e, ao mesmo tempo, desconhecidas. Num dado momento, eu estava de retorno para casa e seguia para o aeroporto. Descobria, então, que não tinha a passagem: eu procurava e não encontrava. Ficava me questionando: como eu perdi essa passagem? Não tinha dinheiro para comprar outra. Precisava voltar ao Japão e entrei em pânico."

Roberto Maxwell, 45, consultor de viagem, Japão

Topless na galeria de arte

"Tive um sonho em que visitava galerias no Chelsea, o distrito artístico de Nova York. Vi exposições com esculturas de vidro coloridas em rodapés. Conversei com alguns amigos, artistas e galeristas. Eu tinha um compromisso com alguém em uma das galerias. Eles sabiam quem eu era, e tudo era incrivelmente familiar, um espaço que eu havia percorrido no passado. Esperando que o sujeito do meu encontro aparecesse, percebi que estava fazendo "topless". Eu me sentia confortável até me dar conta disso. Uma das diretoras da galeria veio me encontrar e disse que nossa reunião seria impossível, já que eu estava sem camisa. Ela falou isso com bondade nos olhos. Meu braço esquerdo passou por sobre meu peito, instintivamente. Depois de não visitar nenhum museu ou galeria desde o início de março, sinto falta de assistir pessoalmente a exposições de arte."

Katy Hamer, 43, crítica de arte, EUA

Dificuldade de interpretação

"Eu sempre fui um bom aluno em matemática, mas desde o confinamento já sonhei pelo menos duas vezes com o seguinte: estou nas aulas da escola e não consigo resolver os exercícios de matemática que me são propostos resolver. Eu olho e não consigo interpretar nada. Curioso ou não, ontem passei na página da minha escola secundária e no meio de fotos de desconhecidos, lá estava ela, a minha professora de matemática dos dois últimos anos antes de entrar na faculdade. Agora preciso encontrar um interpretador de sonhos para me dizer o que foi isto tudo."

Ricardo Silvestre, 41, bancário, Portugal

Mudança de planos na vida real

"Sempre quis conhecer o Brasil e cheguei no dia 11 de março. Estava em São Paulo, esperando a conexão que me levaria no dia seguinte ao Rio, quando tive um sonho que mudou todos os meus planos. Eu saía para pegar um táxi até o aeroporto de Guarulhos. As ruas estavam vazias, o silêncio era sepulcral. Com o coração apertado, subi no primeiro táxi que apareceu. De repente senti a presença de alguém a meu lado. Não tive coragem de virar o rosto para ver quem era, fechei os olhos, só queria chegar. No aeroporto, no trajeto até o terminal, encontrei minha irmã. Quase não a reconheci, fazia meses que ela não aparecia nos meus sonhos. Desde sua partida, há dois anos, essa é nossa forma privilegiada de nos comunicarmos. Ela não falou comigo, só mexia repetidamente a cabeça em um gesto negativo. Compreendi a mensagem. Acordei e o que fiz primeiro foi cancelar minha viagem ao Rio. As notícias eram alarmantes, a pandemia nos alcançava. Encontrei um voo humanitário para voltar a Lima, o único antes que as portas do passado se fechassem diante do novo mundo que apareceu. Não sei expressar em palavras o alívio que senti quando ao fim as portas do avião se fecharam."

Sara Castro Palacios, 34, terapeuta, comunicadora social e clown humanitário, Peru

A humanidade desapareceu

"Meu namorado e eu estávamos acampando no mato e, quando voltamos, não havia carros na estrada e todo mundo havia desaparecido por causa da Covid-19. Não sabíamos o que havia acontecido, estava tudo deserto."

Tifanny Hames, 26, estudante de enfermagem, Austrália

A ruiva e o termômetro

"Acordava em um quarto lindo, todo amadeirado. Aparentemente eu fazia parte de uma família muito rica da Espanha, dona da indústria farmacêutica mais famosa do país. Aparecia uma mulher elegante, de cabelos ruivos, roupa verde musgo e um sorriso bem branco, mas um tanto sádico. Senti medo, mas a acompanhei até a fábrica de medicamentos. Lá, vi que ela entrou em um corredor escuro e foi parar em um laboratório secreto. Ela testava medicamentos em pessoas viciadas em remédio. Era um grande galpão, cheio de contêineres repletos de tubos de ensaios usados. Então eu vi uma menina muito magra e perdida, procurando uma saída. Ela chorava baixinho e, ao perceber a mulher ruiva, se escondeu em um dos contêineres. Mas a mulher foi exatamente em direção a ela, mediu sua temperatura, tocou sua testa e ironicamente disse: “Nossa, como você está gelada, deixa eu te ajudar, vou aumentar essa temperatura”. Logo depois ela apertou um botão, o que fez o contêiner desmontar e jogar o corpo da moça para dentro de um forno industrial. Foi horrível, eu via a temperatura exatamente de 76ºC e a menina gritava "Mámá!!" [mamãe] e logo aparecia a imagem da fábrica feita de concreto onde ninguém poderia ouvir os gritos."

Amanda Urbaez, 27, bióloga, Bélgica

Cada um por si

"Era um cenário meio pós-apocalíptico e parecia que cada pessoa estava vivendo por conta própria. Ainda assim, todos estavam muito eufóricos porque uma vacina contra a Covid-19 tinha acabado de ser descoberta e estava sendo distribuída gratuitamente. Como não havia profissionais de saúde para vacinar todo mundo, cada pessoa tinha que pegar o seu kit vacina e aplicar sozinha. Eram duas seringas com agulhas curtas, mas bem grossas. As instruções diziam que, com uma das agulhas, a gente teria que furar o braço ou o pescoço, e só depois aplicar a vacina com a segunda seringa. Eu apliquei no braço e foi muito doloroso. Aí a gente começou a questionar a eficácia desse método, porque muitas pessoas não leriam as instruções e não iam conseguir aplicar do jeito certo. Então o sonho que começou superfeliz acabou com um tom sério de preocupação porque talvez nem a vacina resolvesse o problema do coronavírus."

Otávio Manzano Kavakama, 31, músico, EUA

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