Países avançam em planos para realizar eleições em meio à pandemia

Rússia, Polônia e Espanha terão votações nas próximas semanas

São Paulo

A pandemia de coronavírus segue matando milhares de pessoas por dia, mas ao menos nove países (EUA, Rússia, Espanha, Polônia, Bolívia, Chile, Islândia, Maláui e Belarus) avançam em planos para realizar eleições e votações gerais em breve.

A maioria deles havia adiado as votações, marcadas para o período entre março e maio, devido ao auge da pandemia, e agora irão às urnas já a partir do fim de junho.

Mesário usando proteção facial para evitar transmissão do novo coronavírus entrega cédula a eleitora nas primárias da Filadélfia (EUA)
Mesário usando proteção facial para evitar transmissão do novo coronavírus entrega cédula a eleitora nas primárias da Filadélfia (EUA) - Joshua Roberts - 2.jun.20/Reuters

Realizar as votações agora pode favorecer governos que buscam a reeleição, desde que eles não tenham cometido erros marcantes. Líderes no poder tiveram grande espaço na mídia nos últimos meses —e alguns deles anunciaram medidas positivas, como auxílios emergenciais, que trazem ganhos de imagem.

“Em momentos de incerteza, as pessoas tendem a favorecer as opções que já conhecem”, avalia Leandro Consentino, cientista político e professor da Fespsp (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo).

Outros fatores ajudam os governantes no cargo: os efeitos da crise econômica gerada pela paralisação das atividades ainda não são plenamente sentidos, e o isolamento social dificulta —embora não impeça— a realização de protestos, que tendem a minar a imagem das autoridades e fortalecer a oposição.

“Criticar o governo em meio à uma crise de saúde também pode parecer oportunismo, então muitos nomes da oposição preferem ficar quietos”, diz Cosentino.

Na Polônia, o partido nacionalista PiS (Lei e Justiça) pressionou para que a eleição presidencial fosse marcada para 27 de junho, de modo a evitar que o presidente Andrzej Duda sofra com o desgaste gerado pela pandemia. Pesquisas recentes mostram que a vantagem de Duda na liderança diminuiu nos últimos meses e que ele perderia no segundo turno para outros dois candidatos.

O PiS tem implantado medidas autoritárias, como limitar a independência do Judiciário e cercear opositores. Essas ações foram questionadas pela União Europeia, que abriu uma investigação.

Na Espanha, haverá duas eleições regionais em 12 de julho, na Galícia e no País Basco, com ampliação do votação pelo correio para todos. Antes, apenas eleitores com problemas de saúde podiam usar essa opção.

Para votar a distância, é preciso fazer um pedido antecipado, pela internet, e ter um certificado digital. Os carteiros levarão as cédulas até as casas e vão conferir a identidade dos eleitores ao receber os envelopes com os votos. Não será preciso assinar nada, para diminuir o risco de contágio.

Os profissionais dos correios temem que isso gere uma sobrecarga de trabalho e pediram que o governo contrate temporários para ajudá-los.

Nas duas regiões espanholas, os atuais governos devem ser reeleitos, segundo pesquisas feitas em maio. O PP (direita) governa a Galícia desde 2010, e o PNV (centro-direita) comanda o País Basco desde 2012.

Outro mandatário de longa data que busca seguir no poder é Alexander Lukashenko, 65, líder de Belarus desde 1994. O país votará em 9 de agosto.

Lukashenko defendeu soluções bizarras e ineficazes para lidar com o coronavírus, como ir à sauna, tomar vodca e praticar esportes no gelo. Sem medidas de distanciamento social, Belarus soma mais de 45 mil casos de Covid-19.

A má gestão da crise sanitária deu forças para a oposição, que busca juntar assinaturas para viabilizar candidatos. Para disputar a Presidência, é preciso reunir 100 mil apoios. Na capital, Minsk, houve filas de mais de 1 km na semana passada de pessoas dispostas a assinar listas de endosso.

Apelidado de "barata" por seus críticos, Lukashenko é conhecido por perseguir adversários. Ao menos dois possíveis candidatos foram presos nos últimos dias. Na segunda (1º), ele comparou os apoiadores da oposição a gangues de criminosos.

Na campanha, o mandatário diz ser um símbolo da estabilidade que o país precisa. "Só que essa estabilidade é como a de um cemitério", rebate Viktor Babariko, um dos pré-candidatos de oposição.

Analistas apontam que a União Europeia e os Estados Unidos resistem a conter o autoritarismo de Lukashenko por receio de que retaliações possam aproximá-lo ainda mais da vizinha Rússia, que também votará em breve.

Em 1º de julho, um referendo sobre mudanças na Constituição dará ou não o aval para que Vladimir Putin, 67, possa disputar mais dois mandatos e seguir no poder até 2036.

Mesmo em meio à crise, reforçada na Rússia pela queda do preço do petróleo, Putin tinha 47% de aprovação em maio, segundo uma pesquisa citada pela agência Reuters.

O Kremlin disse esperar que o número de casos de coronavírus baixe até o dia da votação. A Rússia demorou a adotar medidas de distanciamento social e se tornou o terceiro país com mais casos de Covid-19 no mundo, com quase 500 mil.

Na Bolívia, quem pressionou pela realização rápida da eleição presidencial foi a oposição. O país é governado de modo interino por Jeanine Añez, senadora que tomou posse em novembro, após a renúncia do ex-presidente Evo Morales.

Depois de um acordo entre governo e oposição —que tem maioria no Congresso—, a votação presidencial foi marcada para 6 de setembro.

"Mesmo durante a pandemia, vale fazer eleições, porque Añez está usando o coronavírus para centralizar poder e fazer campanha, enquanto os demais candidatos estão em quarentena", disse Luis Arce, candidato de Evo, em entrevista recente à Folha.

No Chile, o plebiscito sobre a criação de uma nova Constituição foi adiado para outubro. Sua realização foi uma resposta aos protestos que tomaram o país no fim de 2019 e pediam mais igualdade social.

O país decidiu sair da quarentena ainda em maio, antes de ter a pandemia controlada, e precisou recuar após uma forte alta nos casos.

Já a nação mais atingida pela pandemia no mundo, os Estados Unidos, mantém as eleições presidenciais para novembro. A quarentena ajudou a acelerar a definição das primárias, que apontaram Joe Biden como provável candidato democrata. Ele espera a confirmação em uma convenção nacional, marcada para agosto.

A votação pelo correio foi usada por cerca de 25% dos eleitores nas votações de 2016 e 2018, segundo a CNN. Nos EUA, cada estado define suas regras. Michigan, Nevada e Califórnia facilitaram o voto postal neste ano, enquanto a Justiça do Texas barrou a ampliação da prática.

O presidente Donald Trump, 73, que disputa a reeleição, fez várias acusações de que o voto postal tem maior risco de fraudes, sem apresentar provas. Ele chegou a ameaçar cortar fundos federais de Michigan se o Estado permitisse que todos votassem pelo correio.

A realização de campanhas sem eventos presenciais deverá reforçar a importância das ações virtuais, como a divulgação em redes sociais, já bastante usada nos últimos anos.

O risco, no entanto, é o uso dessas redes para espalhar mentiras e fake news sobre rivais, prática que as empresas de tecnologia e a Justiça ainda enfrentam dificuldades para combater.

O WhatsApp tem limitado o processo de reencaminhamento de mensagens, o que freia sua disseminação, e o Twitter passou a colocar avisos em postagens de políticos, incluindo Trump, que contêm mentiras.

No entanto, o Facebook, dono também do WhatsApp e do Instagram, assumiu uma postura tolerante em relação a postagens que estimulam a violência contra atos antirracismo, no que foi visto como uma concessão a Trump.

No Brasil, haverá eleições municipais em outubro. Seu possível adiamento está em debate, mas nada foi confirmado até a conclusão desta reportagem.

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