Pandemia e euro a R$ 6 podem provocar êxodo de alunos brasileiros de Portugal

Universidade de Coimbra sofreu redução de 20% nas candidaturas de estudantes estrangeiros

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Lisboa

Graças à língua em comum e à simplicidade de seus processos seletivos, Portugal se transformou em um dos maiores destinos dos estudantes brasileiros no exterior.

A pandemia do novo coronavírus e a alta do euro, porém, podem provocar um êxodo de alunos brasileiros. A situação afeta tanto quem já está no país quanto aqueles que tinham planos de viajar neste ano.

Principal referência para os brasileiros em Portugal, a Universidade de Coimbra sofreu uma redução de 20% nas candidaturas de alunos estrangeiros em relação ao mesmo período do ano anterior.

Alunos com os tradicionais trajes negros caminham pelo Pátio das Escolas, prédio mais antigo da Universidade de Coimbra, em Portugal - Ticiana Giehl - 27.set.17/Escolha Viajar/Folhapress

A desvalorização recorde do real frente ao euro é uma das principais razões. A moeda europeia, que começou o ano com cotação de R$ 4,50, chegou ao fim de maio em R$ 6,36.

Como muitos estudantes, sobretudo os da graduação, são mantidos na Europa com recursos que a família envia do Brasil, a permanência em Portugal acabou inviável.

A desaceleração da economia portuguesa também impacta os estudantes. Muitas empresas do país cancelaram programas de estágios e novas contratações, enquanto restaurantes e atividades ligadas ao turismo, que costumam empregar muitos alunos, foram obrigados a fechar as portas.

Estudante de mestrado em direito em Lisboa, a carioca Carolina Sá, 28, está se preparando para voltar ao Brasil.

“Meu sonho sempre foi fazer uma pós-graduação fora, mas infelizmente vou ter de adiar esses planos. Minha família, que me ajudava a me manter em Portugal, já não pode mais ajudar”, diz ela, que relata não ter mais condições de arcar com as despesas de mensalidade, casa e alimentação em euros.

Aluno de mestrado em engenharia em Coimbra, Denner Déda, 24, também cogitou voltar ao Brasil devido aos problemas econômicos causados pela pandemia. Um estágio na universidade e a não cobrança de juros nas parcelas atrasadas o ajudaram a permanecer na Europa.

Déda conta que negociou novos prazos com a universidade para o pagamento das mensalidades e diz que está se mantendo com esse dinheiro. "Não do mesmo jeito que era anteriormente, mas ainda estou aqui.”

Associações de estudantes têm se mobilizado para viabilizar maneiras de pressionar o governo a reduzir ou isentar os alunos das mensalidades. Até agora, no entanto, as cobranças seguem em ritmo normal, embora algumas instituições tenham, por iniciativa própria, oferecido alternativas.

Rafael Firpo, presidente da Apeb (Associação de Pesquisadores e Estudantes Brasileiros em Coimbra), diz que a Covid-19 impactou bastante os alunos estrangeiros —além da questão econômica, há o problema de enfrentar uma emergência de saúde pública em outro país.

“O estudante internacional, especialmente o brasileiro, está sempre com os amigos. E uma das medidas de prevenção foi justamente o distanciamento social. Então, além de estar longe de casa, o estudante internacional teve se distanciar das pessoas queridas. Teve um impacto grande na saúde mental”, afirma.

Segundo Firpo, ainda não há números sobre o impacto nos brasileiros, mas já há registros de alunos que voltaram ao Brasil e de outros que desistiram de matrículas que estavam encaminhadas.

Para tentar reverter desistências de novos alunos, a Universidade de Coimbra está cobrando apenas uma mensalidade (cerca de 700 euros, ou R$ 3.979) no ato da matrícula de estudantes internacionais, e não três, como fazia anteriormente.

Para Felippe Vaz, coordenador de assuntos pedagógicos da Apeb, que conduziu uma pesquisa com 205 estudantes brasileiros sobre os impactos econômicos da pandemia, o resultado do levantamento é alarmante.

“Cerca de 60% disseram que a crise pode fazer com que seja preciso abandonar os estudos em Portugal. Apenas 14% disseram que continuariam estudando em Portugal independentemente da crise. É muito alarmante, e nós já estamos vendo isso na prática.”

Nos últimos anos, muitas universidades portuguesas têm investido na atração de estudantes brasileiros, que já representam quase 30% dos alunos internacionais do ensino superior do país.

Uma alteração legislativa de 2014 permitiu que as instituições públicas cobrem preços diferentes para quem não é cidadão da União Europeia. Em alguns casos de mestrado e graduação, um aluno brasileiro paga até sete vezes o valor pago por um português pelo mesmo curso.

De olho nesse importante mercado, e tendo em conta o adiamento do Enem —50 universidades lusas aceitam o exame—, muitas universidades portuguesas optaram por ampliar o período de inscrições para estudantes internacionais.

Para os já matriculados, algumas também criaram formas de apoio. Com uma grande quantidade de brasileiros, a Universidade do Algarve, no sul de Portugal, criou uma linha emergencial e forneceu alojamento e refeições para os estudantes. Cerca de cem alunos brasileiros já se beneficiaram do programa.

A Universidade de Coimbra diz ter criado um “apoio de contingência, dirigido aos estudantes internacionais e de mobilidade que estejam em situação de comprovada emergência (sem meios para prover as necessidades básicas de alojamento, saúde e alimentação)”.

No primeiro trimestre, havia cerca de 17.300 estudantes brasileiros no ensino superior de Portugal.

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