Protestos antirracismo vão provocar uma 2ª onda de coronavírus nos EUA?

Covid-19 já matou mais de 100 mil americanos

Roni Caryn Rabin
The New York Times

Protestos em massa contra a brutalidade da polícia levaram milhares de pessoas a sair de casa e ocupar as ruas de diversas cidades nos Estados Unidos, levantando o fantasma de novos surtos do coronavírus.

Líderes políticos, médicos e especialistas em saúde pública advertiram que as aglomerações de pessoas podem causar o aumento dos casos.

Um menino negro, de máscara azul e moletom preto está parado em frente a uma filha de policiais com uniformes pretos. Alguns deles usam máscaras
Manifestante em frente a policiais durante protesto pela morte de George Floyd em Nova York, nos EUA - Timothy A. Clary - 1.jun.2020/ AFP

Muitos líderes políticos reafirmaram o direito de os manifestantes se expressarem, mas também pediram que eles usem máscaras e mantenham o distanciamento social, tanto para se protegerem quanto para evitar uma maior disseminação do vírus na comunidade.

Mais de 100 mil americanos já morreram de Covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. As pessoas pretas e pardas foram especialmente atingidas, com porcentagens de hospitalização e mortes superando em muito as da população branca.

Os protestos em dezenas de cidades americanas foram instigados pela morte de George Floyd, na semana passada, após detenção pela polícia de Minneapolis, no estado de Minnesota.

A inquietação e a revolta que se espalham das ruas de uma cidade para outra refletem as tensões acumuladas durante décadas de mortes cometidas pela polícia e ao mesmo tempo a perda repentina de parentes e amigos pelo vírus.

O aumento espontâneo dos protestos ocorre enquanto muitos estados começam cautelosamente a retomar as atividades econômicas, após semanas de ordens de confinamento, com milhões de americanos desempregados.

Restaurantes, escolas, praias e parques estão sob observação enquanto a população experimenta praticar novas formas de distanciamento social.

Em Los Angeles, na Califórnia, onde as manifestações causaram o fechamento de locais de teste do vírus no sábado (30), o prefeito Eric Garcetti advertiu que os protestos poderão se tornar "eventos superpropagadores", referindo-se aos tipos de reuniões, geralmente em ambientes fechados, que podem causar uma explosão de infecções secundárias.

O governador Larry Hogan, de Maryland (nordeste), republicano, manifestou preocupação de que seu estado sofra um aumento de casos em cerca de duas semanas, o tempo aproximado para o surgimento dos sintomas depois que uma pessoa é infectada.

Já a prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, avisou as pessoas que protestavam nas ruas para "fazerem o teste de Covid-19 nesta semana".

Alguns especialistas em doenças infecciosas foram tranquilizados pelo fato de que as manifestações ocorrem em espaços abertos, dizendo que esses ambientes podem atenuar o risco de transmissão.

Além disso, muitos manifestantes usavam máscaras, e em alguns lugares pareciam evitar aglomerações muito densas.

"O ar livre dilui o vírus e reduz a dose infecciosa que poderia haver, e se houver brisa ou vento isso dilui ainda mais o vírus no ar", disse o doutor William Schaffner, especialista em doenças infecciosas na Universidade Vanderbilt.

"Havia muita correria, o que significa que eles exalam mais profundamente, mas também passam uns pelos outros muito rapidamente."

As aglomerações tendem a ser de jovens adultos, comentou ele, e estes geralmente têm uma evolução melhor caso adoeçam, mas há o risco de transmitirem o vírus para parentes e pessoas na mesma casa que sejam mais velhas e suscetíveis.

Mas outros ficaram mais preocupados com o risco representado pelas marchas. Howard Markel, historiador médico que estuda pandemias, comparou as multidões nos protestos com as marchas realizadas em cidades americanas como Filadélfia e Detroit em plena pandemia de influenza em 1918, que frequentemente foram seguidas de surtos da gripe.

"Sim, os protestos são em áreas abertas, mas na verdade as pessoas estão muito próximas umas das outras, e nesse caso estar ao ar livre não as protege tanto", disse Markel.

"As reuniões públicas são aglomerações —não importa sobre o que você esteja se manifestando. Esse é um dos motivos pelos quais não estamos tendo grandes partidas de beisebol e talvez não tenhamos futebol universitário neste ano."

Apesar de muitos manifestantes estarem usando máscaras, outros não usavam. O vírus Sars-CoV-2, que causa a Covid-19, é transmitido principalmente por gotículas da respiração quando as pessoas falam, tossem ou espirram; gritar slogans durante um protesto pode acelerar a disseminação, segundo Markel.

O gás lacrimogêneo e o spray de pimenta, que a polícia usou para dispersar as multidões, faz as pessoas chorarem e tossirem e aumentam as secreções respiratórias dos olhos, do nariz e da boca, causando maior possibilidade de transmissão.

Os esforços da polícia para dispersar as multidões em áreas urbanas densas podem encurralar as pessoas em espaços reduzidos.

E as emoções estão aquecidas, segundo Markel. "As pessoas se perdem no momento e perdem a consciência de quem está perto delas, quem não está, quem está de máscara ou não."

A maior preocupação é a que incomoda os especialistas em doenças infecciosas desde o início da pandemia, e é a arma secreta do coronavírus: ele pode ser transmitido por pessoas que não apresentam sintomas e se sentem saudáveis para participar de manifestações.

"Há um número enorme de portadores assintomáticos, o que os torna extremamente perigosos", disse o médico.

O doutor Ashish Jha, professor e diretor do Instituto de Saúde Global em Harvard, disse que mais da metade das infecções de coronavírus são disseminadas por pessoas assintomáticas, incluindo algumas que estão infectadas mas não desenvolvem sintomas e outras que ainda não sabem que estão doentes.

Deter, transportar ou pôr pessoas na cadeia aumenta o potencial de disseminar o vírus. Jha pediu que os manifestantes evitem a violência e pediu que a polícia se contenha.

O médico Scott Gottlieb, ex-comissário da Administração de Alimentos e Drogas americana, também afirmou em um programa de TV que os protestos levariam a novas "cadeias de transmissão".

Segundo ele, as desigualdades sociais e econômicas, incluindo o baixo acesso a tratamentos de saúde, a discriminação nos ambientes de saúde, a maior dependência do transporte público e as diferenças no emprego são fatores que levam a uma maior incidência de Covid-19 entre pessoas não brancas.

"Deter a pandemia vai depender de nossa capacidade de cuidar de nossos mais vulneráveis, médica e socialmente", disse Gottlieb. "Precisamos absolutamente resolver esses problemas subjacentes para eliminar o risco de disseminação pandêmica da epidemia." ​

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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