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Retrato de Trump feito por Bolton atinge coração do discurso de republicano contra China

Livro descreve presidente americano como despreparado e manipulado por Xi Jinping em encontros do G20

Lúcia Guimarães
Nova York

Obstrução de justiça. Conluio com poderes adversários. Endosso de assassinato e campos de concentração. Fofocas. Esses elementos numa só narrativa de não ficção poderiam produzir um livro para se devorar com o apetite aumentado pela quarentena pandêmica.

Mas, com 494 páginas, o volume de memórias de John Bolton, o ex-assessor de Segurança Nacional de Donald Trump, como qualidade de leitura, mal serve para escorar uma porta aberta numa lufada de vento.

John Bolton, então conselheiro de Segurança Nacional, observa o presidente Donald Trump durante reunião na Casa Branca - Saul Loeb - 17.mai.2018/AFP

O lançamento do livro, na terça-feira (23), depende de uma ação movida pelo Departamento de Justiça para impedir a publicação. A decisão do juiz sobre o caso pode vir no fim de semana ou na segunda-feira.

Apesar de entediar pelo estilo grandioso, "The Room Where It Happened: A White House Memoir" (a sala onde aconteceu: um livro de memórias da Casa Branca) é o relato mais incriminador entre os que foram produzidos por ex-membros do governo Trump.

O título confirma a cara de pau de Bolton, um veterano falcão da política externa americana pessoalmente detestado por um amplo leque de colorações ideológicas em Washington.

“A sala onde aconteceu” é um verso repetido no rap do segundo ato do musical "Hamilton", de Lin Manuel Miranda, um fenômeno da Broadway, este sim uma unanimidade no coração de toda a aquarela política.

O livro não contém grandes revelações sobre os primeiros três anos de desmandos, corrupção, desmonte institucional e encolhimento da importância geopolítica do superpoder do século 20, mas é um registro histórico. Bolton testemunhou 17 meses desse drama e renunciou em setembro passado.

Na hora de dar seu testemunho sob juramento, nas audiências do impeachment, não compareceu e preferiu guardar o que sabia para faturar no direito autoral.

Sem pudor pelo prévio silêncio, Bolton acusa os democratas na Câmara de se concentrar erroneamente no “Ucraniagate” como o pior exemplo de uso da política externa para ganho pessoal por Trump quando, afirma, havia um amplo espectro de malfeitos similares, envolvendo países como China, Rússia e Turquia.

A China é protagonista nos exemplos citados por Bolton, e eles formam um cenário espantoso cujo reparo vai ser uma dura tarefa para a diplomacia americana. Um trecho do livro publicado na quarta-feira (17) pelo Wall Street Journal revela um bufão despreparado manipulado por Xi Jinping em encontros do G20.

Trump, relata Bolton, pediu ao líder chinês para facilitar sua reeleição comprando mais produtos agrícolas americanos.

As palavras exatas do encontro foram vetadas pelo processo de revisão imposto a memórias de ex-funcionários do Executivo, mas a revista Vanity Fair obteve o texto censurado: “Tenha certeza de que eu vou ganhar. Eu vou provavelmente ganhar, de qualquer maneira, então, não prejudique meus agricultores... Compre muita soja e trigo e garanta que eu vença a eleição".

Em 2019, Trump teria oferecido aos chineses retirar acusações criminais na Justiça americana contra a empresa de telecomunicações Huawei para apressar um acordo comercial que considerava seu trunfo na campanha de reeleição.

Bolton escreve que não consegue se lembrar de qualquer decisão significativa de Trump que não misturasse interesse pessoal e nacional e não fosse motivada por cálculos para a reeleição.

A mancha indelével na reputação dos EUA pode ter sido imposta por um diálogo entre Trump e Xi, no jantar de abertura do encontro do G20 em Osaka, no Japão, em junho de 2019.

Num trecho já publicado, Bolton escreve: “Xi explicou por que estava basicamente construindo campos de concentração em Xinjiang. De acordo com nosso intérprete, Trump disse que Xi devia ir adiante construindo os campos, ele achava que era exatamente a coisa certa a fazer”.

Os campos construídos para isolar mais de 1 milhão de membros da minoria muçulmana uigur foram denunciados como cenários de tortura, esterilização e estupro de mulheres para promover “unidade étnica”.

Bolton explica a decisão de Trump de defender em público o príncipe saudita Mohammed bin Salman, acusado de ordenar o brutal assassinato e esquartejamento do jornalista dissidente Jamal Kashoggi, colunista do Washington Post, dentro do consulado saudita em Istambul, em 2018.

Ivanka Trump, assessora e filha favorita do presidente, tinha sido denunciada pelo Post por uso impróprio de conta pessoal de e-mail para tratar de assuntos de governo.

Trump emitiu um comunicado que começava com as frases “América primeiro!” e “o mundo é um lugar muito perigoso”. E teria dito: “Isto vai distrair da Ivanka. Se eu ler o comunicado pessoalmente, vai encobrir a coisa com a Ivanka”.

Trump fez campanha pedindo a prisão da democrata Hillary Clinton por uso de um servidor de e-mail privado quando era secretária de Estado.

O presidente, segundo Bolton, queria que jornalistas fossem presos se não revelassem suas fontes e se referia a eles como “escória” que deveria ser executada.

Bolton usa exemplos da ignorância de Trump, como perguntar se a Finlândia é território russo e se surpreender ao saber que o Reino Unido é um poder nuclear, para acertar contas pessoais.

Revela que o secretário de Estado e puxa-saco presidencial Mike Pompeo lhe passou um bilhete com as palavras “ele é um baita mentiroso” durante o encontro de Trump com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, em 2018. Pompeo teria dito que Trump tinha “zero probabilidade de sucesso” com a Coreia do Norte.

Bolton tinha feito lobby por uma vaga no gabinete de Trump antes da posse. Dizem que o presidente eleito, obcecado com imagem na mídia, teria passado mais tempo debatendo o bigodão de Bolton do que seu apetite para começar uma guerra com o Irã e outra com a Coreia do Norte.

E preferiu nomear o general H.R. McMaster para a segurança nacional. O livro de Bolton não revela um patriota dissidente. Revela um mal-amado. ​

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