Descrição de chapéu The New York Times

Trudeau pausa por 21 segundos antes de conseguir comentar ameaça de Trump a manifestantes

(Falta de) reação do premiê canadense circulou pela internet e virou notícia no país

Catherine Porter
Toronto | The New York Times

Quando questionado o que pensava do chamado de Donald Trump por ação militar contra manifestantes americanos e o uso de gás lacrimogêneo contra ativistas pacíficos para abrir caminho para o presidente posar para fotos, o primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, parou no pódio por 21 segundos de silêncio desconfortável. Abriu a boca, depois a fechou de novo —duas vezes. Gemeu baixinho.

Finalmente, numa cena na terça-feira (2) que já se disseminou pela internet, Trudeau disse: “Todos assistimos com horror e consternação ao que está acontecendo nos Estados Unidos”.

O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, pausa durante entrevista coletiva em Ottawa
O primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, pausa durante entrevista coletiva em Ottawa - Blair Gable - 2.mai.2020/Reuters

De sua posição ao norte dos Estados Unidos, os canadenses vêm assistindo em choque ao que está acontecendo no país que há muito tempo veem como seu protetor e aliado mais próximo, mas que agora parece um desconhecido desvairado, instável e perigoso.

Boa parte do sentimento de horror no país se concentra sobre Trump. Mesmo os jornais conservadores canadenses se encheram de colunas, como uma de Gary Mason, declarando: “Não poderia haver uma pessoa mais assustadora habitando a Casa Branca neste momento”.

“O que ele está fazendo é intencional. Ele está propositalmente fomentando a discórdia e a raiva para que possa concorrer à reeleição numa plataforma de lei e ordem”, concordou Janice Stein, diretora fundadora da Escola Munk de Assuntos Globais da Universidade de Toronto. “É chocante.”

A maioria dos canadenses começou a rejeitar Trump dois anos atrás, quando ele impôs tarifas sobre as exportações canadenses de aço e alumínio, ameaçou tirar o Canadá do acordo continental de livre comércio e insultou Trudeau, dizendo que o premiê era “muito desonesto e fraco”, momentos depois de deixar a cúpula do G7 da qual Trudeau fora o anfitrião.

Mas a opinião pública canadense a respeito de Trump caiu ainda mais durante a pandemia.

Enquanto os políticos no Canadá deixaram suas diferenças de lado para cooperar para proteger a população contra o coronavírus, Trump é visto como tendo politizado a pandemia para contribuir com o esforço para sua reeleição.

“Meu sentimento é de tristeza profunda —tristeza ao ver comunidades que respeitamos sendo dilaceradas de tal maneira e tristeza ao constatar a perda de vidas na pandemia”, comentou Frank McKenna, ex-premiê da província de New Brunswick e ex-embaixador canadense nos EUA.

“A polarização nos EUA está tão grande que a simples questão de usar ou não uma máscara é carregada de implicações políticas. É doloroso de se ver.”

Mas Trudeau não ousou criticar Trump abertamente na resposta que deu na terça-feira. Em vez disso, como muitos outros líderes canadenses, ele optou por tecer reflexões sobre o racismo do qual são vítimas canadenses negros e outras minorias no país.

No fim de semana passado houve protestos em todo o país em apoio a George Floyd, homem negro morto por um policial branco em Minneapolis.

Em Toronto, os protestos também disseram respeito à morte de Regis Korchinski-Paqueta, uma mulher negra de 29 anos que caiu do apartamento de sua família em um arranha-céu pouco após a chegada da polícia em resposta a um pedido de socorro. O incidente está sendo investigado.

“É hora de reconhecermos que também nós, canadenses, temos nossos desafios”, disse Trudeau, cujo próprio histórico em relação a racismo foi gravemente maculado quando, durante a campanha para sua reeleição em 2019, vieram à tona fotos antigas em que ele usava blackface e brownface.

“Existe racismo sistêmico no Canadá”, disse Trudeau.

Tradução de Clara Allain

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