Trump deve enfrentar ativismo negro e coronavírus em retomada de comícios

Megaevento contraria diretrizes de saúde em Tulsa, palco de episódio sangrento de racismo dos EUA

Bauru

Os organizadores da campanha de Donald Trump disseram que mais de 1 milhão de pessoas se inscreveram para participar do comício que marca a retomada dos eventos eleitorais nos EUA, a despeito dos riscos de contaminação por coronavírus, que já matou mais de 118 mil pessoas no país.

A BOK Center, arena que sediará neste sábado (20) o comício em Tulsa, no estado de Oklahoma, tem cerca de 19 mil assentos. A superlotação e os perigos da Covid-19, entretanto, são apenas parte dos riscos que Trump precisou assumir ao manter um evento desse porte em um momento de tríplice crise: pandemia sem precedentes, risco de colapso econômico e uma onda de protestos contra injustiças raciais.

A multidão de apoiadores do presidente americano, majoritariamente branca e vestindo camisetas e bonés com o slogan eleitoral "Keep America Great" (mantenha a América grande, em tradução livre), deve dividir o espaço e a atenção do mundo com manifestantes negros, portando cartazes com dizeres como "Black Lives Matter" (vidas negras importam) e "I Can't Breathe" (eu não consigo respirar).

Inicialmente, o comício de Trump estava marcado para esta sexta-feira (19). A data foi adiada, segundo o presidente, atendendo a pedidos de "muitos amigos e apoiadores afro-americanos" que sugeriram a mudança por respeito ao feriado conhecido como Dia da Liberdade, ou "Juneteenth".

"Juneteenth" é uma combinação, em inglês, de "junho" e "décimo nono", em referência à data —19 de junho— em que negros escravizados foram emancipados no Texas, último estado a reconhecer a liberdade da população negra, em 1865, após mais de dois séculos de escravidão.

Apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump, na fila para comparecer ao comício do republicano em Tulsa
Apoiadores do presidente dos EUA, Donald Trump, na fila para comparecer ao comício do republicano em Tulsa - Win McNamee/Getty Images/AFP

Conselheiros da campanha de Trump apostam na retomada dos comícios como forma de reverter a tendência das pesquisas eleitorais que apontam derrota do atual presidente para o democrata Joe Biden.

Mesmo alguns republicanos, porém, veem o evento com ressalvas. O governador de Oklahoma, Kevin Stitt, aliado de Trump, transferiu a responsabilidade ao líder americano, apesar de ter assinado um decreto que muda as diretrizes no estado e permite grandes reuniões públicas como a deste sábado.

"Em última análise, o presidente não pede permissão antes de ir a lugares. Nós descobrimos que o presidente estava vindo, e por isso vamos garantir que [o comício] seja o melhor e mais seguro possível."

O prefeito de Tulsa, George Theron Bynum, também republicano, se disse "honrado" em ter sua cidade escolhida para sediar o retorno de Trump à campanha. Por outro lado, afirmou que "qualquer pessoa racional que olhe para um grande grupo de pessoas" deve se preocupar com o comício deste sábado.

Cabe aos participantes, no entanto, segundo o prefeito, a responsabilidade de usar máscaras e desinfetantes para evitar a propagação do vírus.

Contra o risco de contaminação, a campanha de Trump se preveniu, mas no âmbito judicial. Para obter ingressos para o comício, os apoiadores tiveram de assinar um termo no qual concordavam em não processar o presidente caso contraiam a Covid-19.

Oklahoma registrou 450 novos casos de coronavírus nesta quinta (18), um recorde no número diário de contaminações. Só a cidade de Tulsa registrou 120 novas infecções, o maior índice diário desde março.

Em entrevista coletiva, Bruce Dart, principal autoridade de saúde pública da cidade, disse estar "absolutamente" preocupado com o risco de o comício se tornar um "superpropagador" da Covid-19 e recomendou que o evento fosse adiado e aconselhou as pessoas a não irem à arena.

A retórica polarizante de Trump e seu constante apelo à base conservadora também são fontes de preocupação para a campanha do presidente.

O líder americano se posicionou contra os atos que se seguiram à morte de George Floyd, no final de maio. Reforçou sua política de "lei e ordem", classificou ativistas como "bandidos" e advogou uma reação militarizada aos protestos, sugerindo, inclusive, o uso de armas de fogo contra os manifestantes.

Nesta sexta, o presidente usou tom de ameaça no Twitter contra possíveis protestos durante o comício e fez críticas veladas à resposta dada aos protestos em algumas cidades —todas elas governadas por prefeitos do Partido Democrata.

"Quaisquer manifestantes, anarquistas, agitadores e saqueadores que estejam indo para Oklahoma, por favor, entendam que vocês não serão tratados como se estivessem em Nova York, Seattle ou Minneapolis. Será uma cena muito diferente!"

Os atos antirracismo começaram pacíficos, mas tiveram uma escalada de violência —com lojas saqueadas, carros incendiados e confrontos com a polícia—, gerando críticas duras aos ativistas.

As manifestações voltaram a ser pacíficas, entretanto, após a ampliação das acusações contra os policiais envolvidos na morte de Floyd e as propostas de reformas da polícia americana.

Novos atos são esperados durante o fim de semana, em Tulsa e em outras regiões dos EUA.

A cidade escolhida por Trump para sediar seu retorno aos eventos de campanha foi palco de um dos mais sangrentos episódios racistas da história americana.

Em 31 de maio de 1921, a comunidade de Greenwood, majoritariamente negra, virou pó depois de ser queimada por uma multidão de brancos enraivecidos —ou inconformados com o sucesso do local, dependendo da versão contada.

A prosperidade dos moradores locais, atribuída à descoberta de poços de petróleo no final do século 19, levou Greenwood a ser apelidada de "Wall Street Negra".

Em um período histórico em que a segregação racial nos EUA ainda era respaldada pela lei, a riqueza dos negros despertou inveja em parte da população branca, segundo autores de livros sobre o massacre.

“Os brancos, na época, achavam os negros sub-humanos. Ter uma comunidade em que os negros tinham boas casas, pianos e roupas caras não era aceitável", afirma Hannibal Johnson, autor de “Black Wall Street — From Riot to Renaissance in Tulsa’s Historic Greenwood District” (Wall Street Negra – Da revolta ao renascimento no distrito histórico de Greenwood, em Tulsa).

"Era uma ameaça direta à ideia de que eles eram sub-humanos.”

O resultado foi uma revolta em que brancos invadiram o distrito, queimaram casas, lojas, hotéis e tudo o que viam à frente. Mais de 10 mil negros ficaram desabrigados. O número de mortos varia de 40 a 300, porque vários corpos foram enterrados em covas coletivas e não foram devidamente contabilizados.

Na época, as seguradoras se recusaram a cobrir os prejuízos dos negros, estimados em US$ 2,5 milhões, e uma investigação determinou que eles eram os responsáveis pela revolta. Nenhum branco foi punido.

Com Reuters

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