Descrição de chapéu The New York Times

Trump soube em fevereiro sobre possíveis recompensas russas ao Taleban, dizem autoridades

Segundo investigação, Rússia teria incentivado militantes islâmicos a matarem soldados americanos

The New York Times

Autoridades americanas entregaram um resumo por escrito no final de fevereiro ao presidente Donald Trump, expondo suas conclusões de que uma unidade de inteligência militar russa ofereceu e pagou recompensas a militantes ligados ao Taleban para matar soldados dos Estados Unidos e da coalizão no Afeganistão, segundo duas autoridades com conhecimento do assunto.

A investigação da suposta operação secreta russa para incentivar esses assassinatos se concentrou em parte no bombardeio a um carro em abril de 2019 que matou três fuzileiros navais, segundo diversas autoridades inteiradas da questão.

A nova informação surgiu quando a Casa Branca tentava, na segunda-feira (29), minimizar a avaliação da Inteligência americana de que a Rússia tentou incentivar e recompensar assassinatos —inclusive reiterando uma afirmação de que Trump nunca havia sido informado sobre o assunto e retratando a conclusão como discutível e dúbia.

Trump está de terno preto, e aponta para alguém. Na frente dele na foto há pessoa desfocadas, algumas levantam a mão, pedindo para falar
Donald Trump fala com repórteres antes de sair da Casa Branca, em Washington - Liu Jie - 30.jun.20/Xinhua

Mas essa posição se chocou com a revelação, feita por duas autoridades, de que a informação foi incluída seis meses atrás no documento "Informações Diárias ao Presidente" —um resumo dos últimos dados sigilosos sobre política externa e segurança nacional produzido para a leitura do líder americano.

Uma das autoridades disse que o assunto apareceu no boletim diário de Trump no final de fevereiro; outra citou 27 de fevereiro, especificamente.

Além disso, uma descrição da avaliação de que a unidade russa efetuou o esquema de recompensas também foi considerada séria e sólida o suficiente para ser divulgada amplamente em um artigo de 4 de maio na World Intelligence Review da CIA, um compêndio secreto comumente chamado de The Wire (o grampo), segundo duas autoridades.

Um porta-voz do Conselho de Segurança Nacional não quis comentar qualquer conexão entre a morte dos fuzileiros e o suposto complô russo.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Kayleigh McEnany, não respondeu na segunda-feira se a informação constava no boletim diário do presidente, e o porta-voz do Conselho de Segurança repetiu os comentários dela quando questionado mais tarde sobre o boletim entregue em fevereiro.

Também na segunda, John Ratcliffe, recém-confirmado diretor de Inteligência nacional, emitiu uma declaração advertindo que vazamentos sobre o assunto constituem crime.

"Ainda estamos investigando a suposta informação mencionada em recentes reportagens da mídia e informaremos ao presidente e aos líderes do Congresso em momento apropriado", disse ele.

"Este é o processo analítico funcionando do jeito que deveria. Infelizmente, revelações não autorizadas hoje ameaçam nossa capacidade de descobrir toda a história relacionada a essas denúncias."

As revelações surgiram em meio a um crescente furor em Washington sobre as informações dos últimos dias de que o governo Trump sabia há meses da conclusão da Inteligência. A Casa Branca, no entanto, não teria autorizado uma reação à Rússia.

Líderes democratas da Câmara e do Senado exigiram que todos os membros do Congresso sejam informados sobre o tema, e a Casa Branca convocou amigavelmente um pequeno grupo de deputados republicanos para que eles passem ao presidente qual é a posição deles sobre a questão.

Os legisladores saíram dizendo que o governo está revisando reportagens sobre o suposto complô russo para avaliar a credibilidade das denúncias.

Também disseram que as informações de inteligência são conflitantes, repetindo comentários de McEnany, de que as revelações não foram "verificadas" porque houve "opiniões divergentes" entre analistas ou agências, sem dar detalhes.

Mais tarde na segunda, Robert O'Brien, assessor de segurança nacional de Trump, repetiu que os relatos eram insubstanciais.

"Ele não foi pessoalmente informado sobre o assunto", disse McEnany a repórteres quando questionada especificamente sobre o documento escrito. "Isso é tudo o que posso compartilhar com vocês hoje", completou a secretária.

Trump seria habitualmente negligente ao ler esse documento, dizem, preferindo receber um resumo verbal dos destaques em intervalos de dias.

Mesmo nas reuniões presenciais, é especialmente difícil informá-lo sobre questões de segurança nacional. Muitas vezes, ele conta com a mídia conservadora e amigos para se informar, segundo autoridades que trabalham e outras que já trabalharam no setor de Inteligência.

Autoridades de Inteligência dos EUA e forças de Operações Especiais no Afeganistão vêm dando alarmes desde janeiro, e o Conselho de Segurança Nacional convocou uma reunião interagências para discutir o problema e o que fazer a respeito no final de março, como relatou anteriormente o New York Times.

Mas apesar de ser informada das opções, incluindo um protesto diplomático e sanções, a Casa Branca não autorizou uma reação.

As explicações do governo na segunda, em público e em particular, pareceram uma tentativa de aplacar os legisladores, especialmente os republicanos, alarmados por reportagens dos últimos dias que revelaram a existência da avaliação da Inteligência e a insistência de Trump de que não foi avisado sobre o suposto complô russo.

As avaliações indicando um esquema russo de oferecer recompensas a militantes e criminosos ligados ao Taleban se basearam em informação coletada em batidas e interrogatórios no Afeganistão, onde os comandantes militares americanos passaram a acreditar que a Rússia estava por trás do plano, assim como informações mais sensíveis e não especificadas que surgiram com o tempo, disse uma autoridade americana.

Geralmente, o presidente é formalmente informado depois que a informação foi checada e considerada suficientemente verossímil e importante pelos profissionais de inteligência.

Essa informação provavelmente seria incluída no boletim diário do presidente.

Autoridades de governos anteriores disseram que acusações de tal importância —mesmo que a evidência não esteja completamente estabelecida— eram transmitidas ao presidente.

"Tínhamos duas questões limite: 'O presidente precisa saber disso?' e 'Por que ele precisa saber agora?'", disse Robert Cardillo, ex-membro graduado da Inteligência que apresentou briefings ao presidente Barack Obama de 2010 a 2014.

Os legisladores pediram para ver pessoalmente o material subjacente.

"Este é um momento para nos concentrarmos em duas coisas que o Congresso deve perguntar e examinar: 'quem sabia o que e quando' e 'o presidente sabia'? Se não, por que diabos não?", disse o senador republicano Ben Sasse, de Nebraska, membro da Comissão de Inteligência do Senado.

A presidente da Câmara, Nancy Pelosi, e o senador Chuck Schumer, de Nova York, os líderes democratas na Câmara e no Senado, pediram que todos os legisladores recebam atualizações sobre a questão e que a CIA e outros órgãos de inteligência expliquem como Trump foi informado sobre informações coletadas sobre o complô.

A Casa Branca começou a explicar sua posição diretamente aos legisladores em um ambiente cuidadosamente controlado.

Mark Meadows, chefe de gabinete da Casa Branca; John Ratcliffe, diretor de inteligência nacional; e Robert O'Brien, assessor de segurança nacional de Trump, conversaram com um grupo de republicanos convidados à Casa Branca sobre a questão.

Um grupo de deputados democratas deveria ir à Casa Branca na manhã de terça para receber informações semelhantes.

Não havia indício depois da sessão com os republicanos se foi comunicado a eles que a informação foi incluída no boletim por escrito de Trump quatro meses atrás.

Mas, depois, dois deputados republicanos —Liz Cheney, de Wyoming, e Mac Thornberry, do Texas— disseram que "continuam preocupados sobre a atividade da Rússia no Afeganistão, incluindo relatos de que visaram forças americanas" e que precisariam de mais informações.

"Está claro há algum tempo que a Rússia não quer nosso bem no Afeganistão", disseram eles em uma declaração conjunta. "Acreditamos que é importante seguir vigorosamente qualquer informação relacionada à Rússia ou qualquer outro país visando nossas forças."

Outros republicanos que participaram do encontro foram em direção contrária. Em entrevista, o deputado Chris Stewart, de Utah, disse que não viu nada de incomum na suposta decisão de não informar verbalmente a Trump, especialmente quando a situação não exigia que o presidente tomasse medidas imediatas.

"Simplesmente não alcançou o nível de credibilidade para ser levado à atenção do presidente", disse ele, acrescentando que órgãos militares e de inteligência devem continuar analisando as atividades da Rússia.

Charlie Savage , Eric Schmitt , Nicholas Fandos e Adam Goldman

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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