Descrição de chapéu The New York Times

Após protestos de funcionários, Zuckerberg defende decisão de não interferir em posts de Trump

Presidente dos EUA usa redes sociais para enviar mensagens que podem incitar violência

San Francisco | The New York Times

Mark Zuckerberg, o executivo-chefe do Facebook, reiterou na terça-feira (2) sua opção de não fazer nada em relação aos posts incendiários do presidente Donald Trump na rede social, dizendo que tomou uma “decisão difícil”, mas “muito bem pensada”.

Numa sessão de perguntas e respostas com funcionários da empresa, conduzida em uma videoconferência, Zuckerberg procurou justificar a posição que provocou intensa dissensão interna.

A reunião estava prevista para quinta-feira (4), mas foi antecipada para terça (2) depois de centenas de funcionários protestarem contra a inação, fazendo uma paralisação virtual na segunda-feira.

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, em evento na universidade Georgetown, em Washington, em outubro - Andrew Caballero-Reynolds/AFP

Aludindo aos posts de Trump, Zuckerberg disse que os princípios e políticas do Facebook que apoiam a liberdade de expressão “indicam que a ação correta neste momento é deixar esses posts no ar”.

O jornal americano The New York Times teve acesso ao áudio da conferência com os funcionários.

Zuckerberg afirmou que, apesar de saber que muitas pessoas ficariam indignadas com o Facebook, uma revisão das políticas da rede respaldou sua decisão. E revelou que, após a determinação, na sexta-feira (29/5), recebeu um telefonema de Trump.

“Aproveitei a oportunidade para dizer a ele que achei essa postagem inflamatória e nociva e lhe comunicar nossa posição sobre ela”, disse Zuckerberg aos funcionários do Facebook.

Mas, apesar de expressar sua insatisfação ao presidente, reiterou que a mensagem de Trump não infringe as diretrizes da rede social.

O chefe do Facebook se manteve firme mesmo quando a pressão sobre ele para frear as mensagens de Trump aumentou.

Organizações de direitos civis disseram na noite de segunda-feira, depois de se reunirem com Zuckerberg e Sheryl Sandberg, diretora operacional do Facebook, que é “totalmente incompreensível” que a empresa não esteja adotando posição mais firme em relação às postagens de Trump, que frequentemente são agressivas e nos últimos dias vêm elevando as tensões em torno dos protestos contra a violência policial.

Vários funcionários do Facebook se demitiram devido à falta de ação, e um deles declarou publicamente que a empresa vai “acabar se posicionando do lado errado da história”.

Manifestantes apareceram na noite de segunda-feira em Palo Alto, na Califórnia, onde Zuckerberg reside, e também se dirigiram à sede da rede social, na vizinha Menlo Park.

A dissensão interna começou a ser expressada na semana passada depois de o Twitter, rival do Facebook, ter acrescentado etiquetas aos tuítes de Trump para indicar que o presidente estava glorificando a violência e fazendo afirmações falsas.

As mesmas mensagens que Trump postou no Twitter também apareceram no Facebook. Mas, diferentemente do Twitter, o Facebook não fez nada com as mensagens do presidente, incluindo uma em que Trump disse, aludindo aos protestos em Minneapolis, “quando os saques começam, começam os tiros”.

Timothy Aveni, engenheiro de software do Facebook que se demitiu devido à decisão de Zuckerberg de manter as postagens de Trump no ar, disse na segunda-feira em sua página no Facebook que a empresa não está implementando suas próprias regras, que proíbem discursos que promovem a violência.

“O Facebook vai continuar a recuar, alterando seus critérios cada vez que Trump escalar seu discurso, encontrando desculpa após desculpa para não combater uma retórica mais e mais perigosa”, disse.

Na terça-feira, na reunião virtual com funcionários, Zuckerberg passou 30 minutos explicando detalhadamente o que aconteceu com as postagens de Trump.

Disse que a mensagem do presidente sobre saques e tiroteios, postada na sexta-feira, foi flagrada imediatamente pela equipe do Facebook responsável por fiscalizar o cumprimento de suas normas.

Nesse dia, Zuckerberg acordou às 7h30 em Palo Alto com um e-mail sobre o post. E a equipe de fiscalização telefonou à Casa Branca, segundo ele, dizendo a funcionários do governo que a mensagem de Trump era inflamatória.

Zuckerberg passou o resto da manhã da sexta-feira passada conversando com a equipe de fiscalização e outros especialistas da empresa. Acabou decidindo que a postagem de Trump não infringiu as normas do Facebook.

O executivo disse que a mensagem trata de um chamado ao “uso da força pelo Estado”, algo permitido pelas diretrizes do Facebook.

Ele afirmou que a rede social pode rever essa política no futuro, em vista dos vídeos e fotos de uso de força excessiva pela polícia que se espalharam nas redes sociais nos últimos dias.

Depois de explicar seu raciocínio, Zuckerberg respondeu a perguntas de funcionários, segundo uma cópia do áudio da reunião virtual.

Um funcionário do Facebook em Nova York se manifestou a favor da posição de Zuckerberg. Mas a grande maioria das perguntas foi crítica, e o clima da reunião ficou cada vez mais acalorado.

Alguém perguntou a Zuckerberg se funcionários negros do Facebook foram consultados no processo decisório. Ele citou um. Um funcionário do Facebook em Austin, no Texas, disse então que a política da empresa em relação a discursos políticos não estava funcionando e precisava ser modificada.

Um sentimento persistente compartilhado entre os funcionários de nível mais subordinado do Facebook veio à tona em uma interação direta entre Zuckerberg e outro funcionário durante a videoconferência.

“Por que as pessoas mais inteligentes do mundo estão se esforçando para distorcer nossas diretrizes para evitar antagonizar Trump?”, perguntou o funcionário.

Uma porta-voz do Facebook disse em comunicado que “discussões abertas e francas sempre fizeram parte da cultura do Facebook” e que Zuckerberg ficou “grato” pelo feedback dos funcionários.

A ligação não tranquilizou os trabalhadores. Mais de uma dúzia de funcionários atuais e antigos disseram que ela apenas aprofundou os atritos dentro da empresa.

Alguns afirmaram que é inútil tentar persuadir Zuckerberg a mudar de opinião.

“Ficou absolutamente claro hoje que a liderança se recusa a posicionar-se do nosso lado”, escreveu no Twitter um engenheiro do Facebook, Brandon Dail, aludindo à reunião.

Tradução de Clara Allain 

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