Descrição de chapéu Coronavírus Governo Trump

Defensora da cloroquina em vídeo repostado por Trump coleciona lista de crenças bizarras e não científicas

Médica de Houston afirma que espíritos malignos causam doenças ginecológicas e EUA são governados por 'espíritos reptilianos'

Washington | AFP

Uma médica que aparece elogiando a hidroxicloroquina como cura milagrosa para o coronavírus em vídeo republicado pelo presidente americano, Donald Trump, defende que doenças ginecológicas são causadas por sexo com espíritos malignos e diz acreditar que os EUA são governados por "espíritos reptilianos".

"Ninguém precisa ficar doente. Esse vírus tem uma cura: ela se chama hidroxicloroquina", disse Stella Immanuel, de Houston, na segunda (27), quando estava nos degraus da Suprema Corte, em Washington, no chamado Ato dos Jalecos Brancos, que reuniu profissionais de saúde que defendem o medicamento.

Donald Trump Jr., filho do presidente, afirmou que era imprescindível assistir ao vídeo —Facebook, Twitter e YouTube, no entanto, tiraram as imagens do ar por considerarem que elas promovem desinformação.

Pesquisas na página de Immanuel, agora acessível apenas por um visualizador de sites arquivados, assim como em seu canal no YouTube revelam uma longa lista de crenças bizarras e não científicas.

Nas publicações, ela afirma que "espíritos atormentadores" costumam ter "sexo astral" com mulheres, o que, por sua vez, causa "problemas ginecológicos, angústia conjugal e abortos espontâneos".

Em um vídeo de 2015, Immanuel, que lidera um grupo religioso chamado "Fire Power Ministries" (ministérios do poder do fogo), disse: "Há pessoas que governam esta nação que nem humanas são", descrevendo-as como "espíritos reptilianos" que seriam "meio humanos, meio ET".

Na mesma gravação, ela critica o uso de "DNA alienígena" para tratar pessoas doentes, o que, segundo ela, resultou na mistura de seres humanos com demônios. A médica também critica o casamento gay, que supostamente resultaria em adultos se unindo a crianças, o que não é verdade.

No início da pandemia, cientistas procuraram descobrir se as propriedades antivirais da hidroxicloroquina a tornariam eficaz em pacientes com diagnóstico de Covid-19.

A médica Stella Immanuel, de Houston, que defendeu a hidroxicloroquina como cura da Covid-19 em vídeo postado por filho de Trump
A médica Stella Immanuel, de Houston, que defendeu a hidroxicloroquina como cura da Covid-19 em vídeo postado por filho de Trump - @stella_immanuel no Twitter

Até agora, porém, todos os principais ensaios clínicos sobre o medicamento não encontraram benefícios do uso da droga no tratamento da doença, e as principais autoridades nacionais de saúde passaram a restringir o uso da hidroxicloroquina devido a possíveis danos cardíacos.

Immanuel afirma que todos os 350 pacientes que ela tratou com o remédio —incluindo aqueles com doenças pré-existentes graves— sobreviveram e que a hidroxicloroquina era tão potente que o uso de máscaras e medidas como "lockdown" eram desnecessários.

O debate sobre o medicamento rapidamente tomou contornos políticos nos EUA, no Brasil e em outros países. Políticos conservadores têm constantemente defendido a eficácia da hidroxicloroquina mesmo na ausência de comprovação científica.

Trump já defendeu o tratamento com o remédio em diversas ocasiões e afirmou ter tomado hidroxicloroquina em maio deste ano como forma de prevenção à doença.

Desde a chegada dos primeiros casos de coronavírus ao Brasil, Jair Bolsonaro promove o uso do medicamento, inclusive ordenando sua produção em massa —o país atualmente tem um estoque parado de quatro milhões de comprimidos.

Após receber o diagnóstico de Covid-19, no dia 6 de julho, o presidente seguiu defendendo os supostos benefícios da droga. No último domingo (25), anunciou que seu teste mais recente havia dado negativo e publicou uma foto com uma caixa do remédio em suas redes sociais.

O curioso caso de Immanuel —relatado pela primeira vez em profundidade pelo site The Daily Beast— destaca até que ponto os defensores do remédio estão dispostos a ir.

O discurso da médica levou aos holofotes um grupo pouco conhecido que se autodenomina "America's Frontline Doctors" (médicos da linha da frente da América), cuja missão parece ser a promoção do medicamento anti-malária no combate à Covid-19.

O site do grupo foi registrado há apenas 11 dias, revelou um verificador de registros de domínios, e foi tirado do ar na terça-feira (28) à tarde. O "Tea Party Patriots" (patriotas do Tea Party), grupo político de direita apoiado por republicanos ricos, disse em seu site que era responsável pela organização do ato em Washington no qual a médica discursou.

Immanuel nasceu em 1965, recebeu seu diploma de medicina na Universidade de Calabar, na Nigéria, e possui uma licença médica válida, de acordo com o site do Conselho de Medicina do Texas.

Depois que o Facebook bloqueou o acesso ao vídeo, afirmou que os servidores da empresa começariam a falhar. "Se minha página não voltar, o Facebook sairá do ar, em nome de Jesus", escreveu no Twitter.

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