Estátua de ativista negra que substituiu escravocrata é removida no Reino Unido

Artista britânico não tinha permissão de autoridades locais para instalar escultura

Londres | AFP

A escultura da ativista negra Jen Reid foi removida nesta quinta-feira (16), pouco mais de 24 horas depois de ter sido posicionada para substituir a estátua do traficante de escravos Edward Colston, em Bristol, no Reino Unido.

Usando cordas e um guindaste, funcionários da administração local retiraram a nova imagem, de autoria do artista britânico Marc Quinn, porque ela foi instalada sem permissão.

De acordo com uma porta-voz do conselho de Bristol, a escultura será levada a um museu onde Quinn poderá recuperá-la ou doá-la para a coleção municipal. O artista, entretanto, será o responsável pelos custos de remoção.

Intitulada "A Surge of Power" (uma onda de poder), a escultura feita por Quinn havia sido colocada, na quarta (15), sobre o pedestal onde antes ficava a estátua de Colston. A operação durou 15 minutos.

A estátua de Colston foi derrubada e jogada em um rio no início de junho durante uma manifestação antirracista. Estima-se que o escravocrata britânico esteve envolvido nas mortes de cerca de 19 mil negros escravizados nas Américas e no Caribe no século 17.

De acordo com uma declaração conjunta assinada por Quinn e Reid, o artista escolheu representar a ativista depois de ver uma foto nas redes sociais que mostrava a mulher sobre pedestal antes ocupado pela estátua de Colston com o punho erguido no ar, em referência ao movimento Black Power.

O texto diz que a nova estátua não foi planejada como uma solução permanente, e sim como uma forma de atrair atenção contínua ao movimento antirracista.

Escultura feita pelo artista britânico Marc Quinn substitui estátua de escravocrata em Bristol - Geoff Caddick - 15.jul.20/AFP

Ainda segundo a declaração, a escultura não tem fins lucrativos e, se for vendida, o lucro será doado para duas instituições escolhidas por Reid: a Cargo Classroom, programa de história negra criado para adolescentes de Bristol, e a Black Curriculum, empresa social fundada em 2019 por jovens para preencher a lacuna de história britânica negra no Reino Unido.

Em entrevista à imprensa local, o prefeito de Bristol, Marvin Rees, que é negro, disse que a decisão de retirar a estátua se deve exclusivamente ao fato de a escultura ter sido colocada sem permissão.

"Se você vai fazer alguma coisa, precisa fazê-lo com consciência e conhecimento completo do contexto em que está fazendo", disse ele.

A estátua de Jen Reid foi acompanhada de um cartaz em que se lia "black lives still matter" (vidas negras ainda importam), em referência ao slogan do movimento contra o racismo que ganhou novo fôlego após o assassinato de George Floyd, homem negro morto por um policial branco nos EUA, no final de maio.

O crime, filmado e divulgado em redes sociais, deu origem a uma onda de protestos e de questionamentos que transformaram em alvo outras estátuas de figuras históricas consideradas racistas.

Nos EUA, os alvos foram imagens de militares que fizeram parte do Exército Confederado, lado da Guerra Civil americana que defendia a manutenção da escravidão.

A presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi, exigiu que 11 estátuas de confederados sejam removidas do Capitólio, sede do Legislativo americano.

Estátuas de Cristóvão Colombo também foram atacadas. Uma foi incendiada e jogada em um lago em Richmond, na Virgínia. Outra, em Boston, foi decapitada.

Em Londres, a estátua de Robert Milligan, que chegou a ter 526 negros escravizados em suas duas fazendas de plantação de açúcar na Jamaica, foi removida pelo Museu das Docas.

Na Bélgica, ganhou força uma campanha já antiga para tirar de cena monumentos do rei Leopoldo 2º, e um busto do monarca que colonizou o Congo (atual República Democrática do Congo) foi para o depósito na Universidade de Mons.

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