Descrição de chapéu Caixin China

Estudantes chineses em universidades americanas enfrentam futuro incerto

Jovens questionam oferta de ensino a distância, dificultado pela diferença de fuso entre EUA e China

Matthew Walsh
Caixin

Até algumas semanas atrás, Zhao Litian estava prevendo um semestre letivo começando no outono no hemisfério norte que seria cheio de experimentos científicos, aulas de conversação de russo e corridas por trilhas em florestas do interior do estado de Nova York.

Por conta da pandemia de coronavírus e de uma profusão de restrições globais às viagens aéreas, esse estudante chinês do segundo ano da Universidade Cornell agora prevê concluir o semestre online, estudando em um dormitório universitário em Pequim.

Estudantes caminham em jardim da Universidade Harvard, em Cambridge, no estado de Massachusetts
Estudantes caminham em jardim da Universidade Harvard, em Cambridge, no estado de Massachusetts - Brian Snyder - 10.mar.20/Reuters

Zhao, 19, é um entre centenas de milhares de estudantes chineses nos EUA que enfrentam interrupções e problemas em seus estudos em função da redução do ensino presencial nas escolas americanas, para limitar a propagação do coronavírus.

Voos suspensos e novas restrições a vistos aumentam a incerteza e obrigam autoridades chinesas a avaliar estratégias inconvenientes para absorver no sistema educacional doméstico os estudantes impossibilitados de voltar aos EUA.

O caos está abalando o setor do ensino superior americano, altamente dependente dos estudantes internacionais, especialmente os que vêm da China.

O país asiático enviou quase 370 mil estudantes aos EUA no ano letivo de 2018-2019, sendo responsável por um terço de todos os estudantes internacionais no país, segundo estudo do Instituto de Educação Internacional, organização sem fins lucrativos americana.

Estudantes chineses contribuíram com US$ 14,9 bilhões (cerca de R$ 78 bi) para a economia americana em 2018, um terço do aporte total dos estudantes internacionais, segundo o Departamento de Comércio.

Agora, confrontadas com campi vazios e fluxos de receita minguantes, as universidades americanas estão tentando amortecer o impacto da pandemia e convencer os estudantes internacionais que eles ainda podem ter acesso a uma educação de primeiro nível, mesmo estando em países distantes, sem a possibilidade de viajar.

Mas, com pouco a oferecer além de meses de aulas online ou acesso limitado a instituições parceiras no exterior, não está sendo fácil vender essa ideia aos estudantes.

Aulas no meio da noite

Dezenas de milhares de estudantes chineses podem ter voltado para seu país quando a pandemia de coronavírus tomou conta dos Estados Unidos, disse John van Fleet, presidente do comitê de educação da Câmara de Comércio Americana em Xangai.

Eles enfrentam desafios inusitados para levar seus estudos adiante durante a crise da Covid-19, segundo ele.

Zhao já vivenciou pessoalmente a inconveniência de fazer faculdade a partir do outro lado do mundo.

Depois de retornar a Pequim em maio, ele começou a acordar às 2h para participar, por meio da plataforma online Zoom, das aulas remanescentes do primeiro ano que estavam sendo dadas em Nova York.

Outros estudantes chineses que voltaram à China falaram de problemas em acessar materiais didáticos e completar trabalhos e provas online.

Estudante no campus da Universidade Harvard, em Cambrigde, nos Estados Unidos - Fan Lin - 14.jul.2020/Xinhua

Alguns disseram que a adoção das aulas online obrigou os professores a abrir mão de atividades práticas em favor de ensino mais teórico, prejudicando a qualidade de certos cursos. Zhao, por exemplo, lamenta a falta de acesso a laboratórios de química e colegas com quem dividir as aulas de russo.

As medidas tiveram consequências bizarras em alguns casos. Shen Yiyang, estudante de ciência política na Universidade de Pittsburgh, contou que optou por enfrentar a pandemia nos EUA em parte porque os regulamentos chineses relativos à internet limitam o acesso a muitos materiais na sua disciplina de especialização, o pensamento marxista.

A pandemia nos EUA, as suspensões de voos e os prováveis atrasos no processamento de vistos estão levando muitos estudantes internacionais chineses a preparar-se para encarar um período prolongado estudando em seu próprio país.

“Não vamos poder voltar à vida de estudos normal neste outono [no hemisfério norte], mas espero que seja possível a partir da próxima primavera”, disse outro segundanista da Universidade Cornell, Kevin Sheng.​

Soluções alternativas complexas

Apesar dos esforços feitos por universidades americanas para criar esquemas de estudo temporários para estudantes chineses retidos, esses esquemas só oferecem uma versão muito limitada da vida universitária.

Cornell, que no ano letivo de 2018-2019 teve quase 2.400 estudantes da China, anunciou um dos planos mais abrangentes vistos até agora entre as universidades americanas.

Seu programa Study Away vai permitir que alguns estudantes chineses residam e estudem em uma de sete instituições locais durante o semestre que começa no outono, frequentando um misto de aulas online e presenciais.

Zhao e Sheng, que se inscreveram para passar o semestre em universidades em Pequim, elogiaram o esquema, dizendo que restaura alguma medida de espírito da comunidade universitária e lhes oferece a experiência inovadora de estudar em uma das melhores universidades de seu país.

Mas eles também fazem ressalvas. O papel de Cornell e os critérios de avaliação usados pelas universidades chinesas durante o processo de inscrição no Study Away não foram claramente explicitados, e o fato de as instituições parceiras estarem quase todas situadas no norte e leste da China levou à preocupação de que estudantes em outras partes do país sejam prejudicados.

Outra coisa que não ficou clara é se os estudantes chineses serão obrigados a assistir a aulas online em horários pouco sociáveis, potencialmente atrapalhando o sono de seus colegas de quarto.

Contatada pelo Caixin, a Universidade Cornell se negou a dar declarações sobre o programa Study Away, mas falou de conferências online recentes em que funcionários de seu Escritório de Aprendizado Global disseram a estudantes que as instituições parceiras avaliariam a candidatura de estudantes com base em sua capacidade de hospedagem e capacidade acadêmica.

Os pedidos de entrevista enviados a todas as instituições parceiras da Universidade Cornell na China não foram respondidos.

Segunco Van Fleet, embora o Study Away “seja sem dúvida uma opção melhor que o estudo online”, os estudantes “vão sentir falta do aspecto de comunidade estudantil internacional, além de algumas das experiências culturais singularmente americanas que decorrem de estudar nos Estados Unidos”.

Várias instituições americanas, incluindo a Universidade Harvard, criaram esquemas pelos quais estudantes internacionais podem transferir créditos de instituições credenciadas em seus países. Outras vão dar algumas ou todas as aulas online.

Um fato controverso é que muitas escolas descartaram a possibilidade de reduzir suas mensalidades, apesar de não estarem em condições de oferecer experiências acadêmicas e extracurriculares normais.

A Universidade de Pittsburgh, por exemplo, disse que vai oferecer aos chineses a chance de estudar em uma instituição parceira em seu país de origem.

Mas, disse Shen, para quem não pode assistir às aulas presencialmente, o semestre letivo que começa no outono no hemisfério norte e que vai acontecer principalmente online “parece o serviço de streaming mais caro do mundo”.

Escolhas difíceis

De acordo com Van Fleet, é praticamente certo que alguns chineses não vão poder ou se dispor a concluir seus estudos planejados nos Estados Unidos.

As desistências iminentes levaram autoridades chinesas a estudar a possibilidade de incluir estudantes retidos no sistema de ensino superior chinês, mas isso não é tão simples quanto parece.

As universidades chinesas geralmente admitem estudantes com base em seus resultados no “gaokao”, o vestibular chinês, conhecido por seu alto grau de dificuldade.

Mas muitos estudantes que pretendiam frequentar universidades no exterior optaram por não seguir o currículo do "gaokao" para, em vez disso, passar por exames americanos padronizados, como o SAT.

Mesmo que as instituições chinesas flexibilizassem suas regras para aceitar os estudantes que voltam ao país, estes enfrentariam dificuldades devido à sua base de conhecimentos e cultura de estudos diferente, disse Zhang Duanhong, professor assistente no Instituto de Ensino Superior da Universidade Tongji, em Xangai.

“As universidades no exterior geralmente dão ênfase enorme a seminários, em que os estudantes passam muito tempo estudando e debatendo tópicos em grupos para fazer uma reflexão aprofundada sobre eles”, disse Zhang. “Na China os cursos geralmente assumem a forma de palestras dadas pelo professor.”

Nos encontros políticos anuais da China em maio, em meio às preocupações com as credenciais acadêmicas dos estudantes e a capacidade das universidades, Ni Minjing, vice-diretor da comissão de educação de Xangai, propôs uma solução de meio termo: abrir mais vagas nas centenas de faculdades profissionalizantes e vocacionais chinesas e incentivar os estudantes internacionais que retornaram ao país a buscar vagas nelas.

Mas os estudantes online rejeitaram a sugestão de Ni de que troquem ensino internacional de primeiro nível por um sistema doméstico muito menos bem avaliado.

Nem a comissão de educação de Xangai nem o Ministério da Educação chinês responderam aos pedidos de declarações do Caixin.

Hong Chengwen, professor de educação na Universidade Normal de Pequim, disse que os estudantes precisam se dispor a “transformar seu modo de pensar” para aumentar suas opções de estudo fora dos EUA.

“Se eles tiverem paciência, podem até fazer um curso acelerado de alemão, francês ou espanhol e estudar em faculdades nesses países”, disse Hong. “Isso terá custos adicionais em termos de tempo, mas não terá um efeito enorme sobre seu sucesso na vida.”

Mas estudantes disseram ao Caixin que não querem abrir mão do prestígio dos diplomas de universidades americanas para os quais eles vêm se esforçando há anos.

“Afinal, as pessoas se matriculam em universidades americanas por uma razão”, disse Shen, estudante de ciência política, citando as instalações de ensino ímpares, as comunidades vibrantes e a liberdade acadêmica dessas instituições.

Tradução de Clara Allain

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