FBI prende ex-namorada de Jeffrey Epstein, acusado de abuso de menores nos EUA

Ghislaine Maxwell é suspeita de aliciar garotas para empresário, cujo corpo foi encontrado em prisão em Nova York

Nova York | Reuters

Ghislaine Maxwell, ex-namorada de Jeffrey Epstein, acusado de abuso de menores, foi presa nesta quinta-feira (2) pelo FBI, a polícia federal dos EUA, em New Hampshire.

Maxwell mantinha perfil discreto desde a morte de Epstein, cujo corpo foi encontrado em uma prisão de Nova York em agosto. A suspeita é de que ele tenha se suicidado no centro de detenção.

Filha do magnata da imprensa britânica Robert Maxwell, Ghislaine foi acusada de supervisionar as atividades para aliciar meninas e jovens mulheres para Epstein, acusação que ela nega categoricamente.

Segundo a agência de notícias Reuters, Maxwell deveria comparecer ao tribunal federal nesta quinta.

Ghislaine Maxwell durante evento em Nova York, em 2013
Ghislaine Maxwell durante evento em Nova York, em 2013 - Laura Cavanaugh - 20.set.13/AFP

Os promotores pediram à Justiça que ela fique detida até o julgamento. Segundo eles, Maxwell representa um risco extremo de fuga, em parte por causa de seus recursos financeiros. Os investigadores disseram que identificaram mais de 15 contas bancárias vinculadas a ela, com saldos totais superiores a US$ 20 milhões (R$ 107,2 milhões).

Os promotores descreveram seu quadro financeiro como "opaco e indeterminado". Entre 2007 e 2011, mais de US$ 20 milhões (R$ 107,2 milhões) foram transferidos de contas ligadas a Epstein para contas ligadas a Maxwell, disseram os promotores.

Ela também é acusada de falso testemunho por ter supostamente mentido durante um depoimento num processo judicial, em 2016. Quando perguntaram a Maxwell se Epstein tinha um plano para recrutar meninas menores de idade para massagens sexuais, ela respondeu: "Eu não sei do que você está falando".

Epstein foi acusado de tráfico sexual de menores e de conspiração criminosa para traficar garotas para exploração sexual, dois crimes passíveis de punição com um total de 45 anos de prisão.

Segundo a ata de acusação, ele teria levado menores de idade, algumas delas com 14 anos, para suas residências em Manhattan e em Palm Beach, na Flórida, entre 2002 e 2005, “para participar de atos sexuais com ele, depois dos quais lhes dava centenas de dólares em dinheiro”.

“Também pagava algumas de suas vítimas para recrutarem mais meninas para serem abusadas”, apontou a acusação.

As acusadoras de Epstein argumentam em documentos judiciais que Maxwell gerenciava a rede de recrutadores e ajudou a elaborar o manual de como atrair jovens mulheres para a rede de Epstein.

Os recrutadores teriam sido orientados a visar mulheres jovens desesperadas financeiramente e a prometer-lhes ajuda para melhorar sua educação e carreira.

Procuradores federais afirmam que Maxwell "atraía e fazia vítimas menores de idade viajarem a casas de Epstein em diferentes estados" e que ela auxiliava na "preparação para [as vítimas] se sujeitarem ao abuso sexual".

Ela também teria estado presente quando Epstein abusava sexualmente de meninas, o que "ajudou a tranquilizar as vítimas porque havia uma mulher adulta no local", segundo a acusação.

Uma das vítimas, Virginia Roberts Giuffre, disse em depoimento que tinha 16 anos quando conheceu Maxwell. Ela disse que se lembrava do argumento da recrutadora: se fizesse massagem em um homem rico, um mundo inteiro de oportunidades se abriria.

Epstein negava as acusações, mas um juiz federal rejeitou o pedido de liberdade condicional feito por sua defesa à época. Os advogados do empresário chegaram a propor que ele ficasse isolado em sua casa em Manhattan com uma tornozeleira eletrônica, além de câmeras de vídeo para registrar seus movimentos.

A Justiça avaliou, porém, que Epstein representava um risco para a sociedade e que ele poderia tentar fugir.

Durante busca realizada na casa do empresário em Nova York, autoridades encontraram em um cofre “dezenas de diamantes” e “maços de notas”, bem como um passaporte austríaco falso já vencido em nome de Epstein.

Se ele fosse condenado pelos crimes dos quais era acusado, poderia ter sido sentenciado a até 45 anos de prisão.

O caso de Epstein também teve desdobramentos políticos que afetaram o governo de Donald Trump. Em julho, o secretário de Trabalho dos EUA, Alex Acosta, renunciou por conta de sua ligação com o episódio.

Ele, que havia sido nomeado em 2017 pelo presidente americano, foi questionado por sua participação, há mais de uma década, quando era promotor em Miami, em um acordo que resultou em penas brandas para o empresário.

Na mesma semana em que renunciou, Acosta disse que o acordo, no qual Epstein cumpriu 13 meses de prisão foi o acerto mais duro possível.

Críticos do acordo argumentam que o empresário deveria ter enfrentado uma acusação mais severa no tribunal estadual do que uma única infração de solicitar prostituição de uma menor.

A ligação entre Epstein e Trump é menos clara. Um advogado do presidente americano negou que ele e Epstein tivessem um relacionamento social, a despeito das declarações de Trump à revista New York em 2002.

À publicação o republicano disse que Epstein era “um cara excelente”, a quem ele conhecia havia 15 anos. “Ele é uma companhia muito divertida”, disse à época. “Chegam a dizer que ele gosta de mulheres bonitas tanto quanto eu, muitas delas na ala mais jovem.”

O círculo de amigos e conhecidos do empresário inclui outras figuras de destaque, como o ex-presidente Bill Clinton, o príncipe Andrew, do Reino Unido, e Leslie Wexner, dono da Victoria’s Secret e de outras marcas de varejo. Clinton voou no jatinho de Epstein dezenas de vezes, de acordo com registros de voo, e Andrew foi a festas com ele.

Epstein trabalhou no banco de investimento Bear Stearns por seis anos antes de abrir sua empresa, em 1982, para administrar o patrimônio de clientes muito ricos.

No entanto, há dúvidas de que Epstein tenha sido de fato bilionário, uma vez que existem poucas provas disso.

A riqueza dele talvez dependesse menos de sua perícia matemática do que de suas conexões com dois homens —Steven Hoffenberg, ex-proprietário do jornal New York Post e notório fraudador, condenado por operar um esquema de pirâmide de US$ 460 milhões, e Wexner, executivo da empresa que é dona das lojas Victoria’s Secret.

Epstein parecia estar realizando negócios e operando moedas por intermédio do Deutsche Bank até alguns meses antes de morrer, de acordo com duas pessoas informadas sobre seus negócios.

Com a possibilidade iminente de acusações federais, o banco encerrou o relacionamento com o empresário. Não se sabe ao certo quais eram os valores de suas contas quando foram fechadas.

A Netflix lançou em maio um seriado documental de quatro episódios chamado "Jeffrey Epstein: Poder e Perversão", com depoimentos de inúmeras mulheres que foram molestadas pelo milionário quando eram menores de idade, o esquema de tráfico montado por ele e as dúvidas sobre seu suicídio.

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