Guiana vive eleição interminável e crise política após descoberta de petróleo

Impasse já dura mais de quatro meses; Itamaraty vê risco de instabilidade no vizinho

São Paulo

Faz tanto tempo que a população da Guiana foi às urnas para escolher seu novo governo que a maior parte da América do Sul ainda nem estava em quarentena. Mais de quatro meses e uma pandemia depois, o resultado da votação de 2 de março permanece desconhecido.

A ex-colônia britânica, com quem o Brasil divide 1.600 km de sua fronteira norte, está imersa em uma apuração interminável, que virou uma crise política.

Disputam o poder o atual presidente, David Granger, que tenta se manter no cargo, e seu oponente Irfaan Ali.
Guianenses olham o mar em praia urbana de Georgetown, capital do país - Avener Prado - 15.jan.2019/Folhapress

Derrotado, Granger pressionou por uma recontagem, que confirmou em junho vitória por pequena margem para a oposição. Mesmo assim, o presidente não aceita a derrota. Para isso, baseia-se em um relatório do chefe-executivo da comissão eleitoral, que aponta a existência de fraudes na apuração que o prejudicariam.

O Itamaraty disse em nota à Folha que acompanha a situação “com preocupação” e afirma que “os expedientes utilizados para protelar a conclusão do processo eleitoral representam séria ameaça para a estabilidade na Guiana”.

Num país de política cronicamente instável desde sua independência, em 1966, há um novo componente acirrando os ânimos: enormes jazidas de petróleo descobertas em 2015, que podem fazer a empobrecida nação dar um salto econômico.

Em abril, o FMI previu crescimento do PIB para este ano de 52,8%, em razão da extração dos primeiros barris pela empresa americana Exxon Mobil.

No meio da década, a previsão é que o país de 750 mil habitantes produza 750 mil barris por dia. Em comparação, o Brasil, com população de 210 milhões, extrai cerca de 3 milhões de barris diários.

A disparada parte de uma base pequena, em que o PIB per capita é de US$ 8.200, metade do brasileiro.

O índice de crescimento deve ficar um pouco menos estratosférico em razão da pandemia e da crise política, que postergaram uma série de decisões de investimentos. Mas provavelmente se manterá como um dos maiores do planeta.

“Sempre estivemos acostumados a essas crises, mas em 2020 a diferença é o petróleo. Quem vencer poderá distribuir as riquezas para seu grupo, e os perdedores ficarão sem nada, como é a regra por aqui”, diz o professor guianense David Hinds, especializado na política da região do Caribe e ligado à Universidade do Arizona (EUA).

A política guianense sempre foi tingida pelo componente étnico. Cerca de 40% da população é de origem indiana, cujos antepassados foram trazidos pelos britânicos após o fim da escravidão de africanos, no início do século 19, para trabalhar nas lavouras de cana de açúcar. Eles apoiam majoritariamente o oposicionista Partido Progressista Popular.

A tensão com os negros, que perfazem 29% da população, atravessou os séculos. Os afro-guianenses apoiam em geral o atual governo de Granger. Apenas 20% da população é mestiça.

“O componente étnico na política se mantém porque nunca houve uma tentativa real por parte dos partidos de se mudar um modelo que os beneficia. Não há preocupação com a divisão do poder”, afirma Hinds.

Ele acha que uma possível saída para o impasse seria um governo de união nacional que aprovasse reformas eleitorais para coibir fraudes e chamasse uma nova votação. Na Guiana, a eleição é parlamentar, e o partido mais votado indica o presidente. O partido oposicionista conquistou 33 cadeiras no Parlamento dentre 65 vagas, contra 31 do governo e 1 de uma legenda menor.

Na semana passada, a Corte de Justiça do Caribe, que funciona como última instância na Guiana, determinou que a contagem que deu vitória à oposição seja respeitada.

Visto como aliado do presidente, o chefe eleitoral, Keith Lowenfield, recusa-se a certificar o resultado.

Isso aumentou a pressão internacional sobre Granger. Ela inclui a OEA (Organização dos Estados Americanos), a Caricom (Comunidade do Caribe) e o Departamento de Estado dos EUA, entre outros órgãos.

O Itamaraty, por enquanto, tem evitado manifestações públicas, embora diga que a crise seja “objeto de permanente atenção”.

A posição do Brasil é de somar-se à pressão sobre o presidente endossando a lisura da recontagem de votos.

Vivem atualmente na Guiana cerca de 18 mil brasileiros, dos quais 80% são garimpeiros ilegais. A corrente de comércio é pequena, de apenas US$ 47,2 milhões (R$ 252 milhões) no ano passado, sendo 99% exportações brasileiras.

“As perspectivas favoráveis para o desenvolvimento guianense reforçam a necessidade de conclusão do processo eleitoral, de modo a assegurar a confiança de investidores e da comunidade internacional nas instituições”, diz o Itamaraty.

A descoberta do petróleo já abriu o apetite de empresários brasileiros. No início de 2019, foi criada a Câmara de Comércio Brasil-Guiana, com cerca de cem integrantes, a maioria, por enquanto, de pequeno ou médio porte.

“Houve um entusiasmo grande da classe empresarial com a descoberta do petróleo. A hora que resolver essa situação, vamos ter muita gente querendo investir lá”, afirma Remídio Monai, presidente da Câmara.

Segundo ele, ninguém quer investir enquanto não se souber qual governo vai estabelecer as regras de exploração do petróleo e construção da infraestrutura.

Monai prevê interesse de empresas brasileiras de terraplanagem, de agricultores para produção de soja e de comerciantes e donos de hotéis. “Estava começando a engrenar, quando veio essa situação”, afirma.

O maior interesse potencial, obviamente, é das petroleiras. Por enquanto, nenhuma empresa brasileira se instalou na Guiana, mas profissionais aposentados da Petrobras ou funcionários de terceirizadas estão sendo contratados para treinar a mão de obra local.

Um prejuízo já contabilizado é a paralisação do asfaltamento da estrada que liga a fronteira de Roraima com a Guiana à capital, Georgetown. Um projeto com financiamento britânico já estava aprovado, mas agora está em suspenso.

A viagem terrestre entre Boa Vista e Georgetown, um percurso de 670 km, costuma levar 15 horas na época seca. Durante as chuvas, a estrada fica intransitável.

Por enquanto, as ruas do país têm se mantido calmas. Mas com os ânimos acirrados e o país em compasso de espera, teme-se uma onda de violência.

Para complicar, a crise política paralisou o Parlamento e dificultou a aprovação de recursos orçamentários para combater a Covid-19. Até agora, foram registrados 297 casos, com 17 mortes.

Além da pressão internacional, a mobilização do setor empresarial pode ser fundamental para um desfecho.

No último dia 11, a Câmara de Comércio e Indústria de Georgetown fez um apelo a Granger para que ceda o poder à oposição.

“É a hora de a nação seguir adiante e implementar políticas que beneficiem a população guianense, e isso começa com o presidente Granger parabenizando dr. Irfaan Ali [pela vitória].”

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