Inglaterra e País de Gales vão investigar racismo na conduta de forças policiais

Apuração focará uso da força e práticas de detenção e revista contra minorias étnicas

Londres | Reuters

O órgão de controle das forças policiais da Inglaterra e do País de Gales anunciou nesta sexta-feira (10) que abrirá uma investigação para avaliar padrões de discriminação racial contra minorias étnicas.

De acordo com o Escritório Independente sobre Conduta Policial (IOPC), a apuração se concentrará, inicialmente, no uso da força e nas práticas de detenção e revista.

Após a onda de protestos antirracismo desencadeada pela morte, nos Estados Unidos, de George Floyd, um homem negro desarmado e asfixiado por um policial branco, a atenção em relação às atitudes de forças de segurança contra minorias também cresceu no Reino Unido.

Polícia contém grupo de manifestantes antirracistas durante protesto em Leeds, no norte da Inglaterra
Polícia contém grupo de manifestantes antirracistas durante protesto em Leeds, no norte da Inglaterra - Oli Scarff - 14.jun.20/AFP

Nesse contexto, as forças policias britânicas têm sido pressionadas a justificar uma série de condutas questionáveis e registradas em vídeos.

A Polícia Metropolitana de Londres, por exemplo, desculpou-se nesta semana após ser acusada de truculência e discriminação racial pela velocista Bianca Williams.

A britânica gravou uma abordagem sofrida por ela e pelo marido —o também velocista Ricardo Santos, recordista português dos 400 metros—, ambos negros, e publicou o registro no Instagram.

Eles estavam em seu carro, com o filho de três meses, quando foram parados pela polícia sem mtivo aparente. Santos chegou a ser algemado.

A polícia afirmou que o veículo foi visto em atitude suspeita, no lado errado da via e em alta velocidade, o que a atleta nega. A chefe da polícia metropolitana de Londres, Cressida Dick, pediu desculpas pela "angústia" causada pela detenção.

"O uso desproporcional dos poderes policiais é, há muito tempo, uma preocupação que repercute na confiança na polícia, em particular nas comunidades BAME", disse o diretor-geral do IOPC, Michael Lockwood, em referência ao acrônimo usado no Reino Unido para se referir a negros, asiáticos e outras etnias minoritárias.

"Ainda precisamos entender melhor as causas e o que pode e deve ser feito para abordar isso", completou.

De acordo com um estudo de 2018 da associação Release e da London School of Economics, negros no Reino Unido têm oito vezes mais chances de serem detidos e revistados do que brancos.

Seguindo a onda de reconhecimento do racismo no Reino Unido, o arcebispo de Canterbury, Justin Welby, líder espiritual dos anglicanos no país, pediu a seus fiéis nesta quinta (9) que reconheçam todos os aspectos do passado da igreja da Inglaterra, inclusive a participação na escravidão.

O religioso disse que os fiéis devem enfrentar a "preocupante bagagem histórica da igreja se quiserem construir um futuro melhor".

O arcebispo de Canterbury, Justin Welby, líder espiritual dos anglicanos no país, durante evento no Quênia, em janeiro deste ano - Thomas Mukoya - 26.jan.2020/Reuters

Segundo Welby, o passado anglicano inclui "santos e traficantes de escravos, pessoas orgulhosas e humildes servos do povo". "São parte de nós, parte da nossa herança, que deve ser reformada, ou pela qual devemos nos arrepender."

Criada em 1534 pelo rei Henrique 8º após romper com o catolicismo romano, a Igreja da Inglaterra já pediu perdão no mês passado por seus vínculos com a escravidão, "uma fonte de vergonha" para a instituição.

O mea culpa ocorreu durante as inúmeras manifestações do movimento antirracista Black Lives Matter (vidas negras importam), que se espalharam pelo mundo, inclusive no Reino Unido.

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