Irã executa homem acusado de repassar informações sobre Suleimani aos EUA

Para autoridades, ex-tradutor não estava envolvido na morte do general, mas ajudou americanos

Teerã | AFP e Reuters

O Irã executou nesta segunda-feira (20) um homem que havia sido condenado por espionar as Forças Armadas e repassar informações sigilosas aos Estados Unidos e a Israel.

De acordo com comunicado da Justiça iraniana, o ex-tradutor Mahmud Musavi Majd, que estava preso desde outubro de 2018, deu à CIA e ao Mossad, os serviços de inteligência dos EUA e de Israel, informações sobre deslocamentos do general Qassim Suleimani, o principal comandante militar do Irã.

Suleimani foi morto em janeiro durante um ataque de drones realizado pelos EUA no Aeroporto Internacional de Bagdá, no Iraque. Segundo a Justiça iraniana, entretanto, o processo contra Majd é anterior ao ataque, e o ex-tradutor não esteve envolvido na morte do general.

"A sentença de Mahmud Musavi Majd foi executada na segunda-feira por espionagem, para que o caso de traição a seu país fique encerrado para sempre", diz o comunicado no site da Justiça iraniana, Mizan Online.

Iraniano exibe imagem do general Qassim Suleimani durante manifestação em Teerã - Nazanin Tabatabaee/WANA - 4.jan.20/Reuters

Majd imigrou para a Síria na década de 1970 com sua família e trabalhou como tradutor de inglês e árabe em uma empresa. Ele teria optado por ficar no país depois que a guerra começou, apesar da partida de seus parentes.

"Seu conhecimento do idioma árabe e sua familiaridade com a geografia da Síria o aproximaram dos conselheiros militares iranianos, e ele assumiu a responsabilidade de grupos localizados em Idlib e Latakia", diz o site.

Majd não era um membro oficial da Guarda Revolucionária do Irã, então chefiada por Suleimani, mas "se infiltrou em várias áreas sensíveis com sua cobertura de tradutor", segundo o Mizan.

O ex-tradutor foi acusado de ter recebido "dólares para revelar informações sobre os comboios de assessores, equipamentos militares e sistemas de comunicação, os comandantes e seus movimentos, importantes áreas geográficas, códigos e senhas" até ser detectado e privado de acesso a essas informações, em 2018.

Em julho de 2019, o Irã anunciou a prisão de 17 pessoas como parte do desmantelamento de uma "rede de espionagem" da CIA e condenou vários deles à morte. Os EUA negam as acusações.

Na semana passada, o porta-voz da Autoridade Judicial do Irã, Gholamhossein Esmaili, informou que um ex-funcionário da divisão aeroespacial do Ministério da Defesa iraniano também havia sido executado no país.

Reza Asgari, segundo as acusações, teria vendido informações à CIA antes de se aposentar, em 2016. Em fevereiro, outro iraniano, Amir Rahimpur, foi morto sob a acusação de ter tentado fornecer à CIA informações sobre o programa nuclear do Irã.

Mais recentemente, três homens acusados de envolvimento nos protestos que se espalharam por centenas de cidades iranianas em novembro de 2019 também foram condenados à morte,

A execução, entretanto, foi suspensa no último final de semana, segundo um advogado dos réus.

"Enviamos uma solicitação [para um novo julgamento] à Suprema Corte, e ela a aceitou. Esperamos que o veredito seja anulado", disse Babak Paknia neste domingo (19) à agência de notícias AFP.

Autoridades do Irã afirmam que a condenação foi baseada em evidências encontradas nos telefones dos réus, segundo as quais eles incendiaram bancos, ônibus e prédios públicos durante as manifestações.

O anúncio do veredito gerou protestos nas redes sociais, em que milhões de publicações no Twitter e no Instagram pediam o cancelamento da execução.

Em um raro reconhecimento da dissidência popular, o porta-voz do governo iraniano, Ali Rabiei, escreveu em um jornal no sábado (18), dizendo que os tuítes eram "uma ação civil dos cidadãos tentando ser ouvidos".

"Realmente esperamos que a sentença [de morte] seja cancelada, já que um dos juízes da Suprema Corte já se opôs ao veredicto", escreveu a defesa dos acusados em comunicado divulgado neste domingo pela agência Irna.

Ativistas de direitos humanos avaliam as sentenças de morte como uma forma de intimidar futuros manifestantes.

Os protestos de novembro de 2019 são considerados um dos episódios mais violentos no Irã desde a Revolução de 1979. De acordo com os números oficiais divulgados pelas autoridades iranianas, houve 230 mortes.

A Anistia Internacional, entretanto, estima que 304 pessoas morreram, enquanto especialistas independentes dizem que as vítimas passam de 400.

O governo dos EUA também fez um levantamento, segundo o qual mais de mil pessoas morreram em decorrência da repressão aos protestos.

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