Descrição de chapéu
John Lewis

Juntos, vocês podem redimir a alma do nosso país

Em texto escrito pouco antes de morrer, John Lewis liga atuais atos antirracismo a movimento por direitos civis dos anos 1960

John Lewis

Deputado americano e líder na defesa pelos direitos civis, morreu no último dia 17, aos 80 anos; poucos dias antes escreveu este artigo para ser publicado no dia de seu funeral

The New York Times

Meu tempo aqui está chegando ao fim, mas quero que vocês saibam que nos últimos dias e horas de minha vida vocês me inspiraram.

Vocês me encheram de esperança sobre o próximo capítulo da grande história americana quando usaram seu poder para fazer diferença em nossa sociedade.

Milhões de pessoas motivadas simplesmente pela compaixão humana derrubaram os obstáculos da divisão. Por todo o país e o mundo vocês puseram de lado raça, classe, idade, língua e nacionalidade para exigir respeito pela dignidade humana.

É por isso que eu tive de visitar a Black Lives Matter Plaza [praça Vidas Negras Importam] em Washington, apesar de ter sido internado no hospital no dia seguinte. Eu simplesmente tinha de ver e sentir pessoalmente que, depois de muitos anos de testemunho silencioso, a verdade continua avançando.

John Lewis segura cópia da Constituição dos EUA durante entrevista coletiva em Washington
John Lewis segura cópia da Constituição dos EUA durante entrevista coletiva em Washington - Mark Wilson - 2.mar.16/AFP

Emmett Till foi o meu George Floyd. Ele foi meus Rayshard Brooks, Sandra Bland e Breonna Taylor. Ele tinha 14 anos quando foi morto, e eu tinha apenas 15 na época. Nunca esquecerei o momento em que ficou muito claro que ele poderia facilmente ter sido eu.

Naquele tempo, o medo nos constrangia como uma prisão imaginária, e pensamentos perturbadores de potencial brutalidade cometida sem motivo compreensível eram as grades.

Embora eu estivesse cercado por pais amorosos, muitos irmãos, irmãs e primos, seu amor não podia me proteger da opressão maligna que esperava assim que eu saísse do círculo familiar.

A violência incontida e irrestrita e o terror sancionado pelo governo tinham o poder de transformar em pesadelo uma simples ida ao mercado para comprar doces ou uma corrida inocente de manhã por uma estrada rural solitária.

Se quisermos sobreviver como uma nação unida, precisamos descobrir o que se enraíza tão rapidamente em nossos corações que é capaz de roubar da Igreja Mãe Emanuel, na Carolina do Sul, seus melhores e mais inteligentes membros, atirar contra o público distraído em um show em Las Vegas e sufocar até a morte as esperanças e os sonhos de um talentoso violinista como Elijah McClain.

Assim como tantos jovens hoje, eu procurava uma saída, ou alguns poderiam dizer uma entrada, e então escutei a voz do doutor Martin Luther King Jr. em um velho rádio.

Ele falava sobre a filosofia e a disciplina da não violência. Ele disse que somos todos cúmplices quando toleramos a injustiça. Disse que não basta dizer que as coisas vão melhorar aos poucos. Ele disse que cada um de nós tem a obrigação moral de se erguer e se manifestar.

Quando você vê algo que não está certo, tem de dizer alguma coisa. Precisa fazer alguma coisa. A democracia não é um estado. É um ato, e cada geração deve fazer sua parte para ajudar a construir o que chamamos de Comunidade Amada, uma nação e uma sociedade mundial em paz consigo mesma.

Pessoas comuns com visão extraordinária podem redimir a alma dos Estados Unidos causando o que chamo de bons problemas, problemas necessários. Votar e participar do processo democrático são vitais.

O voto é o mais poderoso agente de mudança não violento que existe em uma sociedade democrática. Vocês precisam usá-lo, porque não é garantido. Vocês podem perdê-lo.

Vocês também devem estudar e aprender as lições da história, porque a humanidade está envolvida nessa luta existencial dilacerante há muito tempo. Pessoas em todos os continentes se puseram no lugar de vocês, durante décadas e séculos antes de vocês.

A verdade não muda, e é por isso que as respostas elaboradas há muito tempo podem ajudá-los a encontrar soluções para os desafios do nosso tempo. Continuem construindo a união entre movimentos espalhados pelo mundo todo porque precisamos afastar nossa disposição a lucrar com a exploração dos outros.

Mesmo que eu não esteja mais aqui, peço-lhes que respondam ao mais alto apelo de seu coração e defendam o que vocês realmente acreditam.

Na minha vida, fiz tudo o que pude para demonstrar que o caminho da paz, o caminho do amor e da não violência é o mais excelente. Agora é a sua vez de deixar a liberdade soar.

Quando os historiadores pegarem suas canetas para escrever a história do século 21, que digam que foi a geração de vocês que finalmente derrubou os pesados obstáculos do ódio, e que a paz enfim triunfou sobre a violência, a agressão e a guerra.

Por isso eu lhes digo: caminhem com o vento, irmãos e irmãs, e deixem o espírito da paz e o poder do amor eterno serem seus guias.

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