Na Polônia, eleição disputada voto a voto reaviva história de invasões e resistência

Velocidade de reformas do governo nacionalista está em jogo no segundo turno para a Presidência, neste domingo

Varsóvia

As três polonesas que jantavam em meio a uma tempestade na noite de sexta (10), no vegano Leonardo, em Varsóvia, compartilham a faixa etária (30 e poucos anos), a formação (todas pós-graduadas e ligadas à universidade) e o interesse (trabalham no mesmo instituto cultural).

No segundo turno da eleição para presidente, neste domingo, as três vão votar no mesmo candidato, o oposicionista Rafal Trzaskowski (pronuncia-se tshaskófski). Mas é engano imaginar que elas
têm idêntica posição política.

Cada uma escolheu um candidato diferente no primeiro turno, do anti-establishment e popular apresentador de TV Szymon Holownia ao representante da diminuta esquerda, Robert Biedron, e nenhuma vê como cenário ideal a volta à Presidência do partido de Trzaskowski, o liberal Plataforma Cívica (PO), que a ocupou de 2010 a 2015.

O que as reúne agora é a convicção de que não podem dar carta branca ao partido do governo, o nacionalista Lei e Justiça (PiS), que apoia o atual presidente e candidato à reeleição Andrzej Duda.

Eleitores se reúnem em apoio ao candidato à Presidência da oposição, o prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, em comício em Swidnica, no oeste do país  - Krzysztof Cwik - 10.jul.20/Agencja Gazeta/Reuters

A Presidência é um cargo institucional no regime parlamentarista polonês, mas não uma função decorativa, o que explica por que está tão inflamada uma eleição que, no papel, não mudaria tanto os destinos do país.

No primeiro turno, o comparecimento às urnas foi de 64,5%, perto do recorde de 64,7% no segundo turno de 1995. A perspectiva é que a marca histórica seja derrubada neste domingo, com os dois candidatos disputando voto a voto os mais de 30 milhões de eleitores —divulgação de pesquisas e campanhas eleitorais estão proibidas desde a 0h deste sábado (11), mas todos os institutos apontavam empate.

Está em jogo um cargo com o poder de barrar indicações de nomes à Justiça e vetar leis aprovadas pela Assembleia, onde o PiS tem maioria, mas não os dois terços necessários para derrubar vetos.

Se Duda renovar seu mandato por mais cinco anos, o PiS não terá obstáculos a seu projeto de mudança estrutural do Estado, que passa por reforma educacional, alteração na comissão eleitoral, restrição à propriedade de terras por estrangeiros e aumento no controle sobre a Corte Constitucional (equivalente ao Supremo brasileiro).

Também inclui a tentativa de reduzir o poder dos governantes locais. Nas eleições de 2018, o PiS —que tomou do PO o governo federal em 2015— perdeu na maioria das cerca de 950 cidades, com derrotas expressivas nas maiores.

O partido de direita é acusado por opositores poloneses e organizações internacionais de promover o autoritarismo em seu país e ameaçar diretrizes democráticas da União Europeia, da qual a Polônia faz parte desde 2004.

Não por acaso, Duda é o candidato preferido dos chamados eurocéticos, que veem excessiva interferência da UE sobre sua economia e seus valores. Trzaskowski é a personificação do polonês pró-europeu, poliglota, cosmopolita e contemporâneo.

Também não é por acaso que os mapas de votação do primeiro turno, além de mostrarem vitória já esperada do prefeito de Varsóvia nas maiores cidades, indicam vantagem da oposição em municípios pequenos das faixas oeste e norte do país.

Essas não eram terras polonesas em 1918, quando a nação recuperou sua independência; foram anexadas no redesenho de fronteiras pós-Segunda Guerra Mundial.

Nesse território que é Polônia há 75 anos, os valores de tradição e família pregados pelo PiS fazem menos sentido que no sul e no leste, onde os eleitores estão enraizados há gerações e de onde resistiram ao massacre nazista e à ocupação soviética.

Para eles, a dominação alemã —que o PiS afirma ser ainda uma ameaça— e a invasão russa —contra a qual o governo apregoa um Estado forte e militarizado— são perigos críveis, cuja memória está visível em sete cidades visitadas pela Folha numa viagem de 591 km por duas províncias do leste do país, Mazowsze (profundamente católica e conservadora) e Podlasie (onde ainda coexistem minorias nacionais e religiosas).

Menos de 2% dos poloneses, os cristãos ortodoxos garantem algumas pequenas manchas de votação anti-PiS no mar governista que cobre o mapa do leste polonês.

Nacionalistas de direita são vistos como inimigos pelo grupo religioso, que sofreu ataques e assassinatos sob acusação de colaboracionismo com os soviéticos durante e após a guerra.

Afora as mágoas políticas, é amistosa a convivência atual entre vizinhos de diferentes religiões, e não causam escândalo casamentos mistos, sob os olhares das cegonhas em centenas de ninhos no
alto dos postes de Podlasie.

Na praça central de Bialystok, capital regional com cerca de 300 mil habitantes, um painel sobre o coronavírus pergunta qual é a identidade que está por trás das máscaras de proteção de rostos jovens.

Em localidades menores rurais ou industriais, como Ostrów Mazowiecka, Bielsk Podlaski, Tykocin, Hajnówka e Wizna, é identidade o que se reforça em monumentos, igrejas, murais e estátuas de heróis históricos.

As cicatrizes mais recentes são o massacre de 6 milhões de poloneses (metade deles judeus) pelos nazistas e a deportação de mais de 1,2 milhão pelos soviéticos, mas a história é cheia de episódios de ocupação, resistência e superação desde o século 10, quando a Polônia surgiu.

O reino que prosperou e se expandiu até ser um dos maiores da Europa no século 16 (em associação com a Lituânia) foi desgastado por guerras, implodido em disputas internas e repartido entre Prússia, Rússia e Áustria no século 18. Recuperou a soberania ao final da Primeira Guerra, para vê-la desaparecer 21 anos depois, na Segunda.

Elemento da identidade polonesa, a Igreja Católica também está em sua história desde o início, quando Mieszko 1º adotou o catolicismo, em 966.

As tropas do católico João 3º Sobieski barraram o avanço turco na batalha de Viena, em 1683, episódio que os poloneses se orgulham de descrever como “o muro que impediu a invasão da Europa pelos muçulmanos”, e uma abadia em Czestochowa é o símbolo da resistência aos suecos, também no século 17.

Na Primeira Guerra, a vitória do rio Vístula, em que poloneses em desvantagem numérica conseguiram derrotar os russos, é lembrada também por coincidir com a data (15 de agosto) da ascensão de Nossa Senhora, a quem atribuem um milagre.

Católicos eram a base das guerrilhas na ocupação da Segunda Guerra, e a igreja foi a fonte de unidade e resistência da Polônia sob o regime comunista, que durou até 1989.

São cerca de 90% os poloneses batizados, dos quais metade é praticante, e religiosidade não implica conservadorismo moral ou intolerância nos costumes.

Considerado o mais pragmático e bem-sucedido defensor dos direitos de mulheres e minorias sexuais, o prefeito de Gdansk Pawel Bogdan Adamowicz (assassinado no ano passado, aos 53 anos) era praticante e recebeu uma condecoração do papa (polonês) João Paulo 2º, em 2003.

Unidos pela religião, governo e oposição têm neste segundo turno um mesmo desafio: convencer seus apoiadores a sair de casa e votar.

O PiS não se cansou de garantir aos mais velhos que a pandemia de Covid-19 não representa risco. Para a Plataforma Cívica, a meta é convencer os que não morrem de amores por Trzaskowski de que vale um esforço para evitar um mal maior.

No sábado de silêncio eleitoral, perdurou a chuva que dificultou o jantar de sexta, mas a previsão para o domingo era de tempo seco e ameno.


UNIDADE E DIVISÃO

Algumas datas da história polonesa


  • século 5 - povos eslavos se instalam na Europa central
  • 966 - Mieszko 1º se converte ao Catolicismo e funda o Estado polonês; reino da Polônia é proclamado em 1025
  • 1569 - Polônia se associa a Lituânia e forma o maior Estado europeu, com um Parlamento de nobres que elegem os reis. Em 1683, tropas polonesas impedem o avanço dos turcos sobre a Europa, na batalha de Viena
  • 1772 - Começa a repartição de terras polonesas entre Rússia, Prússia e Áustria
  • 1791 - Polônia promulga a primeira Constituição da Europa, é invadida em 1793 e perde a independência em 1795; movimentos de resistência perduram até a Primeira Guerra Mundial
  • 1807 - Napoleão cria ducado de Varsóvia, como Estado submisso à França. Em 1815, o Congresso de Viena cria o reino da Polônia, governado pela Rússia e depois anexado por ela em 1864. Em 1914, Nikolai Ruzsky vence os russos na batalha do rio Vistula
  • 1918 - Polônia retoma a independência e dá direito de voto às mulheres
  • 1920 - Invasão soviética é derrotada
  • 1939 - Segunda Guerra Mundial começa quando a Polônia é invadida pelos alemães em 1º de setembro; soviético invadem em 17 de setembro, resistência cai em 6 de outubro e país é dividido entre Alemanha e URSS.
  • 1941 - Nazistas começam a erguer campos de concentração. Levante do gueto de Varsóvia é derrotado. Na Segunda Guerra Mundial, 6 milhões de poloneses são mortos pelos nazistas (3 milhões deles, judeus), e estimado 1,2 milhão deportado pela URSS
  • 1945 - Conferência de Potsdam estabelece fronteiras atuais
  • 1947 - País fica sob controle da União Soviética. Guerrilha sobrevive até
  • 1978 - Karol Wojtyla se torna o papa João Paulo 2º
  • 1980 - Começa em Gdansk o movimento de trabalhadores Solidariedade (Solidarnosc), que promove greves. Seus líderes são presos em 1981 e lei marcial vigora até 1983
  • 1989 - Cai o governo comunista. Lech Walesa, líder do Solidariedade, é eleito presidente em 1990
  • 1999 - Polônia entra na aliança militar Otan
  • 2004 - Polônia ingressa na União Europeia
  • 2005 - PiS vence eleições parlamentares e para a Presidência
  • 2007 - Plataforma Cívica vence eleições e forma governo; em 2010, obtém a Presidência
  • 2015 - PiS volta a obter o governo e a Presidência; em 2016, muda regras para aumentar controle sobre mídia e tenta aprovar proibição total ao aborto; começa reformas do Judiciário em 2017
  • 2019 - PiS perde controle do Senado
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