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No 5º aniversário da 'repressão de 709', na China, apresentamos nosso lado da história

Familiares de ativistas de direitos humanos relatam perseguição após denunciarem abusos

Li Wenzu Yuan Shanshan Liu Ermin Wang Qiaoling

Em julho de 2015, policiais chineses realizam operações de busca e de prisão e interrogaram cerca de 300 advogados e ativistas que defendem os direitos humanos, num episódio conhecido como "repressão de 709" (9 de julho, em inglês).

Alguns deles foram mostrados na TV fazendo confissões humilhantes e descritos como bandidos e agitadores.

A maioria foi solta depois, mas ao menos cinco seguem presos, segundo a ONG Human Rights Watch. Há relatos de que detentos foram torturados.

Familiares dos presos que questionaram as ações do Estado foram perseguidos. No artigo abaixo, quatro desses parentes contam o que viveram nos últimos anos.


Já estamos no quinto aniversário da repressão de 709. Olhando em retrospectiva, sentimos que estávamos tropeçando a cada passo que demos.

Antes da repressão de 709, em 2015, éramos todas donas de casa que nunca teríamos participado do trabalho de nossos maridos. Não entendíamos os perigos e as dificuldades que eles enfrentavam no trabalho.

Foi por isso que nos pareceu uma catástrofe tão tremenda quando a polícia chegou de repente para confiscar nossas casas e quando nossos maridos foram “desaparecidos” de uma hora para outra.

Naquele momento, Yuan Shanshan —a esposa de Xie Yanyi— foi a primeira a usar meios legais para lançar nosso movimento em defesa dos direitos. Depois de ler um artigo publicado pela agência de notícias Xinhua difamando seu marido, ela processou o veículo.

Policiais patrulham a Cidade Proibida, em Pequim - Carlos Garcia Rawlins - 1º. jul.2020/Reuters

Certa noite, ela ficou acordada até tarde e escreveu uma denúncia contra a agência de notícias Xinhua, que mais tarde publicou online.

No dia seguinte, agentes de segurança foram à sua casa e pediram que ela lhes contasse honestamente quem a ajudara a redigir a denúncia. Os agentes a ameaçaram, dizendo que ela precisava guardar silêncio, senão sofreria as consequências.

As medidas legais postas em ação por Yuan Shanshan nos incentivaram muitíssimo. Nesses cinco anos, lançamos incontáveis revisões administrativas, litígios administrativos, queixas e ações judiciais.

Também recorremos a outros meios para protestar: um “show de balde vermelho” no Tribunal Popular Intermediário Nº 2 de Tianjin, um desfile de moda na Procuradoria Popular Suprema.

Raspamos nossas cabeças diante da Suprema Corte (frase: eu posso ser careca, você não pode ser fora da lei), fizemos uma ação de campanha ao caminhar de Pequim a Tianjin para procurar nossos maridos, etc.

Fomos detidas cerca de 20 vezes nos últimos cinco anos. Ermin, a esposa do ativista Zhai Yanmin, foi forçada a voltar a Pequim enquanto procurava seu marido em Tianjin. Enquanto estava na delegacia de polícia de Yongning, foi espancada pela polícia até desmaiar.

Qiaoling, esposa do advogado Li Heping, depois de nomear um advogado para que seu marido processasse a rede Xinhua, recebeu uma intimação criminal para comparecer à delegacia de polícia da Zona de Desenvolvimento Yizhuang na Boxing Road.

Wenzu, esposa do advogado Wang Quanzhang, estava procurando seu marido a pé quando foi levada de volta à sua casa em Pequim.

Ela foi obrigada a subir sobre a grade da sacada para gritar para os moradores do andar de baixo sobre a ação vergonhosa da polícia, já que estava impedida de descer para sua própria casa, no quinto andar, por até cem pessoas, incluindo supostos residentes do distrito de Shijingshan, agentes de segurança à paisana e malfeitores.

Fomos forçadas a mudar de casa diversas vezes. Já nos acostumamos a ser perseguidas, assediadas e interrogadas por agentes de segurança.

Nossos filhos pequenos foram expulsos da escola e privados do ensino correto; nossos filhos que concluíram o ensino secundário foram privados da liberdade de estudar no exterior devido a restrições sobre seus passaportes.

Cheias de tristeza e indignação, passamos por todas essas coisas. Mas hoje, quando olhamos para trás, sorrimos com lágrimas nos olhos, porque não lamentamos nada e passamos pelo vale da morte juntas.

Vendo pessoas voltando vivas dos processos judiciais da “repressão de 709” e sendo capazes de viver com sorrisos estampados no rosto, precisamos agradecer a todos vocês por sua atenção incessante à nossa causa. Somos sinceramente gratas por toda a ajuda.

Gostaríamos de demonstrar nossa gratidão à comunidade de advogados chineses de direitos humanos. Eles nos defenderam em nossos momento de maior dificuldade e perigo, dando-nos apoio e assistência tremendos.

Alguns deles foram levados para ser interrogados, alguns tiveram suas licenças suspensas, cassadas, e alguns chegaram a ser presos. Eles nos ajudaram às custas de sua liberdade e de sua carreira.

Precisamos agradecer à equipe de defesa dos direitos humanos de nossa irmã mais velha Ye Jinghuan, que nos acompanhou e apoiou ao longo dos últimos cinco anos e não parou de fazê-lo até hoje.

Também somos muito gratas pela cobertura objetiva e justa da imprensa de Hong Kong e estrangeira. A imprensa nacional na China continental frequentemente divulga falsidades.

A mídia vê nossa causa como sendo “politicamente delicada”, razão pela qual as notícias que divulgávamos sempre eram varridas para baixo do tapete.

Esse tipo de supressão, que emprega a privação da liberdade de expressão e a violação da Constituição chinesa, nos impediu de compartilhar mais informações sobre nosso movimento de defesa dos direitos daqueles afetados pela “repressão de 709”, chegando a gerar medo generalizado entre o público ao ouvir alguém mencionar a “repressão de 709”.

Apenas por termos uma cobertura objetiva e justa da “repressão de 709” foi que pudemos refletir para o mundo de modo verdadeiro nossa jornada e experiência na defesa dos direitos humanos.

Finalmente, queremos manifestar nosso respeito a todos que apoiaram e continuam a apoiar vítimas da “repressão de 709”.

Seu amor e determinação de lutar pela justiça têm sido a nossa motivação para seguirmos adiante. Não podemos parar nossa jornada aqui, e estamos mais dispostas que nunca a continuar.

Li Wenzu, Yuan Shanshan, Liu Ermin e Wang Qiaoling são familiares dos advogados do caso conhecido como repressão de 907 

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