Descrição de chapéu The Wall Street Journal Coronavírus

Processo de adoção nos EUA se adapta aos obstáculos do coronavírus

Pandemia interrompeu maioria das adoções internacionais; internas passam por adaptções

Christina Rexrode
The Wall Street Journal

Quando Eric Emch e seu marido, Alan Lane, começaram a tentar adotar um bebê, dois anos atrás, não esperavam uma pandemia. Em março, estavam isolados em casa, na cidade de Nova York, quando souberam que haviam encontrado para eles uma menina, que nasceria em maio.

Depois desse telefonema, as etapas que eles esperavam não aconteceram. Emch e Lane não puderam conhecer pessoalmente a mãe, Alicia Ayers. Eles não receberam o bebê, Margot, no escritório da agência de adoção —que estava fechada por causa da pandemia—, mas na calçada em frente ao hospital.

Concluíram a papelada ali mesmo, e o contato na agência de adoção registrou os documentos pelo FaceTime.

Bebê nascido em meio à pandemia do coronavírus, em maternidade na Inglaterra - Hannah McKay - 22.jun.2020/Reuters

O coronavírus interrompeu a maioria das adoções fora dos EUA, mas as internas estão avançando devagar. Os procedimentos variam conforme o estado, a agência e a família, e os "lockdowns" complicaram as verificações pessoais, as visitas às residências e os testes físicos dos candidatos a pais e mães.

Os funcionários públicos e as famílias estão contando com esquemas como aulas online para os pais.

"As pessoas estão encontrando novos sistemas para fazer tudo dar certo", diz Ryan Hanlon, vice-presidente do Conselho Nacional para Adoções (NCFA, na sigla em inglês), um grupo de ação civil. "O resultado é bom, geralmente —só é mais difícil de entender."

Em 2018, os americanos adotaram cerca de 80 mil crianças americanas que não eram suas parentes, segundo o NCFA. Cerca de 75% foram adotadas por meio do sistema oficial de tutelagem ("foster care"). A maioria das demais foi adotada por meio de agências privadas.

A agência Spence-Chapin, de Nova York, que uniu Margot ao casal Emch e Lane, realizou sessões de aconselhamento e entrevista pela internet enquanto a cidade estava em quarentena rígida.

No entanto, as famílias devem receber visitas de um membro da agência antes que a criança seja entregue a seus cuidados. Em março, a agência suspendeu temporariamente essas visitas pessoais, que foram retomadas na semana passada.

Emch, 34, é designer gráfico na Disney on Broadway, um estúdio da Walt Disney que produz teatro. Lane, também 34, trabalha angariando fundos para a Metropolitan Opera, de Nova York.

O casal teve três conversas por vídeo com Ayers, 21, antes do nascimento de Margot. Eles se conectaram pelo amor comum à ópera e ao Food Network, canal gastronômico de televisão .

"O modo como eles me disseram que iriam criá-la realmente combinou com meus desejos e valores", disse Ayers, que vive em Long Island, Nova York, e estuda artes vocais. "Queria exatamente o que eles queriam."

Em 8 de maio, dois dias depois que Margot nasceu, Emch e Lane dirigiram de Manhattan até o hospital Stony Brook Southampton para levá-la para casa.

Diante do hospital, o advogado de Ayers tirou uma foto do casal com a mãe e o bebê. Os dois pais deram a ela um colar com uma esmeralda —a pedra natal de Margot. Ayers deu a eles uma colcha de crochê que havia feito. Todos usavam máscaras, menos a bebê.

"Lá estava aquela mulher nos dando o maior presente que podíamos imaginar e com quem tínhamos nos ligado estreitamente", disse Emch, "e não podíamos abraçá-la".

A pandemia atrapalhou muita coisa na vida cotidiana, e suas consequências, como o distanciamento social, são sentidas agudamente na área íntima da adoção.

Mikel e Odessa Anderson iniciaram o processo há cerca de 18 meses e esperam para setembro o nascimento de uma menina que pretendem adotar.

Eles demoraram dois meses —mais que o normal— para tirarem as impressões digitais para uma checagem policial, porque a empresa que procuraram estava temporariamente fechada por causa do coronavírus, segundo eles.

O casal só visitou a mãe biológica uma vez até agora, porque quer ter certeza de que ela continue saudável. Quando se encontraram, em abril, não puderam levá-la para almoçar ou acompanhá-la num exame de ultrassom.

Os Anderson, que vivem perto de Seattle e trabalham em gestão de cadeia de suprimentos, usavam máscaras e lavavam as mãos constantemente. "Estamos tentando equilibrar segurança com intimidade", disse Odessa, 36. "É difícil, porque você quer ver os rostos."

O coronavírus complicou tarefas normalmente simples dos pais, como se inscrever para o acampamento de verão e comprar roupas. Os pais adotivos Jessi e Aaron Troester, que vivem no Missouri, receberam dois irmãos em sua casa em maio.

Os Troester pediram que as crianças, que estão no ensino médio, escolhessem seus tecidos preferidos.

"As coisas vão bem", disse Jessi Troester, 35, que dirige uma entidade beneficente. "Mas nunca pensei que a primeira coisa que eu faria seriam máscaras."

Em Nova York, Emch e Lane ainda trabalham em casa e podem passar tempo com a filha. Eles contam com o FaceTime até que possam apresentar Margot pessoalmente a seus pais e irmãos.

O tribunal de família da cidade de Nova York não está analisando atualmente a maioria dos casos de finalização de adoção por causa do coronavírus. Normalmente, a conclusão pode durar até um ano, cronograma que a pandemia deverá prolongar.

Os novos pais pretendem contar a Margot que ela nasceu durante a pandemia. Eles também percebem que ela terá companhia. "Quando tiver idade suficiente para ter amigos e ir à escola, todos os seus colegas terão exatamente a mesma história", disse Lane.

ADOÇÕES INTERNACIONAIS

As adoções internacionais estão efetivamente paralisadas, deixando muitas famílias em um modo de espera doloroso.

Kathy e Troy Thornburg tinham passagens para a China em 31 de janeiro, para adotar uma menina de 3 anos que chamaram de Molly. Mas sua agência de adoção cancelou a viagem alguns dias antes.

O Departamento de Estado aconselhou os americanos a não viajarem à China, mesmo para adoções, e as companhias aéreas americanas suspenderam os voos.

"Às vezes você pensa: 'As coisas são assim e não posso mudá-las'", diz Kathy, 33, designer gráfica na Carolina do Norte. "E às vezes você só consegue pensar nisso."

Famílias americanas adotaram cerca de 3.000 crianças do exterior no ano que terminou em 30 de setembro, segundo o Departamento de Estado. Cerca de 800 delas vieram da China, mais que de qualquer outro país.

Mas concluir uma adoção internacional durante a pandemia está se mostrando quase impossível. O grupo de defensoria NCFA disse que está ciente de que algumas famílias americanas concluíram adoções internacionais nos últimos meses, mas geralmente só em emergências.

Por exemplo, uma família conseguiu ir à China para adotar uma criança que, por sua idade, sairia do sistema chinês de assistência social, disse a NCFA.

A China fechou de modo geral suas fronteiras para estrangeiros no final de março. Os que entrarem quase certamente serão postos em quarentena. Em muitas províncias, as repartições públicas que finalizam as adoções não estão abertas, ou funcionam com capacidade limitada, segundo a NCFA.

Os Thornburg têm dois filhos mais velhos, de 6 e 8 anos, e há muito queriam aumentar a família por meio de adoção. Eles escolheram a China em parte porque aceitavam adotar uma criança que não era mais um bebê.

Muitas crianças que a China encaminha para adoção no exterior são mais velhas ou têm necessidades médicas ou de desenvolvimento especiais.

O casal Thornburg pretendia ir junto à China, mas agora acham que Kathy viajará sozinha. Eles preveem que as quarentenas vão prolongar demais a viagem e não querem ficar os dois longe dos outros filhos por muito tempo. Eles já prepararam o quarto de Molly.

"Queremos buscá-la e trazê-la em segurança, mas principalmente queremos que ela esteja segura", disse Kathy. "E se isso exigir que ela fique lá por mais tempo, é o que importa."

Eles rezam pela menina todas as noites.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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