Retórica conservadora pode dar a mulheres papel decisivo na eleição na Polônia

Pesquisas mostram atual presidente dez pontos atrás de seu rival na preferência feminina

Varsóvia

Quando lançou “As Freiras Partem em Silêncio”, Marta Abramowicz não imaginava que a história de religiosas que deixaram seus conventos faria tanto sucesso.

Três anos e 60 mil cópias depois, a escritora de 41 anos faz uma ligação entre o fenômeno editorial e o disputado segundo turno da eleição presidencial na Polônia, que acontece neste domingo (12).

Para ela, o livro de não ficção conta uma história de opressão e submissão que encontra eco na realidade das mulheres polonesas em geral.

Formada em psicologia e ciências sociais, ela diz que freiras jovens foram proibidas pelas madres superioras de ler seu livro. “Mas por quê? É a verdade sobre nossas vidas”, questionaram as mais novas. “Sim, é a verdade. Mas não deve ser lida”, foi, segundo Abramowicz, a resposta das mais velhas.

Prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowski, posa para foto com apoiadora em comício durante disputa presidencial - Kacper Pempel - 10.jul.20/ Reuters

“O mesmo se passa com os direitos das mulheres na sociedade polonesa. Há uma verdade que não pode ser revelada em voz alta”, afirma a escritora, para quem as mulheres são as maiores vítimas do conservadorismo e podem ser o principal instrumento de mudança nessas eleições.

Abramovicz diz que nas cidades menores do leste e do sul do país, justamente a região que dá os maiores índices de votos ao PiS (Lei e Justiça, partido do atual governo), “há alguns anos não havia a menor possibilidade prática de uma mulher se divorciar, mesmo que fosse vítima de violência”.

O próprio presidente Andrzej Duda, que concorre à reeleição com apoio do PiS (na Polônia, presidentes não podem ser filiados), já afirmou que a Convenção de Istambul, instrumento europeu de combate à violência doméstica e proteção às suas vítimas, deve ser abolida. Políticas do PiS, como Beata Kempa, já declararam que "a igualdade de gênero é simplesmente heresia", e na visão de família defendida pelos conservadores “cada mulher deve carregar sua cruz”.

Na estimativa das organizações de direitos humanos, mais de 700 mil mulheres por ano carregam essa cruz em silêncio na Polônia. Os casos de violência doméstica registrados pela polícia são cerca de 90 mil por ano, mas pouco mais de 10% das vítimas fazem denúncias, segundo pesquisadores.

Para angariar a boa vontade feminina, o PiS tem incentivado a criação de Círculos de Donas de Casa nas regiões rurais, aos quais destinou em 2018 o equivalente a R$ 22 milhões e, em 2019, outros R$ 40 milhões.

O partido do governo também aumentou os gastos em programas sociais, entre eles o pagamento de 500 zlótis (cerca de R$ 676) mensais por criança, verba que faz bastante diferença nas regiões mais pobres do país.

Mesmo assim, pesquisas de intenção de voto mostram que, na preferência das mulheres, o presidente polonês aparece mais de dez pontos percentuais atrás de seu rival, o atual prefeito de Varsóvia, Rafal Trzaskowski (pronuncia-se Tshaskófski). Entre mulheres jovens, o prefeito tem o dobro da preferência.

Trzaskowski também tem tentado conquistar as famílias mais tradicionais com armas semelhantes às de Duda. Apesar de seu partido, Plataforma Cívica, ter sido contrário aos benefícios, o prefeito garantiu que vai manter o auxílio por criança e acrescentar um pagamento de 200 zlótis mensais (R$ 270) para as mulheres quando se aposentarem, como compensação pela dupla ou tripla jornada durante a vida.

Sem um campo de batalha na questão feminina, o PiS voltou suas baterias para os homossexuais. Duda enviou à Assembleia um projeto de emenda à Constituição que proíbe a adoção de filhos por casais do mesmo sexo, mesmo que a criança seja filha biológica de um dos parceiros, medida que pode afetar até 50 mil crianças polonesas que vivem nas chamadas “famílias arco-íris” no país, segundo o relatório "Famílias de Escolha", de cuja edição Abramowicz participou.

Uma das fundadoras da ONG Campanha Contra Homofobia, a escritora coordenou em 2003 a iniciativa “Deixe que nos Vejam”, que espalhou pelo país fotos de casais homossexuais de mãos dadas. Até então, para aparecer na mídia, pessoas LGBT pediam para ter o rosto escondido e a voz desfigurada, afirma ela.

Com a visibilidade, veio também mais resistência, “e o PiS passou a promover o ódio entre as pessoas”, afirma Abramowicz. “A situação piorou tanto que até nossos filhos passaram a ser atingidos”, diz, apontando como exemplo o ataque de nacionalistas a um piquenique de famílias arco-íris, em 2018. Até então promovido anualmente por dez anos, ele parou de acontecer, para evitar que as crianças sofressem violência.

Segundo Abramowicz, o movimento anti-LGBT começou com uma retórica inflamada, o que estimulou o comportamento mais agressivo de “tropas nacionalistas”. Agora, o governo está levando sua ideologia às esferas política e jurídica, como na emenda sobre a adoção.

“Muitas famílias arco-íris são tratadas com solidariedade e apoio pelos outros pais em sua vizinhança, nos jardins de infância, nas escolas. Ninguém questiona seu status. Mas, quando ouvimos pessoas dizendo coisas terríveis na TV, somos assolados pelo terror”, afirma ela.

Sob ataques do atual presidente, que afirmou em discurso que Trzaskowski ia “entregar as crianças polonesas aos gays”, o prefeito de Varsóvia também declarou ser "contra a adoção de filhos por casais do mesmo sexo", o que pode lhe tirar votos dos homossexuais, segundo ativistas LGBT ouvidos pela Folha.

“Mesmo que a maioria entenda que ele foi forçado a fazer essa declaração para não perder votos da população mais ampla, isso pode desanimar parte de seus eleitores”, afirma Abramowicz.

Segundo ela, na ponta do lápis, a estratégia pode fazer sentido (homossexuais são estimados em 2% da população polonesa). “Mas, numa corrida eleitoral tão apertada, com pesquisas apontando empate a dois dias da votação, 1 ponto percentual pode ser a distância entre a vitória ou o fracasso”, diz ela.

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