Surto misterioso de coronavírus pega Vietnã de surpresa

País ficou meses sem ter novos casos, o que levou população a relaxar nas medidas de proteção

Hannah Beech Chau Doan
Bancoc e Hanói | The New York Times

Em um mundo assolado pela pandemia, o Vietnã parecia um milagre. Depois de passar meses sem registro de uma única morte por coronavírus, ou mesmo um caso confirmado de transmissão local, os moradores começaram a deixar as máscaras em casa.

Os restaurantes de macarrão ressoavam com o ruído dos palitos e o caldo sugado. As escolas abriram. E, atraídos por boas ofertas, turistas vietnamitas começaram a tirar férias novamente, lotando a cidade litorânea de Danang, com suas praias douradas e abundantes frutos do mar.

Mas durante o último fim de semana o Vietnã, que tinha passado cerca de cem dias sem um caso confirmado de transmissão local, anunciou que o vírus está espreitando o país afinal —e se espalhando.

Pessoas esperam em ponto de ônibus em Hanói
Pessoas esperam em ponto de ônibus em Hanói - Manan Vatsyayana - 29.jul.20/AFP

Primeiro, um homem de 57 anos de Danang teve resultado positivo no teste para Covid-19 e hoje vive graças a equipamentos hospitalares.

Depois surgiram rapidamente núcleos em cinco hospitais. Na quarta-feira (29) o vírus tinha se disseminado ao norte, até a capital Hanói, ao sul, para a cidade de Ho Chi Minh, e afligia duas províncias no centro do país, assim como o remoto Planalto Central.

O surto do coronavírus no Vietnã, que até agora registrava menos de 450 casos, revelou os perigos do coronavírus mesmo em lugares que pareciam ter feito quase tudo certo na batalha contra o contágio.

Japão, China, Austrália e Coreia do Sul, que aparentemente tinham seus surtos razoavelmente sob controle, registraram aumentos na quarta. No estado australiano de Victoria, as autoridades anunciaram 295 novos casos, além de nove mortes.

Hong Kong, que manteve o número de casos baixo durante meses, agora corre contra uma onda de novas infecções, com cerca de cem pessoas a mais por dia.

Com contaminações surgindo em lares de idosos e restaurantes, Carrie Lam, a executiva-chefe do território, advertiu na terça-feira que Hong Kong está "à beira de um surto comunitário em grande escala".

Embora o Vietnã, que tem 95 milhões de habitantes, continue sendo o maior país que não confirmou uma única fatalidade pelo coronavírus, o mistério em torno das infecções que surgem pelo país assombrou especialistas em medicina e também os moradores.

"Na minha opinião, esse surto é mais perigoso que o anterior porque está acontecendo ao mesmo tempo em muitos lugares", disse Nguyen Huy Nga, diretor da faculdade de saúde pública e enfermaria da Universidade Quang Trung, na província de Binh Dinh.

"Não sabemos a origem da doença, especialmente com dezenas de milhares de turistas indo a Danang."

As autoridades vietnamitas reagiram à última onda de casos com as decisões rápidas e forçosas que caracterizaram seus atos nos primeiros dias da pandemia.

Horas depois que grupos de casos foram confirmados em hospitais de Danang no início desta semana, as autoridades avisaram que fechariam o aeroporto da cidade. Até 80 mil turistas locais que escolheram o lugar para suas férias de verão seriam evacuados, disseram as autoridades.

Desde então, várias províncias instituíram a quarentena para chegados de Danang, e a rede de verificação já localizou casos positivos.

Um garçom numa pizzaria em Hanói teve resultado positivo no teste de coronavírus depois de visitar Danang com sua família, relatou a mídia local. Na quarta, a pizzaria foi borrifada com desinfetante por trabalhadores em trajes especiais, segundo um vídeo divulgado pela mídia local.

No Planalto Central, uma mulher de 21 anos que estudava em Danang e voltou para casa de carro teve resultado positivo no teste.

Danang, cidade normalmente agitada com turistas e comerciantes, hoje tem restaurantes e bares fechados. As máscaras são novamente obrigatórias. Com os banhos de mar proibidos pelas autoridades, suas famosas praias estavam desertas na quarta, segundo moradores.

"Minha família e eu não estamos na área onde há pessoas infectadas, mas estou muito preocupado", disse Le Thi Thuy Vi, dono de uma mercearia em Danang. "Hoje decidi que a família inteira deve ficar em casa."

Quando o coronavírus começou a se irradiar da cidade chinesa de Wuhan em janeiro, o Vietnã, que compartilha uma fronteira e a ideologia de governo com a China, mas continua temerosa de seu vizinho ao norte, agiu rapidamente. O país aprendeu com surtos anteriores de novas doenças, como a Sars e a gripe H1N1.

No final de janeiro, o Vietnã fechou as escolas. Uma burocracia bem equipada para vigiar a população voltou sua atenção para o rastreamento abrangente de contatos.

A maioria dos vietnamitas, já habituada a usar máscaras por causa da poluição aérea, viu o valor de se proteger das gotículas virais carregadas pelo ar.

Depois que uma mulher voltou dos desfiles de moda na Europa e ajudou a espalhar o coronavírus no país, o Vietnã cancelou quase todos os voos internacionais em março, e os cidadãos que retornam têm de cumprir quarentena em instalações do governo.

Sem certeza sobre a fonte do surto em Danang, que infectou pelo menos 26 pessoas, as autoridades médicas correm para descobrir como os casos estão proliferando em um país supostamente isolado.

O Ministério da Saúde disse que a variedade do vírus detectada em Danang é diferente das que circularam durante a rodada inicial de transmissão local.

"Esta é importada", disse Nga, o especialista em saúde pública. "Um vírus não pode sobreviver por três meses em uma comunidade sem causar doença."

Nga disse acreditar que o vírus provavelmente chegou ao Vietnã no final de junho ou início de julho.

Em Danang, a polícia varreu a cidade tentando localizar estrangeiros que pudessem ter trazido o vírus. No sábado (25), deteve nove chineses que tinham entrado ilegalmente no Vietnã, segundo as autoridades.

Dezenas de outros chineses na mesma situação foram apanhados no início do mês no centro do país. Um deles, que segundo a polícia tinha montado uma rede ilegal de imigração, foi preso na segunda.

Os detidos foram colocados em campos de quarentena ou isolados em hospitais, disse a polícia.

Em todo o Vietnã, os hospitais estão preparando leitos para lidar com um aumento dos casos. Nga comentou que respiradores mecânicos e outros equipamentos necessários para combater o coronavírus são limitados no país.

As pessoas se tornaram desleixadas, disse ele. "Depois de cem dias sem surtos, as pessoas não estavam mais tomando precauções", explicou. "Não usavam máscaras nem lavavam as mãos com sabão e frequentavam lugares lotados."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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