Trump ataca esquerda e grupos antirracistas em discursos do Dia da Independência dos EUA

Presidente praticamente ignora pandemia e diz que movimentos tentam apagar a história dos EUA

Donald Trump durante comício de campanha no Monte Rushmore

Donald Trump durante comício de campanha no Monte Rushmore Saul Loeb/AFP

Monte Rushmore, São Paulo, Keystone (EUA) e Washington | Reuters e AFP

Em dois discursos carregados de simbolismo, o presidente americano, Donald Trump, fez das celebrações da independência dos EUA uma plataforma de campanha para energizar sua base com ataques à esquerda e a grupos antirracistas.

O primeiro evento, realizado na sexta (3), véspera do feriado de 4 de julho, teve como cenário o Monte Rushmore, monumento que homenageia quatro ex-presidentes.

O republicano afirmou que o movimento a favor da derrubada de estátuas de líderes confederados e de outras figuras históricas ligadas à discriminação e ao colonialismo é uma tentativa de apagar a história dos Estados Unidos.

Desde o início de junho, uma onda de questionamentos impulsionada pelos atos após o assassinato de George Floyd, em Minneapolis, transformou em alvo estátuas de figuras históricas consideradas racistas.

Em Richmond, na Virgínia, uma estátua de Cristóvão Colombo foi derrubada, incendiada e jogada em um lago. Dezenas de monumentos em homenagem a figuras do Exército Confederado, que defendia a manutenção da escravidão na Guerra Civil Americana (1861-1865), também foram pichados e, em alguns casos, derrubados.

Em resposta aos protestos, Trump adotou uma abordagem de “lei e ordem” e defendeu uma reação militarizada aos manifestantes, com uso de armas de fogo.

“Não se enganem! Essa revolução cultural de esquerda foi projetada para derrubar a Revolução Americana”, disse Trump dentro do Memorial do Monte Rushmore, no estado da Dakota do Sul. “Nossos filhos são ensinados na escola a odiar seu próprio país.”

No segundo evento, realizado nos jardins da Casa Branca neste sábado (4), Trump voltou ao assunto. “Nosso passado não é um fardo a ser abandonado”, disse.

As duas solenidades ocorrem num momento em que o republicano cai nas pesquisas e vê o democrata Joe Biden se consolidar como favorito para a eleição presidencial, marcada para 3 de novembro.

Por isso, os discursos, recheados de ataques a marxistas, anarquistas e baderneiros (nas palavras do presidente), de referências a uma guerra cultural e de incentivos à polarização da sociedade americana, foram entendidos como uma tentativa de mobilizar seu eleitorado mais fiel.

“Há um novo fascismo de extrema esquerda que exige lealdade absoluta. Se você não fala sua língua, executa seus rituais, recita seus mantras e segue seus mandamentos, então você será censurado, banido, colocado em uma lista negra, perseguido e punido. Isso não vai acontecer conosco”, disse.

Sob o marco famoso que representa George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln, Trump disse que os atos contra a desigualdade racial na sociedade americana ameaçavam os fundamentos do sistema político dos EUA.

“Multidões raivosas estão tentando demolir estátuas de nossos fundadores, desfigurar nossos memoriais mais sagrados e desencadear uma onda de crimes violentos em nossas cidades”, afirmou o presidente durante o comício da sexta-feira, que reuniu milhares de pessoas.

Trump tem realizado uma série de eventos públicos que atraem milhares de apoiadores, apesar das advertências de autoridades de saúde pública de evitar aglomerações para conter a onda de casos de Covid-19 que continua a subir no país.

Os dois discursos refletiram a postura negacionista sobre a gravidade da doença, que já contaminou 2,8 milhões de americanos e provocou a morte de 138 mil. Os EUA lideram o ranking em número de casos e óbitos pela Covid-19 no mundo.

Na Dakota do Sul, o tema foi praticamente ignorado. Além de não usar máscara, o republicano fez poucas referências aos sete estados americanos que registraram novos recordes de casos de coronavírus na sexta-feira (3).

Entre as pessoas mais próximas de Trump, um caso foi confirmado. Kimberly Guilfoyle, funcionária da campanha e namorada de Donald Trump Jr., filho do presidente, recebeu diagnóstico de Covid-19 horas antes da solenidade no Monte Rushmore.

O estado, que historicamente apoia o Partido Republicano, não foi atingido tão duramente quanto outros pela Covid-19, mas os casos no Condado de Pennington, onde está localizado o Monte Rushmore, mais do que dobraram no mês passado.

No evento na Casa Branca, o presidente dedicou mais tempo de seu discurso à pandemia do novo coronavírus, embora o assunto tenha sido abordado de forma lateral.

“A China deve ser responsabilizada” pelo vírus, disse Trump, que voltou à afirmar que uma vacina estará disponível antes do final do ano, sem apresentar evidências nesse sentido.

As declarações do presidente sobre o movimento antirracismo de sábado contrastaram com as do ex-vice-presidente Joe Biden, adversário no pleito de novembro.

Ele pediu aos americanos que “comprometam-se a finalmente cumprir” o princípio fundador dos Estados Unidos de que “todos os homens são criados iguais”.

“Agora temos a chance de arrancar de vez as raízes do racismo sistêmico deste país”, disse ele em referência aos protestos ocorridos em todo o país das últimas semanas.

Mais tarde no sábado, Biden escreveu em uma rede social que “uma das coisas mais patrióticas que você pode fazer é usar uma máscara” durante a pandemia de coronavírus.

O evento na Dakota do Sul acendeu um alerta em relação a questões ambientais. Devido ao risco de incêndio, o Monte Rushmore não recebia um espetáculo de fogos de artifício desde 2009. Trump, porém, defendeu a retomada de exibições do gênero.

O presidente teve respaldo das autoridades estaduais, para quem a Floresta Nacional de Black Hills "se fortaleceu" nesse período e a tecnologia de fogos de artifício está mais segura.

Ainda na sexta, manifestantes indígenas foram presos depois de bloquear uma estrada para o monumento, de acordo com um vídeo transmitido nas redes sociais.

Eles criticaram a visita de Trump por aumentar o risco de espalhar o coronavírus e por celebrar a independência dos EUA em uma área considerada sagrada para eles.

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