Violência marca estreia da nova lei de segurança chinesa em Hong Kong

Pelo menos 370 pessoas foram presas em conflitos que duraram todo o dia no território

São Paulo

Hong Kong virou palco de uma batalha campal entre ativistas pró-democracia e policiais no primeiro dia de vigência da nova lei de segurança nacional, imposta por Pequim ao território semiautônomo.

Como nos mais violentos dias dos protestos do ano passado, que tiraram a economia honconguesa do prumo e jogaram a região em caos político, houve barricadas com fogo, balas de borracha, spray de pimenta, canhões d'água, tijolos jogados, vandalismo de lojas e feridos leves de lado a lado.

Polícia de choque vai de encontro a manifestantes contrários à nova lei de Hong Kong
Polícia de choque vai de encontro a manifestantes contrários à nova lei de Hong Kong - Tyrone Siu/Reuters

Ao menos 370 pessoas foram presas, 10 delas enquadradas na rigorosa lei, que visa coibir atos considerados de secessão, subversão, terrorismo ou conluio com potências estrangeiras contra a ditadura comunista chinesa.

"É o fim do nosso país como o conhecemos, o fim do 'um país, dois sistemas'", disse por mensagem de aplicativo o deputado oposicionista Kwok Ka-ki, acerca do regime híbrido vigente em Hong Kong, onde há liberdade econômica total, e política, relativa.

Nesta quarta (1º), tradicionalmente ocorre uma passeata para relembrar o aniversário da devolução da então colônia britânica para a China, após 155 anos de domínio, em 1997. O tom sempre foi crítico a Pequim, e neste ano o governo local proibiu o evento.

Ainda assim, dezenas de milhares de pessoas se concentraram em ruas de Causeway Bay, o metro quadrado comercial mais caro do mundo mesmo com a desvalorização que a crise politica de 2019 trouxe.

Por volta das 13h (2h em Brasília) começaram os protestos. A polícia fez subir uma nova bandeira de advertência, roxa, avisando que cantos e faixas pró-independência seriam puníveis pela nova lei.

O estandarte anterior, azul e alertando sobre a ilegalidade do ato, continuou sendo usado.

Não deu certo e houve conflito, que se espalhou pelas ruas de um bairro vizinho, Wan Chai, todos na ilha de Hong Kong. Grupos fugiam da polícia e se reagrupavam. Mais a leste, após o parque Victoria, 87 jovens foram detidos de uma só vez na área de Tin Hau.

Entre essas primeiras prisões sob a lei de segurança, que em casos extremos prevê a prisão perpétua e o julgamento por Pequim, está uma garota de 15 anos. Ela carregava um cartaz com um dos slogans clássicos dos protestos: "Independência de Hong Kong, revolução do nosso tempo", em cantonês e inglês.

Ao menos um policial foi esfaqueado em Wan Chai, e lojas foram atacadas em toda a região. Outros seis agentes foram feridos e uma bomba caseira explodiu no bairro, sem deixar vítimas.

No fim da tarde, parte dos manifestantes invadiu o shopping da Times Square de Causeway Bay. Houve confusão e, às 19h30 (8h30 em Brasília) a tropa de choque invadiu o local e prendeu 20 pessoas.

O conflito coloca os ativistas em uma situação complicada. A lei é tão draconiana que, se a China a levar ao pé da letra, quase todo ativista que foi às ruas desde 2019 é passível de prisão.

Para outro deputado de oposição, Eddie Chu, o Partido Comunista Chinês deverá pegar alguns líderes dos protestos como exemplo, mas tentará manter intacta a estrutura partidária do país —22 dos 70 membros do Conselho Legislativo são contrários a Pequim.

Segundo esse raciocínio, a oposição irá se acomodar temendo uma repressão maior, institucional. O grande teste à frente é a eleição para o Conselho, em setembro. No pleito local de novembro passado, oposicionistas venceram em 17 de 18 regiões.

Ali, os protestos estavam em pleno curso. Disparados por uma lei de extradição, que agora está valendo na prática com as novas regras, os atos paralisaram Hong Kong. A economia encolheu 1,2%, e setores inteiros pararam, como o de turismo.

A pandemia levou a um arrefecimento dos atos de rua. Bastante limitada, a Covid-19 parou de inibir manifestantes quando Pequim anunciou que faria a nova lei, no fim de maio.

Policial esfaqueado durante confronto com manifestantes em Hong Kong
Policial esfaqueado durante confronto com manifestantes em Hong Kong - Polícia de Hong Kong/via Reuters

Atos esporádicos voltaram à cena, e havia a esperança entre ativistas de que a pressão externa pudesse abrandar os termos adotados na nova lei.

Ao contrário, eles vieram mais duros que o esperado. Agora, uma Agência de Segurança comandada pela China poderá operar em Hong Kong sem supervisão local, como ocorre com outras instâncias como a polícia.

Qualquer um, residente ou não, poderá ser vigiado, grampeado e processado se for suspeito de atividades vetadas pela nova lei. Atos como ataques ao metrô de Causeway Bay nesta quarta podem ser enquadrados como terrorismo.

Os EUA têm anunciado sanções e ameaças comerciais contra a transformação de Hong Kong em mais uma grande cidade chinesa, como acusam. Desde 1997, a região vive sob o sistema que o deputado Kwok diz estar morto: "um país, dois sistemas".

Pelo que foi definido em tratado com o Reino Unido, até 2047 será permitido um multipartidarismo local e grande grau de autonomia do Judiciário e Executivo. A imprensa é livre. Tudo inaudito no resto da China.

Há também um capitalismo desregulado, ideal para transações internacionais, o que faz de Hong Kong um instrumento importante para Pequim.

Apesar de regiões como Xangai e Shenzhen serem mais pujantes hoje, o grosso dos investimentos de estrangeiros na China e de chineses no exterior passa pelo sistema bancário honconguês.

Manifestantes com faixas pedindo a libertação de Hong Kong da China protestam nesta quarta (1º)
Manifestantes com faixas pedindo a libertação de Hong Kong da China protestam nesta quarta (1º) - Dale de la Rey/AFP

A dúvida que se coloca agora é a seguinte: Pequim parece disposta a esmagar a autonomia política do território, mas sabe que o risco é perdê-lo como posto avançado capitalista. Boa parte do que faz 290 empresas americanas terem quartéis-generais asiáticos ali é a liberdade de movimento, por exemplo.

Por ora, tudo indica que o regime liderado por Xi Jinping busca dar um caráter mais chinês à empreitada, promovendo um aumento de ofertas de ações de grandes empresas do continente na Bolsa Local, na qual já são responsáveis por 73% do capital negociado.

Se dependesse dos estrangeiros, a política ficaria à parte. O gigante HSBC (nascido como uma empreitada colonial, daí sua sigla inglesa para Corporação Bancária de Hong Kong e Xangai), por exemplo, tem apoiado o governo pró-Pequim da executiva-chefe honconguesa, Carrie Lam, e a nova lei.

Mas é a política que fala mais alto. Para Pequim, Hong Kong é uma questão interna. O governo considera que países rivais fomentam os manifestantes, como fizeram os americanos no ano passado e com novas sanções agora, meramente por interesse em desestabilizar a ditadura.

Um aliado vital dos EUA, o Reino Unido, também está na linha de frente contra Pequim, pelo passado colonial. Nesta quarta, o país confirmou o plano de abrir a possibilidade de imigração facilitada para 3 milhões dos 7,5 milhões de honcongueses.

Isso transforma o território em mais uma trincheira da Guerra Fria 2.0 promovida pelo governo de Donald Trump com a crescente ambição geopolítica da China. Pior para os ativistas, cujas demandas libertárias sempre cairão na definição de conluio com estrangeiros com a nova lei.

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