Violinista brasileira tenta conquistar seguidores para obter visto e ficar na Austrália

Anna Murakawa vive em Sydney e quer aumentar popularidade nas redes para conseguir documento para artistas

Viçosa (MG)

Uma violinista brasileira corre para angariar seguidores no Instagram e no Youtube —e o motivo vai além de se tornar uma influenciadora das redes sociais. Anna Murakawa, 30, precisa disso para obter um visto para artistas internacionais e conseguir se manter na Austrália, onde mora há quatro anos.

Anna é natural de Osasco, na Grande São Paulo, e aprendeu a tocar o instrumento no Projeto Guri, programa de educação musical gratuita para adolescentes. Aos 17 anos, foi aprovada para fazer bacharelado na National Music Academy, na Bulgária. Sem dinheiro para viajar, foi atrás de ajuda do projeto, que criou uma bolsa de estudos da qual ela foi a primeira beneficiária.

A brasileira Anna Murakawa, 30, que vive em Sydney há quatro anos e tenta se manter na Austrália com um visto para artistas internacionais
A violinista brasileira Anna Murakawa, 30, que vive em Sydney há quatro anos - Raquel Pires/Divulgação

A partir daí, a violinista construiu uma carreira internacional, com mestrado nos Estados Unidos, concertos na Europa e o doutorado na Austrália, onde dá aula no Conservatório de Sydney. Fala sete idiomas, de espanhol e inglês a búlgaro e russo.

Até agora, Anna estava no país com um visto de estudante. Depois que o doutorado terminou, orientada por advogados especializados, se inscreveu para um visto de “distinguished talent” (talento distinto), que faz três exigências ao artista: ser proeminente, ser internacionalmente reconhecido e levar valor para a Austrália.

“A advogada disse que meu portfólio era muito bom: tenho títulos, já toquei em vários países, com muitos artistas reconhecidos, até para o papa Bento 16”, conta ela, que tem no currículo apresentações com Eminem, Boy George, Michael Bublé e o grupo Hanson.

Mas a resposta que recebeu foi negativa. “Meu visto foi recusado, o que significa que tenho 20 dias para apelar na Corte e, se não for aprovada, tenho 28 dias para sair do país. Com toda esta calamidade, esse caos que está acontecendo no mundo”, disse, chorando e pedindo orações, em um vídeo gravado no dia em que recebeu a notícia, há duas semanas.

Na justificativa, o governo australiano reconhece que Anna é uma violonista de talento e de “conquistas elevadas”, mas afirma que não é possível mensurar se é mesmo uma artista internacional. Segundo sua advogada, se ela conseguisse mais seguidores nas redes sociais, suas chances aumentariam consideravelmente.

Começou, então, uma campanha para obter mais público em seus canais na internet. A comunidade de brasileiros na Austrália ajudou na mobilização, e artistas como os apresentadores Luciano Huck e Fabiana Karla fizeram vídeos apoiando-a. Dos 27.500 seguidores que tinha em seu perfil no Instagram quando pleiteou o visto, o número pulou para 482 mil até a publicação desta reportagem.

Sua meta é chegar a 500 mil, pois uma produtora australiana prometeu uma parceria dela com um artista local de renome caso ela chegue a esse total —o que também a ajudaria em seu pedido de visto.

De acordo com Teresa Liu, sócia responsável pelos escritórios da multinacional de direito migratório Fragomen na Austrália e na Nova Zelândia, o número de seguidores nas mídias sociais não é, por si só, uma medida para avaliar o pedido de quem pleiteia esse tipo de visto. Ela cita outras evidências avaliadas pelo governo, como prêmios recebidos, livros publicados, o público de suas apresentações e o reconhecimento dos pares.

Mas Maria Giordani, advogada especializada em migração que está atendendo o caso de Anna, afirma que o governo já reconheceu que o currículo da brasileira é sólido e que o que levou à recusa inicial de seu caso foi especificamente esse ponto.

"Não está na lei que a pessoa tenha que ter um certo número de seguidores, mas estamos falando de um processo subjetivo, no qual o oficial pode usar qualquer meio para levantar a repercussão do artista. A popularidade nas redes sociais se tornou um instrumento muito forte de avaliação", afirma. "O fato de ela estar tendo uma resposta fantástica à campanha vai ajudar, com certeza. A chance dela é enorme.”

Faltam três dias para que Anna apresente um novo portfólio pedindo que a Corte aceite uma apelação. Se for aprovada, ela terá direito a um visto temporário enquanto espera sua audiência. Se não, terá que deixar o país pouco depois.

“Acredito nesse milagre. Tenho recebido tantas mensagens lindas de encorajamento. Eu não vou desistir”, diz.

No último domingo (19), Anna postou um vídeo com uma música que compôs para traduzir o que sente com a repercussão de sua campanha. Chama-se “Obrigada”.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.