Descrição de chapéu The New York Times

Violinistas fazem vigílias em memória de músico negro morto pela polícia nos EUA

Elijah McClain, 23, morreu em agosto de 2019 após abordagem policial no Colorado

Giulia Heyward
The New York Times

Ashanti Floyd não conseguia dormir. Como homem negro, Floyd estava acostumado a ficar agoniado com casos como o de Elijah McClain, rapaz de 23 anos que morreu após uma abordagem da polícia de Aurora, no Colorado, em agosto do ano passado.

Mas em junho, enquanto ele lia sobre o caso —um dos muitos encontros mortais entre pessoas negras e a polícia que estão recebendo mais atenção do público nos últimos meses—, um detalhe marcou Floyd: McClain era um violinista, como ele.

"Só me lembro de rezar por paz", disse Floyd em uma ligação recente pelo Zoom. "Senti que aquele menino podia ser eu."

Ele revirou na cama a noite toda até que descobriu isso. E na manhã seguinte, quando soube pelas redes sociais que seria realizada uma vigília em Aurora, onde violinistas e outros músicos de cordas pretendiam se apresentar em um parque em memória de McClain, Floyd decidiu que precisava ir.

Violinista toca durante cerimônia em memória de Elijah McClain - Kevin Mohatt - 27.jun.20/Reuters

Comprou uma passagem de avião e embalou seu violino. Quando pousou no Colorado, foi apanhado por um amigo, também violinista, Lee England Jr., que tinha acabado de chegar de Nova York. Depois que eles falaram com as pessoas que organizavam o evento, começaram a criar música em partitura.

"Trabalhamos em parceria com os organizadores", disse England na mesma ligação pelo Zoom. "Mas quando chegou à música nós basicamente assumimos o controle."

Quando a dupla chegou à vigília, em 27 de junho, apresentou-se com dezenas de outros músicos, tocando canções como "Amazing Grace" e "Hallelujah".

Os espectadores gravaram vídeos da apresentação, da qual participaram membros da família de McClain, e também captaram imagens da polícia de Aurora atuando com equipamento antimotins e bombas de gás lacrimogêneo depois que autoridades declararam o encontro ilegal.

Os manifestantes se deram os braços e formaram um círculo em torno dos músicos.

"Nós podíamos escutá-los enquanto tocávamos", disse England. "Mas eu sabia que ia continuar tocando."
O incidente viralizou.

Floyd e England não esperavam vigílias semelhantes em outros lugares —mas agora havia uma marcada para Nova York, dali a dois dias. Depois houve uma em Boston no dia seguinte e outra em Portland, no Oregon —uma dúzia em duas semanas.

Em cidades como Nova Orleans, Chicago e Bowling Green, em Ohio, músicos e organizadores da comunidade realizaram vigílias de violinos —quase 20, e continuam aumentando— em homenagem a McClain, atraindo centenas, às vezes milhares, de participantes.

"Lembro que fiz um cartaz da vigília no meu telefone", disse Karla Mi Lugo, artista de performance que ajudou a organizar o primeiro evento em Aurora. "Pelo menos dez pessoas em cidades diferentes me procuraram para organizar seus próprios eventos."

A atenção renovada às circunstâncias da morte de McClain teve consequências. O governador do Colorado, Jared Polis, nomeou um promotor especial para investigar o caso.

E três policiais de Aurora foram demitidos por causa de fotos tiradas perto de um memorial em homenagem a McClain que mostra dois deles rindo e zombando da morte do rapaz.

Conforme as vigílias com violinos proliferam, hordas de artistas clássicos estão preparados: as salas de concerto estão fechadas há meses por causa da disseminação do coronavírus, deixando os músicos sem trabalho em todo o país.

Organizadores em Boston, em Columbus, no estado de Ohio, e em Portland relataram um padrão semelhante: eventos planejados em poucos dias estão causando ondas de reação e atraindo um público impressionante.

"Não tínhamos ideia de que isso aconteceria", disse Floyd. "Não pensamos que criaríamos essas ondas. Mas acho que é o que acontece quando você é um músico e está cheio de tempo livre."

Enquanto muitos músicos estão felizes por ter uma oportunidade de se apresentarem depois de meses sem concertos, eles comentaram que a ocasião é triste.

"Estou realmente em conflito", disse Zack Brock, violinista da banda Snarky Puppy, sobre sua experiência ajudando a organizar a vigília em Maplewood, em Nova Jersey.

"Senti-me péssimo porque a primeira vez que pude me apresentar desde a pandemia foi por um homem negro morto pela polícia. Eu sentia falta de tocar para o público, já faz muito tempo, mas na verdade fui lá porque queria ajudar."

Esse sentimento é compartilhado por Floyd e England, que no início ficaram preocupados que as pessoas pudessem confundir as vigílias com autopromoção ou algum tipo de comemoração.

"É tudo em nome de Elijah McClain", disse England. "E realmente espero que as pessoas vejam que existe mais de uma maneira de protestar, não queremos que isto seja uma espécie de publicidade."

England lembrou uma conversa com o departamento de comunicação do prefeito de Aurora, que o contatou alguns dias depois da vigília na cidade.

O gabinete do prefeito, disse ele, sabia que tinha "causado confusão" devido à interferência da polícia no protesto e queria "compensá-los", Floyd e England, de alguma forma.

"Eu lhes disse que eles deviam fazer o que deve ser feito para a família McClain", disse England. "Isto não é por nenhum de nós. Estávamos lá pela família."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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