Descrição de chapéu China Governo Trump

China protesta contra avião espião dos EUA e dispara míssil 'matador de porta-aviões'

Americanos espionaram exercício militar chinês; Pequim faz advertência no mar do Sul da China

São Paulo

A China acusou os Estados Unidos de violarem regras internacionais ao enviar aviões espiões para uma área em que a Marinha do país asiático fazia exercícios de tiro real.

Como advertência simbólica, Pequim disparou dois mísseis na manhã desta quarta (26), um deles descrito por analistas militares como "matador de porta-aviões".

"[Os voos] interferiram seriamente em atividades normais e violaram o código de conduta segura no ar e no mar entre a China e os EUA, assim como normas internacionais. Um acidente poderia ter acontecido", disse o porta-voz do Ministério da Defesa, Wu Quian.

Um U-2 se aproxima da base aérea americana em Osan, ao sul de Seul, a capital sul-coreana
Um U-2 se aproxima da base aérea americana em Osan, ao sul de Seul, a capital sul-coreana - Lee Jae-Won - 4.abr.13/Reuters

Segundo ele, citado pela mídia chinesa, "o movimento foi uma provocação óbvia, e foi feito um protesto". Em comunicado, o Comando Indo-Pacífico das Forças Armadas dos EUA negou ter incorrido em quaisquer irregularidades operacionais.

Os mísseis disparados do continente eram balísticos. Um deles, o DF-26B, tem capacidade nuclear e alcance de 4.000 km. O outro, o DF-21D, é feito para atingir principalmente alvos navais a até 1.800 km de distância, como grupos de porta-aviões.

Neste ano, os EUA exercitaram pela primeira vez desde 2012 2 de seus 11 porta-aviões no mar do Sul da China, região disputada onde os mísseis chineses foram disparados.

Os exercícios de tiro chineses que geraram o episódo acontecem em outra região particularmente sensível, o golfo de Bohai. Essa porção do mar Amarelo é a que dá acesso mais próximo à capital Pequim.

Segundo Wu, vários aviões americanos estiveram perto da área, mas um voo chamou mais a atenção: foi quando uma aeronave espiã U-2 sobrevoou a zona de exclusão aérea sobre os exercícios.

O U-2 é um avião de reconhecimento. Usado desde 1956, ele voa desarmado por causa de sua excepcional altitude operacional: 21,3 km, o dobro do atingido por jatos comerciais.

Na Guerra Fria, U-2s estiveram no centro de dois incidentes históricos: quando uma aeronave do modelo foi derrubada sobre a União Soviética em 1960 e, dois anos depois, quando outra descobriu a instalação de mísseis soviéticos em Cuba, disparando a crise que quase levou o mundo à guerra nuclear —e na qual um U-2 foi abatido sobre a ilha.

O U-2, por notáveis que sejam suas características, não é o que os EUA têm de mais avançado na área. Seu trabalho pode ser feito por satélites em boa parte dos casos. Assim, o emprego do avião sugere um recado político a Pequim, por ser mais facilmente rastreável.

A queixa de Pequim é o mais recente atrito no flanco militar da disputa que se desenrola entre a China e os EUA, a Guerra Fria 2.0 preconizada por Donald Trump desde 2017.

Ela abarca embate em tarifas, questões tecnológicas, diplomáticas e políticas, como a autonomia de Hong Kong, mas é no campo bélico que os riscos são mais imprevisíveis.

Nos últimos meses, os dois países têm aumentado sua atividade em regiões tensas como o mar do Sul da China, que Pequim diz ser quase todo seu, e no estreito de Taiwan.

Lá, a ilha vista como uma província rebelde pelos chineses tem recebido ameaças e visto exercícios navais da ditadura como prenúncio de uma invasão.

Mas o risco mais usual de encontros acidentais vinha sendo no mar do Sul da China.

Segundo publicou a Iniciativa de Investigação de Situação Estratégica do Mar do Sul da China, um centro de estudos da Universidade de Pequim, nesta quarta um avião espião RC-135S voou sobre aquela região, onde a Marinha chinesa também está fazendo exercícios.

Também nesta quarta, o governo dos EUA anunciou que irá aplicar sanções a 24 subsidiárias de um gigante estatal de construção chinês, o China Communications Construction.

Elas trabalharam na criação de bases militares e ilhotas artificiais em atóis disputados naquela região como forma de dar legitimidade às pretensões territoriais chinesas sobre o mar do Sul da China desde 2014.

Por lá, os EUA têm aumentado exercícios e operações de liberdade de navegação, quando usam faixas que consideram internacionais para trânsito de navios militares. Além disso, têm sido frequentes os voos de aeronaves de reconhecimento americanas perto da costa chinesa.

O caso do U-2 é diferente porque não há registro recente do uso da aeronave, que fica baseada em Osan (Coreia do Sul), contra objetivos chineses.

Até o dia 31, os EUA promovem o seu maior exercício naval, o bienal Rimpac. Ele une forças de diversos países nas águas do Pacífico, mas próximo do centro de comando dos EUA para a região, no Havaí.

Ao mesmo tempo, Washington posicionou bombardeiros com capacidade nuclear no Índico, em Diego Garcia. A China, além dos exercícios múltiplos (no Tibete, ante a crise militar com a Índia, e em diversas águas a seu redor), tem aumentado os treinos para reação a um eventual ataque nuclear.

Para a maioria dos observadores, uma guerra hoje é altamente improvável e indesejável, mas acidentes, como disse o porta-voz Wu, podem acontecer.

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