Como a Itália conseguiu reverter a calamidade do coronavírus

Depois de um começo vacilante, país colheu recompensas de um rígido isolamento nacional

Jason Horowitz
Roma | The New York Times

Quando o coronavírus irrompeu no Ocidente, a Itália foi o epicentro do pesadelo, um lugar para se evitar a qualquer custo e um símbolo de contaminação descontrolada para os EUA e grande parte da Europa.

"Vejam o que está acontecendo na Itália", disse o presidente americano, Donald Trump, a repórteres em 17 de março. "Não queremos ficar em uma posição parecida."

Joe Biden, o candidato democrata, usou os hospitais lotados da Itália como evidência de sua oposição ao Medicare para Todos, em um debate presidencial. "Não está funcionando na Itália neste momento."

Pedestres passam pela Piazza di Spagna, em Roma, após relaxamento das medidas de combate ao novo coronavírus
Pedestres passam pela Piazza di Spagna, em Roma, após relaxamento das medidas de combate ao novo coronavírus - Remo Casilli - 21.jul.20/Reuters

Alguns meses depois, os EUA sofriam dezenas de milhares mais mortes que qualquer outro país. Países europeus que antes olhavam com esnobismo para a Itália estão enfrentando novos surtos.

Alguns estão impondo novas restrições e avaliando se devem reimpor medidas de isolamento e fechamento de fronteiras novamente.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou na sexta-feira (31) um adiamento no plano de flexibilização das medidas diante da alta do número de infecções.

Até a Alemanha, elogiada por sua reação eficiente e pelo rigoroso rastreamento de contágios, advertiu que o comportamento descuidado está provocando um aumento dos casos.

E a Itália? Seus hospitais estão praticamente sem pacientes de Covid-19. As mortes diárias atribuídas ao vírus na Lombardia, a região no norte que suportou o maior peso da pandemia, flutuam em torno de zero.

O número de novos casos diários caiu para "um dos mais baixos da Europa e do mundo", segundo Giovanni Rezza, diretor do departamento de doenças infecciosas do Instituto Nacional de Saúde.

"Fomos muito prudentes."

E tiveram sorte. Hoje, apesar de um pequeno aumento dos casos nesta semana, os italianos estão cautelosamente otimistas de que controlaram o vírus —mesmo enquanto seus maiores especialistas em saúde advertem que a complacência continua sendo o principal combustível da pandemia.

Eles estão cientes de que o cenário pode mudar a qualquer momento.

A forma com que a Itália passou de um pária a modelo global embora imperfeito de contenção da pandemia serve como lição para o resto do mundo, incluindo os EUA, onde o vírus nunca foi controlado e hoje assola o país.

Depois de um começo vacilante, a Itália consolidou, ou pelo menos manteve, as recompensas de um rígido isolamento nacional, usando uma mistura de vigilância com experiência médica duramente conquistada.

Seu governo foi orientado por comissões técnicas e científicas. Médicos locais, hospitais e autoridades de saúde coletam mais de 20 indicadores do vírus diariamente e os enviam para autoridades regionais, que então os encaminham ao Instituto Nacional de Saúde.

O resultado é um raio-x semanal da saúde do país sobre o qual são tomadas as decisões políticas. É um longo caminho do estado de pânico e quase colapso que atingiu a Itália em março.

Nesta semana, o Parlamento aprovou a prorrogação dos poderes de emergência do governo até 15 de outubro, depois que o primeiro-ministro Giuseppe Conte afirmou que a Itália não pode baixar a guarda porque "o vírus continua circulando".

Esses poderes permitem que o governo mantenha as restrições implantadas e reaja rapidamente —inclusive determinando "lockdowns"— a qualquer novo foco de contágios.

As autoridades já impuseram restrições à entrada de viajantes de mais de uma dúzia de países, pois a importação do vírus é hoje o maior temor da Itália.

"Há muitas situações na França, na Espanha e nos Bálcãs que mostram que o vírus não acabou, de forma algum", diz Ranieri Guerra, médico e diretor-assistente para iniciativas estratégicas da Organização Mundial de Saúde (OMS). "Ele pode voltar a qualquer momento."

Não há dúvida de que as privações do "lockdown" foram economicamente dispendiosas. Durante três meses, empresas e restaurantes ficaram fechados obrigatoriamente, o movimento foi altamente restrito —até entre regiões, cidades e ruas— e o turismo parou.

A Itália deve perder cerca de 10% de seu PIB neste ano.

Mas, em certo ponto, enquanto o vírus ameaçava se espalhar descontroladamente, as autoridades italianas decidiram pôr as vidas à frente da economia. "A saúde da população italiana vem e sempre virá em primeiro lugar", disse Conte na época.

Agora as autoridades italianas esperam que o pior do combate à pandemia —o doloroso "lockdown"— tenha ocorrido em dose única, e que o país esteja seguro para retomar a vida normal, embora com limites.

Elas afirmam que a única maneira de impulsionar a economia é continuar contendo o vírus, mesmo neste momento.

A estratégia de fechar completamente atraiu críticas de que a cautela excessiva do governo estava paralisando a economia. Mas ela pode ser mais vantajosa do que tentar retomar as atividades enquanto o vírus ainda ataca, como está acontecendo em países como os EUA, o Brasil e o México.

Isso não quer dizer que os pedidos de vigilância constante, como em outros lugares do mundo, tenham escapado de zombaria, resistência e desespero. Nisso a Itália não é diferente.

Máscaras frequentemente não são usadas ou o são de forma incorreta nos trens ou nos ônibus, onde são obrigatórias. Os jovens estão saindo e fazendo as coisas que jovens fazem —e assim arriscando a espalhar o vírus para parcelas mais suscetíveis da população.

Os adultos começaram a se reunir nas praias e para churrascos de aniversário. Ainda não há um plano claro para o retorno às escolas em setembro.

Também há um movimento antimáscaras com motivação política que cresce a cada dia, liderado pelo nacionalista Matteo Salvini, que em 27 de julho declarou que substituir os apertos de mão e abraços por toques de cotovelo é "o fim da espécie humana".

Mas os principais especialistas em saúde disseram que a falta de casos graves é indicativa de uma redução no volume de infecções, pois só uma pequena porcentagem dos infectados fica muito doente.

E até agora os descontentes da Itália não foram numerosos ou poderosos o suficiente para minar a trajetória de sucesso duramente conquistada contra o vírus, depois de um início calamitoso.

O isolamento inicial da Itália pelos vizinhos europeus no primeiro momento da crise, quando máscaras e respiradores quase não chegavam pelas fronteiras, pode na verdade ter ajudado, disse Guerra, o especialista da OMS.

"Houve concorrência no início, quase não houve colaboração", afirmou Guerra. "E todos reconheceram que a Itália foi abandonada na época." Em consequência, disse ele, "os italianos tiveram de fazer porque, afinal, fomos abandonados, acabou sendo mais eficaz".

A Itália primeiro pôs cidades em quarentena, depois a região da Lombardia no norte, e então toda a península e suas ilhas, apesar da quase ausência de vírus em grande parte do centro e do sul do país.

Isso não apenas evitou que trabalhadores do norte industrial voltassem para casa no sul muito mais vulnerável, como também promoveu e forçou uma reação nacional unificada.

Durante o "lockdown", a movimentação foi rigidamente limitada entre regiões e cidades e até entre quarteirões, e as pessoas tinham de preencher formulários oficiais para provar que precisavam sair da cidade por motivos de trabalho, saúde ou "outras necessidades".

Máscaras e regulamentos de distanciamento social foram impostos pelas autoridades regionais com multas elevadas. De modo geral, embora a contragosto, as regras foram seguidas.

Enquanto as cenas terríveis de sofrimento humano, ruas vazias e o alto preço pago pela geração idosa de italianos do norte se espalhavam, o índice de transmissão do vírus rapidamente diminuiu e a curva se achatou, ao contrário de outros países, como a Suécia, que adotou uma alternativa ao isolamento.

O fato de o surto inicial se localizar nos hospitais superlotados criou uma enorme tensão, mas também permitiu que médicos e enfermeiros acelerassem o rastreamento de contatos.

Então o país reabriu, gradualmente, expandindo as liberdades a intervalos de duas semanas para reagir ao período de incubação do vírus.

O "lockdown" acabou tendo o efeito secundário de diminuir o volume de vírus circulando na sociedade, e assim reduzir a probabilidade de entrar em contato com alguém que o tivesse.

No final do "lockdown", a circulação do vírus havia caído acentuadamente, e em algumas regiões do centro e do sul quase não havia cadeias de transmissão.

"É sempre uma questão de probabilidade com esses patógenos", disse Guerra, acrescentando que novos sistemas de alarme precoce, como o monitoramento de esgotos em busca de vestígios do vírus, reduzem ainda mais a possibilidade de infecção.

"Mesmo que a situação esteja melhor que em outros países, devemos continuar muito prudentes", afirmou Rezza, do Instituto Nacional de Saúde.

Ele também disse acreditar que é melhor perguntar se a Itália se saiu bem no combate ao coronavírus "no final da epidemia". "Não podemos excluir que teremos outros surtos nos próximos dias", disse ele.

"Talvez seja apenas uma questão de tempo."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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