Descrição de chapéu The Wall Street Journal Coronavírus

Coronavírus ressurge na Coreia do Sul, com novo surto centrado em igreja

Sem provas, líder religioso diz que casos são fruto de complô criado pela Coreia do Norte

Dasl Yoon Timothy W. Martin
Seul | The Wall Street Journal

A Coreia do Sul, elogiada pelo modo como conteve a Covid-19, enfrenta um surto de déjà vu de coronavírus: por um lado, um número crescente de casos ligados a uma igreja grande, do outro, o governo com dificuldades para responder à crise.

As autoridades sanitárias avisam que o país está oscilando à beira de um surto nacional e nos próximos dias pode ter que encarar a volta das medidas mais rígidas de distanciamento social.

Na sexta (21) foram notificados 324 casos novos, o maior aumento verificado em um só dia desde 8 de março. As contaminações diárias atingem números de três algarismos há mais de uma semana.

Funcionário desinfeta a igreja Yoido Full, em Seul, maior templo cristão do país - Kim Hong-ji - 21.ago.20/Reuters

“É a maior crise desde que o coronavírus chegou ao nosso país”, disse o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, numa reunião na Câmara dos Vereadores de Seul na sexta-feira (21).

Mais tarde nesse dia, a Casa Azul anunciou que vai reinstaurar um sistema de resposta emergencial à Covid que havia sido desativado em abril.

Um dos primeiros países a ser atingidos pelo vírus fora da China, a Coreia do Sul enfrentou um surto em fevereiro numa igreja misteriosa que se negou a divulgar a lista completa de seus fiéis.

Alguns dos frequentadores se esconderam das autoridades, já que sua filiação à Igreja Shincheonji de Jesus, descrita por legisladores como uma “seita coreana”, era um segredo tão protegido que muitos nem sequer haviam revelado às suas famílias que faziam parte dela.

Mesmo assim, a Coreia do Sul conseguiu achatar a curva ascendente de novas contaminações e aparentemente conteve a propagação do vírus em questão de semanas, sendo globalmente elogiada por sua resposta rápida. Agora um caso semelhante coloca em risco o recorde de uma das histórias mundiais de sucesso em relação à Covid.

Ao centro do novo surto está a Igreja Sarang Jeil, grupo cristão de ultradireita. Seu líder e pastor, Jun Kwang-hoon, descreve-se como cruzado da direita e diz a seus seguidores que a administração Moon está tentando destruir o país. Com isso, afirma ele, a Coreia do Norte poderá dominar a Coreia do Sul mais facilmente e convertê-la em um Estado comunista.

Jun, 64, diz que o vírus oferece pouco perigo. No momento em que os casos na Coreia estavam subindo rapidamente, em fevereiro, disse a seus seguidores: “Deus vai nos tratar e nos salvar da doença mortal”.

Nesta semana, Jun recebeu diagnóstico de Covid-19. Ele sugeriu que qualquer surto de Covid entre os seguidores da igreja é fruto de um complô secreto da Coreia do Norte. No fim de semana passado, organizou uma manifestação de protesto contra o governo no centro de Seul que atraiu 20 mil pessoas.

A Sarang Jeil, cujo nome significa “amor em primeiro lugar”, ainda não divulgou uma lista completa de seus membros; segundo as autoridades sanitárias, ainda faltam centenas de nomes.

Quando investigadores chegaram à sua sede em Seul, na quinta (20), funcionários da igreja trancaram as portas. A polícia voltou na noite de sexta-feira com uma ordem de apreensão.

Mais de 730 casos de Covid já foram vinculados à Sarang Jeil, fazendo dela o maior núcleo de contaminação fora da igreja Shincheonji.

Líderes da Sarang Jeil disseram que a igreja suspendeu seus cultos por 15 dias, enviou mensagens de texto incentivando seus fiéis a procurar clínicas de saúde e entregou às autoridades os documentos solicitados. A igreja não respondeu a pedidos de declarações.

O número atual de novos casos, que chegaram a cerca de 1.900 nos últimos oito dias, seria visto como uma realização positiva em outros países. Mas é mais do que a Coreia do Sul contabilizou só em julho.

Diferentemente do surto originado pela Shincheonji, que ocorreu em Daegu, cidade do sudeste do país, os clusters atuais se concentram em grande parte na zona metropolitana de Seul, onde vivem metade dos 52 milhões de habitantes do país.

As medidas de distanciamento social foram intensificadas. Foram proibidos quaisquer encontros com mais de cem pessoas. Igrejas e outros locais de alto risco, como bares de karaokê, boates e cafés, receberam ordens de fechar as portas.

Para encorajar fiéis relutantes da Sarang Jeil a ser examinados, as autoridades sanitárias estão oferecendo testes anônimos, para preservar a identidade das pessoas. Elas abriram instalações adicionais, para aumentar o número de leitos hospitalares disponíveis na região de Seul.

Na sexta-feira, a diretora do Centro de Controle e Prevenção de Doenças sul-coreano, Jung Eun-kyeong, disse que em breve as autoridades podem instaurar medidas mais rígidas de distanciamento social, que limitarão qualquer encontro a no máximo dez pessoas.

“A situação atual é muito mais grave do que o surto em Daegu”, comentou.

Mais recentemente, o vírus se alastrou para 15 cidades e províncias sul-coreanas, impelido tanto pelo surto da igreja Sarang Jeil quanto por outros clusters separados.

As viagens dentro do país haviam aumentado no fim de semana, depois de a administração Moon ter declarado a segunda-feira um feriado especial, com a intenção justamente de proporcionar à população um momento de alívio do estresse provocado pelo coronavírus.

“Já havia infecções se propagando, e os casos da Igreja Sarang Jiel foram como combustível jogado em cima de fogo”, comentou Kim Dong-hyun, diretor da Sociedade Coreana de Epidemiologia e professor na Faculdade de Medicina da Universidade Hallym.

“O governo precisou se apressar para intensificar as medidas de distanciamento social.”

Em entrevistas coletivas e vídeos no YouTube, membros da Sarang Jeil vêm tachando a investigação do surto como uma caça às bruxas, alegando que o governo está falsificando resultados de testes ou hospitalizando pessoas cujos testes tiveram resultado negativo.

Outros grupos cristãos de ultradireita reunidos num evento na quinta para protestar contra a suspensão de assembleias da igreja ergueram cartazes dizendo: “Moon Jae-in ameaça cidadãos. Renuncie!”.

Jun Kwang-hoon, o líder da Sarang Jeil, está sob supervisão médica depois de contrair o vírus. Na sexta-feira, em comunicado lido por seu advogado, ele acusou o governo de atacar a Sarang Jeil politicamente e descreveu a administração Moon como “regime”, dizendo que age de modo mais assustador do que se uma guerra tivesse imposto a suspensão das leis normais.

“Usando o vírus de Wuhan como pretexto, o governo está internando em hospitais os cidadãos que se opõem ao regime”, disse Jun no comunicado escrito, referindo-se ao coronavírus.

Tradução de Clara Allain

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.