EUA recuam sobre acordo nuclear com Rússia, mas fazem nova exigência

Washington abranda posição sobre presença chinesa e quer incluir mais mísseis em tratado

São Paulo

Em nova rodada de negociações com a Rússia, os Estados Unidos recuaram da exigência de que a China fizesse parte do acordo de limitação de armas nucleares estratégicas. A condição era colocada pelos americanos para renovar o pacto antes de sua expiração, em 2021.

Em compensação, Washington quer incluir no novo texto ogivas disparadas por mísseis de alcance menor e aumentar a rigidez das inspeções mútuas de arsenais, algo que parece de difícil digestão aos russos.

A mudança de tom foi antecedida por reportagens na imprensa americana que relatam a vontade do presidente Donald Trump de se encontrar com o colega russo, Vladimir Putin, ainda neste ano.

Míssil intercontinental russo Iars, que leva ogivas nucleares, em parada na praça Vermelha
Míssil intercontinental russo Iars, que leva ogivas nucleares, em parada na praça Vermelha - Ilia Pitalev - 24.jun.20/via Reuters

Para completar o cenário, nesta terça (18), os chefes de Defesa de cada país, Mark Esper e Serguei Choigu, conversaram por telefone em plena crise da Belarus para melhorar as comunicações e evitar escaladas acidentais em encontros das forças militares dos dois lados em lugares como os mares Báltico e Negro.

As movimentações sinalizam um desejo de Trump de tentar mostrar algum trunfo diplomático e melhorar sua posição na corrida eleitoral contra Joe Biden. Parece improvável que o lado russo entre no jogo, salvo alguma ordem direta de Putin.

Nos últimos três anos, os EUA deixaram dois acordos importantes que visavam evitar uma guerra nuclear. Um, de 1987, proibia os dois lados de terem mísseis de alcance entre 500 km e 5.500 km na Europa. Outro, de 1992, garantia sobrevoos de reconhecimento mútuos de áreas estratégicas do adversário.

Por vários meses, os americanos insistiram que a renovação do Novo Start (sigla para Tratado de Redução de Armas Estratégicas, em inglês), de 2010, teria de incluir os chineses.

Bombardeiro furtivo B-2, avião americano que emprega ogivas nucleares
Bombardeiro furtivo B-2, avião americano que emprega ogivas nucleares - Jose Luis Magana - 4.jul.20/AFP

Moscou e Pequim rejeitam a ideia, dado que o arsenal chinês é de 320 ogivas nucleares, enquanto o Novo Start prevê uma limitação a 1.550 bombas operacionais a russos e americanos —os primeiros estão no limite, os segundos, um pouco acima dele.

Herdeiros da Guerra Fria, quando a Rússia ainda era o principal ente da União Soviética, os arsenais atômicos do mundo são dominados pelas antigas superpotências: mais de 90% das bombas pertencem aos dois países.

Mas a ideia de limitar o crescimento eventual chinês é parte da obsessão estratégica de Trump com o rival asiático, aliado de Putin. Assim, quando EUA e Rússia se sentaram à mesa mais recentemente, em junho, o clima foi de fim de festa. Os americanos até fizeram uma pantomima, levando bandeirinhas chinesas para colocar à frente de cadeiras vazias.

Nesta terça, novamente em Viena, o enviado americano Marshall Billingslea afirmou que um novo acordo poderia "incluir a China no devido tempo", mas fez a ressalva acerca dos mísseis de alcance intermediário antes proibidos pelo antigo tratado de 1987.

"A bola está com a Rússia", afirmou o americano. "A Rússia quer a extensão do Novo Start, mas não está preparada para pagar qualquer preço por isso", respondeu o chefe da delegação russa, o chanceler adjunto Serguei Riabkov, segundo a embaixada de Moscou em Viena.

O desarmamento de potências nucleares estabelecidas é um tema espinhoso nas relações internacionais. Nos últimos anos, Trump mudou a sua doutrina de uso de armas para facilitar o emprego de ogivas menores —as quais produziu e instalou em mísseis de submarinos.

Já Putin lançou, em 2018, uma série de novas armas estratégicas baseadas em novos vetores, como mísseis hipersônicos e até um "torpedo do Juízo Final", capaz de aniquilar cidades costeiras. Setenta e cinco anos depois do começo da Era Atômica, há poucos sinais de que ela se aterá a fins pacíficos.

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