Descrição de chapéu The New York Times

Facebook se prepara para caso Trump questione resultado da eleição

Plataforma estuda que medidas adotar se presidente usar rede social para contestar votação

Mike Isaac e Sheera Frenkel
São Francisco (Califórnia) | The New York Times

O Facebook passou anos se preparando para impedir qualquer tipo de manipulação em seu site antes da eleição presidencial de novembro próximo. Agora, a rede social se prepara para o caso de o presidente Donald Trump tentar interferir quando a votação terminar.

Funcionários da empresa do Vale do Silício estão elaborando planos de contingência e analisando cenários pós-eleitorais que incluem tentativas de Trump ou de sua campanha usarem a plataforma para deslegitimar os resultados, segundo pessoas com conhecimento dos planos do Facebook.

O presidente americano, Donald Trump, prepara-se para falar em evento em Arlington, na Virgínia
O presidente americano, Donald Trump, prepara-se para falar em evento em Arlington, na Virgínia - Tom Brenner - 21.ago.20/Reuters

A rede social prepara medidas a serem tomadas caso Trump afirme erroneamente no site que ganhou mais um mandato de quatro anos, disseram essas pessoas, sob a condição do anonimato.

O Facebook também avalia como poderá agir se Trump tentar invalidar os resultados, declarando que o serviço postal perdeu cédulas enviadas ou que outros grupos interferiram na votação, disseram as fontes.

Mark Zuckerberg, executivo-chefe do Facebook, e alguns de seus assessores começaram a realizar reuniões diárias para detalhar como a plataforma poderia ser usada para contestar a eleição.

Eles discutiram uma "chave de controle" para desligar a publicidade política depois do dia do pleito, já que os anúncios, cuja veracidade o Facebook não fiscaliza, podem ser usados para espalhar desinformação.

Os preparativos salientam como as crescentes preocupações sobre a integridade eleitoral em novembro atingiram as redes sociais, cujos sites podem ser usados para divulgar mentiras, teorias da conspiração e mensagens inflamatórias.

O YouTube e o Twitter também discutiram planos de ação caso o período pós-eleitoral se complique, segundo pesquisadores políticos e de desinformação que os assessoram.

As companhias de tecnologia passaram os últimos anos trabalhando para evitar uma repetição da eleição de 2016, quando agentes russos usaram o Facebook, o Twitter e o YouTube para inflamar o eleitorado americano com mensagens divisivas.

Embora as empresas tenham contido a interferência estrangeira, elas estão enfrentando uma onda de interferências internas, como a do grupo conspiratório de direita QAnon e a do próprio presidente.

Nas últimas semanas, Trump, que usa as redes sociais como megafone, intensificou seus comentários sobre a eleição. Ele questionou a legitimidade do voto pelo correio, sugeriu que as cédulas assim remetidas não seriam contadas e evitou responder se admitiria uma derrota.

Alex Stamos, diretor do Observatório da Internet da Universidade de Stanford e ex-executivo do Facebook, disse que essa plataforma, o Twitter e o YouTube enfrentam uma situação singular, em que "têm de tratar potencialmente o presidente como um elemento negativo" que pode minar o processo democrático.

"Não temos experiência disso nos Estados Unidos", acrescentou Stamos.

O Facebook pode estar em uma posição especialmente difícil porque Zuckerberg disse que a rede social defende a liberdade de expressão.

Ao contrário do Twitter, que marcou as mensagens de Trump por serem factualmente imprecisas e glorificarem a violência, o Facebook disse que as postagens de políticos são conteúdos que geram notícias e que o público tem o direito de vê-las.

Qualquer medida em relação às postagens de Trump ou de sua campanha após a votação poderá expor o Facebook a acusações de censura e viés anticonservador.

Em entrevista ao New York Times neste mês, Zuckerberg disse que as pessoas devem estar "preparadas para o fato de que há grande probabilidade de levar dias ou semanas para a contagem —e não há nada de errado ou ilegítimo nisso".

Um porta-voz do Facebook não quis comentar a estratégia pós-eleitoral da empresa. "Continuamos planejando baseados em uma série de cenários para ter certeza de que estaremos preparados para as eleições", disse ele.

Judd Deere, porta-voz da Casa Branca, disse: "O presidente Trump continuará trabalhando para garantir a segurança e a integridade de nossas eleições".

O Google, dono do YouTube, confirmou que está realizando discussões sobre a estratégia pós-eleitoral, mas não deu detalhes. Jessica Herrera-Flanigan, vice-presidente de políticas públicas do Twitter, afirmou que a empresa está aperfeiçoando suas políticas para "melhor identificar, compreender e atenuar as ameaças ao diálogo público, antes ou depois de uma eleição".

O Facebook inicialmente se concentrou na corrida pré-eleição —o período em que, em 2016, ocorreu a maior parte da intromissão russa em seu site.

A empresa elaborou quase 80 cenários, muitos dos quais analisam o que pode dar errado na plataforma antes que os americanos votem, disseram as pessoas inteiradas das discussões.

O Facebook examinou o que faria, por exemplo, se hackers apoiados por um Estado vazassem documentos online, ou se um Estado desencadeasse uma ampla campanha de desinformação no último minuto para dissuadir os americanos de irem às urnas, disse um funcionário.

Para reforçar a iniciativa, o Facebook convidou membros do governo, grupos de reflexão e acadêmicos a participar e conduzir exercícios em torno das hipotéticas situações eleitorais.

As discussões continuam fluídas e não está claro se o Facebook dará continuidade ao plano, disseram três pessoas próximas às conversas.

Em uma ligação com repórteres neste mês, executivos do Facebook disseram ter removido entre março e julho mais de 110 mil itens de conteúdo que violavam as políticas da empresa referentes às eleições. Eles também disseram que havia muita coisa sobre a eleição que desconheciam.

​"Neste ambiente de rápida mudança, estamos sempre numa espécie de 'equipe de emergência' e trabalhando com parceiros para entender quais são os próximos riscos", disse Guy Rosen, vice-presidente de integridade do Facebook. "Quais são as diversas coisas que podem dar errado?"

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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