Greve contra líder autocrata da Belarus paralisa minas e programa de TV

Em meio a atos contra Lukachenko, Putin diz a líderes europeus que interferência no país é inaceitável

Minsk e Bruxelas | AFP e Reuters

No décimo dia de uma onda de protestos contra o líder autocrata da Belarus, Alexsandr Lukachenko, trabalhadores do setor de mineração paralisaram a produção de potássio para a fabricante Belaruskali, uma das maiores do mundo, segundo a agência russa de notícias Tass.

A indústria de tratores MZKT, na qual o líder bielorrusso foi vaiado na segunda (17), também parou. Assim, a greve geral convocada pela oposição de Belarus (pronuncia-se Belarús) ganha força.

Ainda que tenha pedido aos empregados que sigam trabalhando para não piorar a situação econômica do país, a empresa Belavia, por exemplo, enviou um email aos funcionários para dar apoio caso compareçam às manifestações e afirmar que dará ajuda se forem machucados.

Ao mesmo tempo, campanhas arrecadaram o equivalente a US$ 700 mil (R$ 3,81 milhões) para ajudar trabalhadores punidos por participar da paralisação.

Homem enrolado na antiga bandeira da Belarus acena a funcionários do Museu Nacional de Arte, em Minsk
Homem enrolado na antiga bandeira da Belarus acena a funcionários do Museu Nacional de Arte, em Minsk - Sergei Gapon/AFP

Os manifestantes pedem a saída de Lukachenko, que lidera o governo do país há 26 anos e é acusado de fraudar a eleição para se manter no poder —as suspeitas já recaíam sobre pleitos anteriores.

Ele se declarou vencedor da disputa realizada no dia 9, a partir da divulgação do resultado, que deu 80% dos votos a ele, contra pouco mais de 10% da principal candidata opositora, Svetlana Tikhanovskaia. Ela, que substuiu o marido, preso no meio do ciclo eleitoral, levou multidões a comícios.

Nesta terça (18), além da paralisação de trabalhadores de indústrias, parte da base de apoio do autocrata, cerca de cem funcionários da BT, principal TV estatal da Belarus, protestaram do lado de fora do canal.

Em vez da programação usual, a emissora colocou no ar imagens de um estúdio vazio com uma música dançante ao fundo. A BT tem ignorado os atos, o que levou jornalistas a pedirem demissão. Desde o começo da crise, sete âncoras já anunciaram a saída de seus cargos em protesto à violência policial.

Já o jornal Komsomolskaia Pravda, que costuma cobrir temas como celebridades e esportes, passou a trazer notícias dos atos. Em demonstração de apoio dos manifestantes, a rotativa da publicação quebrou, e, após pedir ajuda, o periódico conseguiu em meia hora uma nova máquina para imprimir.

No campo das artes, atores do teatro estatal Kupalauski entregaram cartas de demissão ao ministro da Cultura bielorrusso enquanto ele discursava num evento. O gesto foi uma resposta à destituição de um diretor teatral que apoiou os protestos desencadeados logo após a divulgação dos resultados da eleição.

No domingo (16), o maior deles, com 100 mil pessoas, tomou as ruas de Minsk. Se as primeiras manifestações foram reprimidas com violência pela polícia, deixando ao menos dois mortos, dezenas de feridos e mais de 6.700 presos, os atos realizados na noite de segunda-feira (17) e nas primeiras horas de terça-feira (18) não tiveram registros de cenas de repressão aos ativistas.

Nesta terça, houve um novo protesto em frente ao centro de detenção nº 1 da capital bielorrussa. Quase 200 pessoas, com flores e balões, desejaram feliz aniversário a Sergei Tikhanovski, 42, e pediram sua libertação. Ele disputaria a eleição, mas foi detido sob acusação de perturbação da ordem pública.

Em seu lugar, a professora de inglês Svetlana Tikhanovskaia, 37, mulher de Sergei, assumiu a campanha e se tornou a principal líder da oposição. Refugiada na vizinha Lituânia, ela busca apoio internacional para criar um governo de transição e realizar uma nova votação. Depois de pedir a Lukachenko que cedesse o poder, declarou na segunda que estava pronta para assumir suas responsabilidades e governar o país.

"Todas essas injustiças e arbitrariedades nos mostram como funciona esse sistema podre, no qual uma pessoa controla tudo", disse ela, em um vídeo publicado na internet. "Uma pessoa controla o país por meio do medo há 26 anos. Uma pessoa roubou a escolha dos bielorrussos."

Um conselho de coordenação para a transição de poder foi formado pela oposição, cuja primeira reunião será nesta terça, segundo a opositora Maria Kolesnikova. Deve incluir a escritora Svetlana Aleksievitch, autora de "Vozes de Tchernóbil" e ganhadora do prêmio Nobel de Literatura em 2015.

Manifestantes também tentaram organizar um protesto em frente à prisão de Okrastina, onde estão centenas de pessoas presas entre domingo e quarta-feira da semana passada. Grupos que prestam solidariedade aos parentes, no entanto, pediram aos ativistas que não se aproximem do local por temer que a tortura aos detidos aumente caso isso aconteça.

Lukachenko busca resistir e mostrar força. Nesta terça, condecorou policiais que atuaram na repressão aos protestos, no que considerou um "serviço impecável". Também determinou que gestores de fábricas estatais se esforcem para disciplinar os trabalhadores, de modo a manterem a produção.

Na noite de terça (tarde em Brasília), Lukachenko disse na TV que a oposição tem planos de montar um quartel-general para tentar tomar o poder e que as autoridades responderão com as medidas adequadas.

O autocrata alertou que militares reforçaram a proteção na fronteira oeste, mais próxima dos países europeus, como resposta a uma possivel ameaça externa. Citou "declarações de líderes de certos países que mal sabem onde fica Belarus e nem o que está acontecendo aqui".

Nesta terça, o presidente russo, Vladimir Putin, fez ligações para a chanceler alemã, Angela Merkel, e para o presidente francês, Emmanuel Macron. Nas conversas, disse aos líderes europeus que pressões ou tentativas de interferir na situação em Belarus serão consideradas inaceitáveis pela Rússia.

Merkel, por sua vez, disse a Putin esperar que o governo de Belarus cesse a violência, solte presos políticos e inicie conversas com a oposição. A União Europeia (UE) estuda aplicar sanções contra o governo de Lukachenko e realizará uma reunião sobre o assunto nesta quarta-feira (19).

Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, um dos órgãos de comando da UE, disse ter conversado com Putin sobre Belarus. "Só o diálogo pacífico e verdadeiramente inclusivo pode resolver essa crise."

O governo russo mobilizou 3.500 homens perto da fronteira com a Belarus, depois de fazer exercícios de defesa aérea e começar simulações de ataque aeronaval nesta semana em Kaliningrado, a ponta de lança da Rússia encravada entre a Lituânia e a Polônia.

O distrito de Leningrado faz fronteira tanto com Belarus quanto com os Estados Bálticos, membros da Otan (aliança militar ocidental). Aqui a demonstração foi mais de rapidez de mobilização terrestre, com 900 peças de artilharia e blindados envolvidos na operação.

Tais exercícios são rotineiros, mas o fato de ocorrerem nesses locais após a oferta de apoio militar do Kremlin a Lukachenko é uma forma de sinalizar ao Ocidente que a Rússia dá as cartas naquele trecho europeu de forma mais assertiva.

Colaborou Igor Gielow

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