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Grupo de brasileiras expõe centenas de casos de assédio e xenofobia em Portugal

Mulheres têm sido alvo de ameaças e de discurso de ódio desde que casos foram divulgados

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Lisboa

“Moro há 17 anos em Portugal e até hoje ouço piadas diariamente. Nada mudou. Quando eu tinha 11 anos, fui chamada de puta pela primeira vez por um colega da escola. Hoje estou com 27 e ainda ouço comentários do tipo.”

Dezenas de relatos semelhantes, recheados de assédio e xenofobia, são expostos nas redes sociais por meio do projeto Brasileiras não se Calam, que tem como objetivo chamar a atenção para a violência e o estigma contra as mulheres do Brasil no exterior.

Para aumentar a visibilidade do movimento, os casos são publicados em português e também em inglês.

Em pouco mais de um mês, a página no Instagram já tem mais de 15 mil seguidores e dezenas de depoimentos. Segundo as criadoras do projeto, já foram recebidos cerca de mil depoimentos.

A iniciativa é tocada por cinco brasileiras que vivem no exterior e fazem o trabalho sob condição de anonimato —desde que os relatos de assédio começaram a ser expostos, o grupo tem sido alvo de ameaças, discurso de ódio e discriminação.

Há casos em diversos países, mas a maior parte dos depoimentos é de brasileiras em Portugal.

Os brasileiros formam a maior comunidade estrangeira no país, onde havia oficialmente 150.854 residentes regularizados em 2019 (número que não inclui quem tem dupla cidadania portuguesa ou de outro país da União Europeia).

Segundo os dados mais recentes da Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial lusa, a quantidade de queixas de xenofobia contra brasileiros em 2018 aumentou 150% em relação a 2017.

A ideia de criar a página surgiu justamente quando uma participante da mais recente edição do Big Brother Portugal fez um comentário ofensivo, em rede nacional, às brasileiras.

“Os relatos de assédio e de discriminação contra as brasileiras que temos recebido ocorreram em vários países, mas em Portugal a situação parece ser mais grave", disse à Folha uma das criadoras da página.

“Para que um problema seja resolvido, o primeiro passo é enxergar a existência dele. Falar sobre a discriminação e o assédio que as brasileiras sofrem no exterior devido à nacionalidade é uma forma de mostrar a existência desse problema para que assim possamos pensar em estratégias para resolvê-lo.”

Segundo a administradora da página, os relatos mais marcantes têm sido os de adolescentes brasileiras que sofreram assédio sexual nas escolas. “Em um deles, uma adolescente chegou a reclamar com a direção da escola e lhe disseram que a culpa era dela por ser brasileira e usar calça jeans”, conta.

A página também tem uma série de relatos de assédio praticados por profissionais de saúde.
“Eu tive uma infecção de urina e, quando fui à médica, ela me disse: ‘Isso que dá não fechar as pernas’. A médica era uma mulher, o que me deixou mais triste ainda”, afirma um dos depoimentos.

Relatos de estudantes assediadas ou discriminadas no ambiente universitário também são comuns, com alunas descrevendo situações em que suas habilidades acadêmicas foram questionadas apenas pela nacionalidade.

Professora da Universidade Federal de Santa Maria, a socióloga Mariana Selister Gomes é autora de uma tese de doutorado sobre o tratamento da mulher brasileira em Portugal. Segundo ela, as situações de assédio e preconceito relatadas nos depoimentos são rotina para essas comunidades.

“Na minha pesquisa, a mulher brasileira ainda é vista num cenário de hipersexualização em Portugal. Esse imaginário remonta a muitos séculos. Desde a colonização, as mulheres foram construídas como Evas do paraíso, corpos disponíveis sexualmente”, afirma.

Segundo a professora, iniciativas como o grupo Brasileiras não se Calam têm um papel importante.

Além dos perfis em redes sociais, as organizadoras também criaram um site (brasileirasnaosecalam.com), no qual são compilados vários projetos de voluntariado para auxiliar brasileiras no exterior.

Os serviços já contam com apoio de advogados, psicólogas, professoras de idiomas, além de uma plataforma para divulgar profissionais brasileiras que estão à procura de emprego em Portugal.

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