Irã fecha jornal após publicação de denúncia de acobertamento das cifras da pandemia

Periódico Jahan-e Sanat entrevistou epidemiologista que teria feito parte da força-tarefa contra coronavírus

Dubai

Após publicar uma entrevista com um epidemiologista que acusa o governo de acobertar o impacto do coronavírus no país, o Irã fechou nesta segunda-feira (10) o jornal econômico Jahan-e Sanat.

Mohammadreza Mahboubfar, que teria trabalhado na força-tarefa de combate à pandemia, disse ao periódico que os números reais de casos e mortes por Covid-19 no país podem ser até 20 vezes maiores.

“O governo acobertou o primeiro caso da doença por razões políticas e de segurança”, afirmou Mahboubfar. “O vírus foi detectado em janeiro, mas sua presença só foi anunciada em fevereiro, a fim de não atrapalhar as eleições e a comemoração da Revolução [Islâmica]."

Presidente do Irã fala ao microfone usando máscara
O presidente do Irã, Hassan Rouhani, em entrevista coletiva com o primeiro-ministro do Iraque, Mustafa al-Kadhimi, em Teerã - 21.jul.20/Reuters

O editor-chefe do jornal, Mohammadreza Saadi, confirmou o fechamento do veículo em entrevista à agência estatal de notícias IRNA, enquanto o Ministério da Saúde, por meio de uma porta-voz, negou as acusações, dizendo que o epidemiologista não fazia parte da força-tarefa.

Reportagem da BBC News Persa publicada em 3 de agosto mostrou que o número de mortes no país era quase três vezes maior do que o divulgado pelo governo, o que colocaria o Irã em terceiro lugar no mundo em número absoluto de óbitos, na frente da Índia e atrás de Brasil e EUA. Nesta segunda, o país persa estava na 11ª posição neste ranking, segundo o site Worldometers.

A BBC obteve documentos do próprio governo, que indicavam 42 mil mortes até 20 de julho, contra apenas 14.405 divulgadas oficialmente no mesmo período. O número de casos também era maior: 451.024, ante 278.827. Segundo a reportagem, não se tratava de subnotificação, mas de supressão deliberada de dados.

Em abril, relatório do centro de pesquisas do Parlamento já apontava que o número de mortes poderia ser duas vezes maior do que o indicado nas cifras oficiais, uma vez que o país só contabilizava óbitos que ocorriam em hospitais ou caso a vítima tivesse obtido resultado positivo para o vírus antes de morrer.

A agência de notícias Reuters noticiou am abril que o governo não divulgou a propagação do coronavírus por medo de causar protestos antes das eleições realizadas em fevereiro e da comemoração de 41 anos da Revolução Islâmica de 1979. O país também não impediu que seus cidadãos viajassem internamente durante o feriado do Ano Novo persa, em 20 de março.

Mesmo considerando apenas os números oficiais, o Irã é o mais atingido pela pandemia no Oriente Médio. Até esta segunda, o país persa contabiliza 328.844 casos e 18.616 mortes, segundo o Worldometers.

A ONG Repórteres Sem Fronteiras aponta o Irã como o sétimo pior país do mundo para jornalistas. Segundo levantamento da organização, cerca de 80 jornais foram fechados entre 2000 e 2004.

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