Mudanças precipitadas pela pandemia ameaçam futuro das megacidades

Na contramão do quanto mais gente melhor, crise pode valorizar cidades médias como próximas da escala humana

São Paulo

Fuga temporária de grandes centros urbanos em busca de endereços rurais ou suburbanos, maiores e mais próximos da natureza. Disparada na venda de bicicletas em vários países do mundo. Fechamento de lojas e escritórios na esteira da imposição do teletrabalho e da digitalização do comércio.

Essas e outras mudanças precipitadas pela pandemia colocaram em xeque o futuro das megacidades, cuja densidade populacional, antes motor de contextos vibrantes, diversos e criativos, virou fator de risco diante da fácil propagação do coronavírus.

Cena registrada na Cidade do México, uma das 19 megalópoles registradas no projeto Hipercidades - Tuca Vieira/Folhapress

Estranhamente silenciosas, sem trânsito e menos poluídas, boa parte das grandes cidades globais perdeu, desde o início da pandemia, o apelo das experiências sociais, econômicas e culturais atreladas a territórios adensados.

“A pandemia interrompeu a rotina de bilhões de pessoas que residem em cidades e mudou tudo o que tomávamos como dado: trabalhar em um escritório, fazer compras numa loja, comer num restaurante. Impôs grandes desafios ao mesmo tempo em que apresenta oportunidades sem precedentes de uma virada que permita deixar de lado os erros que desgastaram as cidades”, avalia Janette Sadik-Khan, ex-secretária de Transportes de Nova York, na gestão de Michael Bloomberg.

“Podemos restaurar nossas cidades para que sejam mais acessíveis, evitando a poluição e o desperdício”, diz a urbanista, que já participou do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, cuja edição deste ano tem como tema “Reinvenção do humano”.

“O trânsito de São Paulo diminuiu 50% durante a pandemia no horário de pico das manhãs de terça-feira. E é possível enxergar, nessas faixas vazias, o projeto da cidade que se quer como resposta e recuperação da crise.”

Para ela, essa cidade do futuro tem mais espaço para caminhadas, bicicletas e encontros, que podem se traduzir em novos negócios.

Mais ciclovias e maiores áreas com restrição ao tráfego de veículos automotores não são propostas novas, mas sua implementação foi acelerada desde a pandemia em cidades como Milão, Berlim, Barcelona, Lisboa e Bogotá.

Sadik-Khan ressalta que a alta do desemprego aliada à falta de acessibilidade por ineficiências dos sistemas de transporte, sejam ônibus, trens, bicicletas ou mesmo calçadões, compõem um cenário sombrio para a recuperação das cidades só passível de reversão por meio de investimentos.

Até a eclosão da pandemia, as cidades abrigavam 55% da população do planeta e produziam mais de 80% do PIB global. Ao escancarar desigualdades, a Covid-19 jogou luz sobre a situação de centenas de milhões de trabalhadores urbanos.

“O trabalhador médio das grandes cidades é aquele que, na pandemia, não pode transpor sua atividade para o teletrabalho. Além de ser mal pago, de ter de trabalhar muito duro e de não contar com o reconhecimento de boa parte da sociedade, ele sofre com condições de deslocamento da ordem de horas por dia”, destaca a socióloga holandesa Saskia Sassen, professora da Universidade Columbia.

“Na pandemia, descobrimos que precisamos desesperadamente desses trabalhadores.”

Para ela, a vida em megalópoles se tornou um fardo para a maior parte das pessoas, e abandoná-la já era uma tendência para uma pequena parcela de seus habitantes mesmo antes da pandemia.

Estudo do Instituto Brookings apontou que as três grandes megalópoles dos EUA, Nova York, Los Angeles e Chicago, viram suas populações diminuírem nos últimos anos.

Entre as prováveis causas, o alto valor dos aluguéis e o fato de os trabalhos de baixa qualificação, descontados os custos de vida, terem remuneração semelhante em outras localidades com mais qualidade de vida.

“Nossas cidades são grandes demais, e já insistimos nelas demais. Quem paga o preço não são as elites, mas o grosso de trabalhadores que têm de madrugar para chegar ao trabalho e que são invisíveis ao planejamento urbano, porque quem pensa e escreve sobre cidades não vive as dificuldades dessa realidade”, critica Sassen, cujo livro mais recente, “Expulsões: Brutalidade e Complexidade na Economia Global” (Paz e Terra), classifica esses processos como mais radicais que o da mera exclusão.

“Trata-se de uma injustiça desnecessária porque beneficia empresas de alto padrão cujos executivos podem viver onde quiserem, mas escolhem grandes cidades globais e sua preferência é dominante”, avalia.

“Mas a pandemia acabou com a fantasia que as elites nos venderam de que a vida nas cidades é o que existe de melhor. É um completo nonsense dizer que precisamos viver em grandes cidades para fazermos parte da comunidade global. Essa fantasia acabou!”, decreta ela.

“Cedo ou tarde, teremos de reconhecer que precisamos não de uma São Paulo ou de uma Nova York, mas de múltiplas cidades médias, onde grandes firmas terão de se instalar. Elas são o bom futuro da humanidade.”

Para Sassen, o engajamento de novas gerações com a questão ambiental também deve favorecer a vida fora das megacidades —nome dado a aglomerações urbanas com mais de 10 milhões de habitantes. Elas foram exploradas pelo fotógrafo Tuca Vieira no projeto Hipercidades, em que viajou por 19 delas. Duas das imagens registradas por ele ilustram esta reportagem.

“O que pude ver é que não se pode pensar essas cidades separadamente das desigualdades sociais e das mudanças climáticas”, avalia ele, que hoje faz doutorado na área.

“Como hoje a maioria da população do mundo vive em cidades, e portanto consome a partir delas, as cidades se tornaram o maior motor de transformações do planeta.”

O urbanista e economista colombiano Enrique Peñalosa, ex-prefeito de Bogotá responsável por reformas inclusivas em transporte e equipamentos públicos, diz não acreditar em mudanças drásticas no destino das grandes cidades no futuro próximo, a não ser na percepção de dois fatores: a importância do contato com o verde e do acesso a tecnologias de comunicação.

“Cidades são produtivas, e nunca ninguém conseguiu frear seu crescimento de maneira artificial”, diz ele, citando a experiência frustrada da China em conter a migração interna e o crescimento das cidades com passaportes internos.

“Como cada vez mais as pessoas vivem sós, como na Escandinávia e nos bairros ricos de Bogotá, elas necessitam mais do que nunca do contato com mais pessoas que a experiência urbana proporciona.”

Se a aglomeração parece arriscada no curto prazo por conta do novo vírus, a desaglomeração pode ser pior, mas para o meio ambiente, como aponta Philip Yang, fundador do Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole).

“Entre 2001 e 2030, teremos três vezes mais superfície urbana do que no ano 2000, o que cria uma fricção das cidades com zonas agrícolas e áreas de proteção florestal e de mananciais de produção de água”, explica ele, citando pesquisa da geógrafa Karen Seto, da Universidade Yale.

Yang avalia que a pandemia escancarou as assimetrias sociais das cidades, evidenciando a geografia como maior fator de risco da Covid-19, e que grandes cidades do Brasil, como do mundo em desenvolvimento, têm como desafio zerar o déficit educacional e de saneamento básico.

“Sem resolver um problema do século 19 fica difícil encarar os desafios do século 21.”

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