Descrição de chapéu The New York Times

Nova Orleans vive crises por pandemia e falta de moradia 15 anos após furacão Katrina

Tempestade devastou cidade em 2005, e reconstrução ampliou desigualdades sociais

Talmon Joseph Smith
The New York Times

O furacão Katrina chegou à Flórida no começo da noite de 25 de agosto de 2005. Tempestade modesta de categoria 1, com ventos máximos de apenas 145 km/h, passou logo ao norte de Miami, depois atravessou a região pantanosa dos Everglades, rumo às águas mornas do Golfo do México.

Naquela noite, um bolo de aniversário branco com recheio de abacaxi estava sobre a mesa de jantar de uma casa na esquina leste da rua Dreux e da avenida St. Roch, em Nova Orleans.

Era o aniversário de meu irmão mais velho. Em 72 horas o Katrina cresceu e se converteu numa tempestade colossal de categoria 5, cujo olho se dirigia diretamente a Nova Orleans. Minha família abandonou a cidade, deixando praticamente tudo para trás.

Sede de projeto social que distribui refeições para pessoas em dificuldades em Nova Orleans - Kathleen Flynn - 22.ago.19/Reuters

Às 6h10 do dia 29 de agosto o furacão Katrina se abateu em cheio sobre a foz do rio Mississippi. Era o quarto furacão mais intenso a já ter fustigado a área continental da América.

Em Nova Orleans, rio acima, diques federais de construção fraca –que reforçam os canais de drenagem que correm pela cidade— começaram a se romper, como peças de Lego descoloridas, sob o efeito da inundação provocada pela tempestade. E uma enorme enchente se espalhou.

Em 31 de agosto, o presidente George W. Bush, que passava férias no Texas quando o furacão atingiu Nova Orleans, sobrevoou a destruição em seu jato presidencial.

Quatro quintos da cidade estavam debaixo d’água. Dezenas de milhares de pessoas estavam ilhadas sobre os telhados de casas, isoladas em pequenas áreas de ruas ainda não inundadas ou então encurraladas dentro de abrigos.

No dia 2 de setembro, enquanto muitas pessoas ainda aguardavam ser resgatadas e os mortos ainda eram contabilizados, já tendo passado dos 1.800, o jornal Baltimore Sun informou que o então presidente da Câmara dos Deputados, Dennis Hastert, “questionou a prudência de se gastarem bilhões de dólares para reconstruir uma cidade vários pés abaixo do nível do mar”.

Foi uma visão expressa frequentemente na época –também publicada em veículos mainstream como a Slate e o Washington Post— e que os habitantes de Nova Orleans nunca conseguiram esquecer.

Cerca de um mês mais tarde minha família e eu retornamos à nossa casa na rua Dreux, com máscaras e luvas, para examinar os estragos. Era uma confusão com muito mofo: nossos móveis, obras de arte de artistas locais, o piano antigo, tudo estava destruído.

Uma cadeira estava pendurada no lustre. Abaixo dela, em cima do balcão, o bolo de aniversário, coberto por seu domo de vidro, parecia encharcado mas quase intacto.

Muitos aqui temeram na época que “talvez a gente não volte a ver esta cidade nunca mais, ou pelo menos não na forma que reconhecemos”, como me lembrou anos mais tarde o ator Wendell Pierce, natural de Nova Orleans e que atuou no seriado da HBO “Tremé”, sobre a turbulência na cidade após a passagem do Katrina.

Pierce recordou que naqueles primeiros meses e anos a canção “Do You Know What It Means (to Miss New Orleans)”, de Louis Armstrong, passou a ser ouvida diferentemente –não mais como um misto de melancolia e alegria, mas como canto fúnebre.

Para alívio de Pierce e de milhões de outras pessoas, boa parte da cidade se recuperou, à sua própria maneira desigual, depois do furacão.

Agora, porém, o coronavírus já matou mais de 4.000 pessoas no Estado de Louisiana, mergulhou a economia de Nova Orleans em coma, mostrou ao resto do país qual é a sensação de um fracasso do tamanho do Katrina e revelou que as lições da passagem do furacão relativas à gestão de crises e desigualdade social ainda não foram aprendidas.

Pode ser difícil relembrar agosto de 2005 claramente. Já houve tantas tempestades desde então –literais, culturais e políticas. Mas não podemos esquecer a singularidade do desastre do Katrina.

Não podemos esquecer que diques corretamente construídos poderiam ter resistido facilmente à inundação provocada pela tempestade, como me disse Stephen Nelson, professor emérito de ciências da terra e ambientais na Universidade Tulane e autor do artigo seminal “Myths of Katrina: Field Notes From a Geoscientist” (mitos do Katrina: notas de campo de um geocientista).

Mas, entre outras falhas graves, o Corpo de Engenheiros do Exército não cravou a uma profundidade suficiente as estacas de aço que seguram os painéis dos diques.

Não podemos esquecer que, apesar de estar no comando das maiores forças terrestres, aéreas e navais da história, o governo dos EUA levou aproximadamente uma semana para montar um esforço de resgate totalmente engajado –deixando dezenas de milhares de pessoas ilhadas, sem abrigo adequado, água ou comida.

Precisamente pelo fato de o governo federal ter estado praticamente ausente durante vários dias –enquanto as autoridades estaduais e locais estavam atoladas em confusão e discórdia petulante— não podemos esquecer os atos de heroísmo que moradores de Nova Orleans fizeram uns pelos outros.

Uma das primeiras pessoas que visitei neste mês em Nova Orleans foi Rudy Major, responsável por resgatar da enchente 125 pessoas, segundo a estimativa aproximada dele, em meu antigo bairro, Gentilly. Homem que gosta de contar piadas, Major assume um tom de seriedade militar quando fala de assuntos graves.

Ele me explicou que resolveu ficar em sua casa, mesmo com o furacão se aproximando, porque tinha confiança que a casa (situada no alto de uma colina) não seria inundada e sentia igual certeza que o bairro do Ninth Ward, mais baixo e situado a poucos quilômetros de distância, ficaria embaixo d’água. E ele queria ajudar.

Assim, depois que dois diques próximos se romperam naquela manhã de segunda-feira, Major entrou em seu barco de 30 pés com seu filho Kyle, então com 19 anos. Eles foram e voltaram dezenas de vezes para resgatar pessoas de cima de telhados e levá-las para o terraço de sua casa, que ficou apenas um pouco acima da linha d’água, “quer fossem brancas, negras, creoles ou qualquer outra coisa”.

Eles viram cadáveres boiando ao lado. Invadiram o sótão de uma casa, abrindo caminho a golpes de machadinha, depois de ouvir gritos fracos de socorro. Encontraram uma mulher aos prantos com duas filhas pequenas, e a avó delas, já morta.

Essas histórias são apenas alguns dos milhares de relatos lancinantes ouvidos depois da passagem do furacão, criados e agravados pela inépcia do governo. Major expressou frustração semelhante com o governo agora, quando o coronavírus atinge a Louisiana com gravidade especial.

“Há diferenças, mas também há muitas semelhanças”, comentou ele. “Precisamos de um plano federal, um plano estadual e um plano local, e eles precisam estar interligados.”

Em 2005, o prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, a governadora do Louisiana, Kathleen Blanco, o governador do Mississippi, Haley Barbour, e a Casa Branca de Bush tropeçaram e se desentenderam sobre logística e verbas, enquanto vidas corriam perigo.

Em 2020 o elenco de personagens em disputa é mais amplo, com governadores da Califórnia ao Texas e Nova York desentendendo-se com prefeitos, enquanto a administração Trump sabota todos e se recusa a assumir a liderança, ela própria.

Dependendo de quem você é e onde está, o resultado desta resposta politizada a uma crise é tão letal quanto foi a resposta ao Katrina. “Já perdi 15 amigos de Covid”, disse Major.

Antes do Katrina já havia uma escassez considerável de habitação acessível em Nova Orleans. Essa situação apenas se agravou, na medida em que muitas das unidades habitacionais a valores acessíveis nunca foram reconstruídas depois do furacão e que o centro urbano enriqueceu e ficou mais branco.

Hoje Nova Orleans tem 33 mil menos unidades habitacionais de preço acessivel do que necessita, segundo a organização local de pesquisas e ativismo HousingNOLA.

Há oportunidades para resolver isso em todos os bairros da cidade, explicou Andreanecia Morris, diretora executiva da entidade, quando nos encontramos no escritório dela no Mid-City.

A maioria dos habitantes de Nova Orleans vive em casa alugada. Antes do Katrina, o valor de mercado do aluguel mensal de um apartamento de um quarto era em média US$ 578 (R$ 3.230). Desde então esse valor dobrou, de modo que uma pessoa que trabalha em período integral precisa ganhar US$ 18 (R$ 100) por hora para poder pagar por um apartamento de um quarto.

Mas os salários reais estão estagnados, e muitas das firmas de serviços que empregam moradores da cidade ainda estão fechadas.

Dezenas de pessoas que trabalham nos setores de música, bebidas, alimentação e turismo de Nova Orleans –as que têm probabilidade maior de perder seus meios de subsistência tanto depois do furacão quanto agora, durante a pandemia— recebem o salário mínimo, US$ 7,25 (R$ 40) a hora.

Em algumas cidades, Morris explicou, os aluguéis muito altos são resultantes de uma falta de imóveis para alugar, “mas em Nova Orleans temos uma taxa de desocupação de 20%!”. Há cerca de 37.700 unidades habitacionais vazias na cidade.

Moradores de Nova Orleans como o trompetista premiado com o Grammy Terence Blanchard vivem essa dicotomia na própria pele.

“As pessoas falam em recuperação”, disse ele no cais diante de sua casa, com vistas para o Bayou St. John e o City Park. “Mas se você for para a casa de minha mãe, em Pontchartrain Park, verá que não houve recuperação real.”

Os vouchers habitacionais federais conhecidos simplesmente como “Section 8”, que subsidiam a parcela de aluguéis que passa dos 30% da renda dos participantes, cobrem completamente os “aluguéis a valores de mercado justos”, que em Nova Orleans são calculados entre US$ 1.034 (R$ 5.786) e US$ 1.496 (R$ 8.371) por um apartamento de um quarto.

Isso significa que mesmo em bairros cada vez mais caros da cidade, situados em partes mais altas, há pouco que impeça os locatários com imóveis vazios de abaixar os aluguéis em algumas centenas de dólares e ainda assim serem capazes de gerar receita.

Para Morris, a resistência contínua de muitos locatários que querem “um certo tipo de família” ou então clientes de Airbnb alcançou níveis “psicóticos” de racismo e classismo. “Em dado momento”, comentou ela, “você precisa deixar que a matemática fale mais alto que seus preconceitos”.

Conheci o jovem historiador Malik Bartholomew, nascido e criado em Nova Orleans, na última livraria negra da cidade, a Community Book Center. Centro cultural que está prestes a ser fechado devido ao coronavírus, a livraria foi salva por enquanto graças ao que sua proprietária, conhecida pela clientela como Miss Vera, vê como sendo uma onda de sentimento de culpa de brancos pela morte de George Floyd.

“Os livros começaram a sair voando das estantes”, disse Miss Vera, com ambivalência visível não obstante a máscara que cobre seu rosto.

Pouco depois disso, Bartholomew me levou para dar uma volta do Tremé, onde trabalhei por pouco tempo quando era adolescente, em 2013. O lugar já estava sendo gentrificado na época, e agora virou ainda mais chique.

Como nova-orleanense de oitava geração, eu queria ser um bom filho da cidade e ironizar tudo. Mas me senti quase visceralmente encantado com as casas cuidadosamente reconstruídas e os cafés frequentados por jovens brancos, ao lado da cena de um senhor negro aposentado curtindo a sombra de sua varanda.

Perguntei se não pode haver um mundo em que algumas pessoas ricas que vêm visitar a cidade e resolvem ficar respeitam sua cultura, integram-se a ela, reforçam a base fiscal e ajudam a elevar outros moradores?

Bartholomew explicou que minha fantasia de integração põe fé demais na “parte dois”, em que o dinheiro e o poder seriam compartilhados. “Nunca vi isso acontecer”, disse ele. “As pessoas ganham dinheiro em cima de nossa cultura, só isso.”

Na visão dele e outros organizadores comunitários, “os ricos e seus interesses estão mais poderosos do que nunca”.

A prefeita de Nova Orleans, LaToya Cantrell, disse que concorda em grande parte com ele.

Primeira mulher e primeira negra a liderar a cidade, Cantrell é de Broadmoor, um dos sete bairros mais baixos que um comitê nomeado pela prefeitura depois do furacão Katrina pretendia converter em parques e pântanos.

Ela subiu na política local como a principal adversária desse plano, que fracassou, e chegou à prefeitura com a plataforma de criar uma Nova Orleans “para todos seus cidadãos”. Mas confessa que se sentia tendo que empurrar uma grande pedra morro acima, e isso mesmo antes da chegada do coronavírus.

“O tempo todo”, disse ela, esticando cada sílaba. “Mas, se você não empurrar, nada vai sair do lugar. Os sistemas que foram criados, especialmente nesta cidade, foram feitos de modo que somos nós que fazemos todo o trabalho de empurrar. E sempre foi assim.”

Esses sistemas são muitos e têm níveis diversos. Há as elites empresariais regionais e o Federal Reserve, que mais uma vez se negou a ser tão generoso com municípios endividados quanto é com os mercados corporativos que salvou.

Um governo estadual hostil e controlador bloqueia ou veta muitas políticas defendias pela prefeitura e rouba a cidade de recursos, apesar de boa parte da receita tributária gerada em Nova Orleans ir para os cofres estaduais. O resultado disso, queixa-se Cantrell, é que ela não tem como efetuar reformas como elevar o salário mínimo e tem pouca margem de manobra para redirecionar impostos ou receitas.

Ela vem tendo mais êxito até agora com projetos de infraestrutura, incluindo um acordo para realocar alguns recursos tributários da indústria do turismo para iniciativas com ênfase em sustentabilidade.

Em vez de abandonar os bairros baixos, a prefeitura está tentando reformar seus espaços abertos, como os terrenos baldios e as avenidas largas, para formar uma rede de jardins aquáticos, minipântanos e canais de drenagem que vão alimentar riachos maiores.

A ideia é que esses “corredores azuis e verdes” reduzam as enchentes e revertam a subsidência –o afundamento crescente da terra.

Essa paisagem urbana retrabalhada será imensamente benéfica à viabilidade de Nova Orleans, se for completada. Mas, em vista da mudança climática –com mares em elevação e pântanos desaparecendo ao sul—, Cantrell admitiu que ela não será o bastante nos próximos 15 anos.

Ela diz que há limites ao que pode fazer uma prefeita com orçamento municipal limitado –o que pode fazer pelos salários, infraestrutura, habitação, educação, mobilidade econômica e mais. E isso se aplica em qualquer lugar.

Apesar de toda a singularidade cultural de Nova Orleans, de sua capacidade de ser um meca cultural em momentos passageiros de festivais, suas lutas e suas necessidades são praticamente as mesmas de qualquer outra área urbana.

Em praticamente todos os lugares ainda faltam soluções justas para as cidades, esses órgãos vitais e centrais da socidade moderna –soluções para que os cidadãos possam viver em harmonia justa e ambientalmente estável.

Para que se possa alcançar uma cidade desse tipo, pessoas ricas de todas as cores de pele precisarão parar de acumular recursos e viver ao lado das pessoas trabalhadoras.

Professores primários podem precisar ser tão bem pagos quanto professores universitários, salários dignos podem ter que se subsidiados e serão necessárias adaptações épicas para fazer frente à mudança climática.

Apenas os vastos poderes fiscais e monetários têm condições de satisfazer à escala dessa necessidade.

A alternativa é que áreas costeiras em torno de Nova Orleans, Miami, Nova York e Charleston, na Carolina do Sul, fiquem cada vez mais desiguais nas próximas décadas, afundando sob o peso de suas contradições, depois sucumbindo à natureza e sendo invadidas pelo mar.

Um dia antes de deixar a cidade, me sentei com Stephen Nelson, o geólogo da Universidade Tulane, no quintal de sua casa, e ele me contou que está cético quanto à possibilidade de a sociedade conter a erosão costeira a tempo.

“Para os humanos, se não houver retorno imediato sobre um investimento, não o fazemos”, disse ele. “Mas a Terra não funciona assim.”

Para a América descrever uma virada suficiente na direção do ambientalismo e igualitarismo, pode ser preciso um milagre do tipo nunca visto em nossas vidas.

Mesmo assim, quando decolei do aeroporto Louis Armstrong, notei que em questão de segundos estávamos sobrevoando a área pantanosa criada pelo rio Mississippi, boa parte dela com menos de mil anos de idade, mas que agora está repleta de humanos andando de um lado para outro, cuidando se seus afazeres, visíveis a partir de um veículo a milhares de pés de altitude –um milagre que parece ainda maior, mais implausível.

Isso me lembrou de uma das últimas coisas que Nelson me disse, com os olhos sorrindo por cima da máscara: “Não podemos ignorar o que está abaixo de nós. Porque construímos tudo em cima disso.”

Tradução de Clara Allain

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