República Dominicana nega que rei emérito Juan Carlos esteja no país

Imprensa espanhola havia afirmado que monarca investigado por corrupção estaria no país caribenho

Madri | AFP e Reuters

A República Dominicana negou nesta terça-feira (4) que o rei emérito da Espanha Juan Carlos tenha entrado no país, um dia após o antigo monarca anunciar seu exílio.

Mais cedo, a imprensa espanhola havia afirmado que ele estaria morando de maneira provisória no país caribenho, no resort de uma família dona de plantações de açúcar na região.

Mas a alfândega dominicana afirmou que a última viagem de Juan Carlos ao país teria sido entre 28 de fevereiro e 2 de março.

O Ministério das Relações Exteriores da República Dominicana também disse não ter informações sobre uma possível chegada do rei emérito ao território.

Entrada do Casa de Campo em La Romana, resort onde estaria alojado o rei emérito Juan Carlos, da Espanha, na República Dominicana
Entrada do Casa de Campo em La Romana, resort onde estaria alojado o rei emérito Juan Carlos, da Espanha, na República Dominicana - Erika Santelices/AFP

O monarca de 82 anos, investigado por corrupção, anunciou na segunda-feira (3) a decisão de deixar a Espanha para ajudar o filho, o rei Felipe 6º, no "exercício de suas responsabilidades".

A carta dirigida a Felipe, publicada no site da Casa Real, não informa o novo destino de Juan Carlos.

O jornal ABC afirma que o monarca teria abandonado a Espanha para seguir até a República Dominicana, após uma escala em Portugal.

Os jornais El Mundo e La Vanguardia noticiaram o mesmo destino, e esta última publicação detalha que Juan Carlos planeja ficar por algumas semanas no complexo Casa de Campo, em La Romana, de propriedade de uma família dona de plantações de açúcar, antes de se decidir por um destino definitivo.

O La Vanguardia acrescenta que ele foi para o Porto, em Portugal, de carro, e de lá voou para o país no Caribe. Já o portal El Confidencial diz que Juan Carlos está em Portugal, onde passou uma parte de sua adolescência.

Dois veículos de comunicação portugueses, a TVI24 e o jornal Correio da Manhã, afirmam que na segunda-feira ele estava na cidade de Cascais.

O El Mundo traz depoimentos de empresários amigos de Juan Carlos, segundo os quais ele está bem de ânimo. Ele teria se despedido no fim de semana "sem transmitir nenhum drama", dizendo que é possível que volte em setembro.

Um porta-voz da Casa Real, procurado pela agência de notícias AFP, negou-se a divulgar informações sobre o paradeiro do rei emérito. "A única informação que temos é a informação que foi publicada no site da Casa Real ontem [segunda-feira]", disse.

Também nesta terça, o premiê da Espanha, Pedro Sánchez, disse que apoia a decisão de Juan Carlos de "se distanciar de supostas condutas questionáveis e reprováveis por parte de um membro da Casa Real", acrescentando que "devem ser julgadas pessoas, e não instituições", e que o monarca se colocou à disposição da Justiça.

Para ele, a resposta do Palácio à situação envolvendo o rei emérito é uma prova de que a Espanha é uma "democracia vigorosa".

Escândalos

Em junho, a Procuradoria da Suprema Corte da Espanha abriu uma investigação contra Juan Carlos para apurar um possível envolvimento num esquema de propinas na construção de uma ferrovia na Arábia Saudita.

O objetivo, de acordo com o órgão da instância mais alta da Justiça espanhola, é identificar se o monarca cometeu crimes após abdicar do trono, em 2014.

A legislação no país concede imunidade durante o exercício do reinado. Ao renunciar ao trono, portanto, Juan Carlos perdeu o privilégio.

A investigação, segundo a Procuradoria, refere-se à segunda fase da construção da ferrovia para trens de alta velocidade que liga Meca a Medina, na Arábia Saudita, e que ficou conhecida como Ave do Deserto.

O caso veio à tona em 2018, quando Corinna Zu Sayn-Wittgenstein, ex-amante de Juan Carlos, vazou gravações que mostravam que o antigo rei havia cobrado propina pela concessão da licitação dos trens a um consórcio de empresas espanholas.

Juan Carlos era popular por seu papel na transição do país para a democracia no final dos anos 1970, após a derrocada do ditador Francisco Franco. Sua popularidade, no entanto, foi corroída por diversos escândalos que o forçaram a passar o trono para seu filho, o atual rei Felipe 6º.

Um dos escândalos polêmicos foi quando ele quebrou o quadril em uma caçada em Botsuana em 2012 durante um safári de luxo pago por um empresário saudita.

Ele estava acompanhado da ex-amante Corinna Larsen, em meio à crise econômica na Espanha. A imprensa divulgou os custos da viagem e criticou a falta de transparência da Casa Real.

Depois disso, houve um escândalo de corrupção que levou seu genro Iñaki Urdangarin à prisão.

Com a reputação abalada, Juan Carlos cedeu a coroa ao filho em 2014, antes de se aposentar da vida pública em 2019. A decisão veio após o jornal suíço La Tribune de Geneve informar que Juan Carlos havia recebido US$ 100 milhões (R$ 487 milhões) do falecido rei da Arábia Saudita.

O dinheiro estaria em contas de um banco suíço no Panamá —um paraíso fiscal. As suspeitas sobre sua fortuna cresceram nos últimos anos, decorrentes de seus laços com as monarquias do Golfo.

Antes das novas revelações deste ano, Felipe 6º procurou se distanciar de seu antecessor. Em março, anunciou que havia renunciado a qualquer herança de seu pai e encerrado a mesada paga pela Casa Real a Juan Carlos.

Segundo a imprensa espanhola, o valor desse subsídio somava mais de 194 mil euros por ano (cerca de R$ 1 milhão, em valores atuais).

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