Descrição de chapéu Governo Trump

Serviço postal dos EUA anuncia adiamento de cortes para depois das eleições

Medidas foram criticadas por democratas como forma de obstruir voto por correspondência

Washington | Reuters

O diretor do serviço postal dos EUA, Louis DeJoy, anunciou nesta terça (18) que postergará a realização de cortes no órgão para depois das eleições presidenciais, em novembro. A decisão ocorre após críticas de democratas, que pediram a abertura de uma investigação do FBI sobre obstrução do voto por correio.

DeJoy ordenou mudanças operacionais e uma redução na quantidade de horas extras que os funcionários do correio podem fazer, o que provocou acusações de que as medidas poderiam causar problemas e atrasos na votação a distância, favorecendo a reeleição de Donald Trump.

Caixas de correio do serviço postal americano em armazém em Hartford, no estado de Wisconsin
Caixas de correio do serviço postal americano em armazém em Hartford, no estado de Wisconsin - Brian Snyder - 16.ago.20/Reuters

O uso do voto por correio, comum entre membros das Forças Armadas em postos no exterior, deve aumentar nesta eleição devido à pandemia de coronavírus e a recomendação de autoridades de saúde para que aglomerações sejam evitadas. A Covid-19 já matou mais de 170 mil pessoas nos EUA.

Em 2016, 25% dos votos foram realizados dessa forma, e o próprio Trump votou assim. Os cortes propostos por DeJoy poderiam atrasar a entrega da correspondência e dificultar a contagem de votos.

Dois deputados democratas pediram nesta segunda (17) que o FBI, a polícia federal americana, apurasse a atuação do diretor do serviço postal sob a acusação de obstrução de voto. Também alegaram que DeJoy "tem interesses econômicos em várias entidades financeiras competidoras ou terceirizadas contratadas pela instituição".

Nesta terça, ao anunciar o recuo, o diretor disse que suspendeu as iniciativas "a fim de evitar qualquer suspeita de impactos na votação por correio". DeJoy é um conhecido doador de campanhas republicanas e já ofereceu US$ 2,7 milhões (R$ 14,7 milhões) para políticos do partido, incluindo Trump.

Ele também disse que não vai diminuir horários de funcionamento das agências nem reduzirá o número de caixas nas ruas para envio de cartas. O diretor alega que as medidas, que incluem cortes em viagens extras para coletar correspondências, têm o objetivo de aliviar a crise financeira da instituição, cujo prejuízo registrado no último semestre foi de US$ 2,2 bilhões (R$ 11,8 bilhões).

Trump vem questionando a votação por correspondência nas últimas semanas, levantando a possibilidade de fraude, ainda que não apresente provas que sustentem as declarações.

No fim de julho, sugeriu um adiamento do pleito para que as pessoas possam votar "de maneira adequada, segura e protegida", mas a retórica soa como uma nova vacina produzida por quem sabe que está em situação eleitoral bastante difícil. A sugestão foi criticada tanto por democratas quanto por republicanos.

Segundo levantamento do jornal The Washington Post, Trump atacou 70 vezes, desde o fim de março, o voto por correio, sempre em entrevistas, discursos ou em suas redes sociais —17 delas somente em julho.

O presidente é contra a inclusão de mais verbas para o serviço postal e para infraestrutura de votação em um pacote, em negociação no Congresso, de auxílio à economia devido à pandemia de coronavírus.

Em declarações nesta terça (18), o republicano disse que se os resultados demorarem a chegar o pleito teria de ser realizado pela segunda vez. "Vai acabar sendo uma eleição fraudulenta, ou eles nunca vão chegar a um resultado", disse Trump. "Vão ter que fazer de novo, e ninguém quer isso."

Nancy Pelosi, presidente da Câmara, que tem maioria democrata, reconvocou os congressistas de uma pausa para votar uma lei que proibiria cortes no serviço postal. A Casa deve voltar a funcionar neste sábado (22), interrompendo o recesso de verão no hemisfério norte, que costuma durar até setembro.

Democratas também convocaram DeJoy para participar de uma sessão na próxima segunda-feira (24) sobre a lentidão no serviço postal, uma empresa pública nos EUA. O diretor já vai depor ao comitê de Segurança Nacional do Senado, de maioria republicana, na sexta (21).

A obstrução de voto é um tema especialmente importante nos EUA. Nos anos 1960, parte das demandas do movimento de direitos civis era que negros pudessem ter acesso ao voto.

O direito era sistematicamente negado a eles por meio de táticas como testes de alfabetização, cobranças em frente às urnas ou exigências de que a pessoa tivesse antepassados que eram aptos a votar.

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