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Traficantes de pessoas aproveitam pandemia para criar novas rotas, diz diretor de ONG colombiana

Pornografia e fábricas podem aumentar demanda por trabalhos forçados em meio à crise, alerta Sebástian Arévalo

São Paulo

Enquanto muita gente está em casa devido à pandemia, grupos que atuam com o tráfico de pessoas aproveitam para criar novas rotas e formas de cooptar vítimas e enviá-las de um país a outro.

O diagnóstico é de Sebástian Arévalo, 26, diretor da ONG colombiana Pasos Libres, que atua no combate à prática. A organização colabora na construção da plataforma tecnológica Traffik Analysis Hub, que busca unir dados de várias fontes para mapear as rotas usadas pelos criminosos.

A ferramenta, desenvolvida com apoio da IBM, terá uma oficina de 29 de agosto a 4 de setembro. O encontro virtual é aberto a universitários, pesquisadores e entidades que queiram participar da criação de novas ferramentas de análise de dados relacionados ao tráfico humano. As inscrições vão até sexta (21).

Lançada no começo do ano, a plataforma TA Hub tem até agora 32 parceiros e 300 mil dados de origens diversas, como bancos, ONGs, depoimentos de vítimas e notícias de jornais para tentar relacionar informações e mapear estratégias usadas para aliciar pessoas e explorá-las em trabalhos forçados em áreas como agricultura, indústria, construção e serviços sexuais.

Trabalhadores deportados dos EUA passam por posto de controle em Ciudad Juarez, no México
Trabalhadores deportados dos EUA passam por posto de controle em Ciudad Juarez, no México - Jose Luiz Gonzalez - 14.jul.20/Reuters

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Como a pandemia tem afetado o tráfico de pessoas? A Covid-19 gera oportunidades para o crime organizado voltado ao tráfico de pessoas. O aumento do desemprego e da pobreza são fundamentais para os exploradores, pois as pessoas ficam mais vulneráveis e, assim, propensas a acreditar em falsas mensagens que prometem uma vida melhor, a técnica mais usada para atrair vítimas. Enquanto estamos em casa, os criminosos estão criando novas redes e formas de agir, segundo relatórios de entidades de direitos humanos. Mas ainda falta ter dados precisos sobre como isso está ocorrendo, e é o que buscamos identificar agora.

Que novas formas estão surgindo? Dados de sites e empresas de telefonia mostram que a pandemia levou a um aumento no acesso a páginas de pornografia. Em alguns desses sites, muito conhecidos, mas não muito bem regulados, qualquer pessoa pode subir conteúdo novo e ganhar dinheiro com isso. A produção desse material pode envolver exploração sexual, tanto de crianças quanto de adultos [caso as vítimas tenham sido trazidas de outro lugar para exploração sexual, o caso caracteriza tráfico de pessoas]. Queremos também enfatizar a busca por casos de trabalhos forçados em cadeias de produção. Muitas empresas estão tentando se recuperar economicamente à custa da exploração trabalhista de estrangeiros. Temos registros de casos assim na Austrália, na África e na Ásia.

Em que fase está o trabalho com os dados? Estamos agora reunindo informações sobre a Colômbia na ferramenta TA Hub, como notícias, relatórios da polícia, processos judiciais, investigações da promotoria e depoimentos de vítimas que foram resgatadas. Há também informações coletadas em campo de várias cidades, como clubes noturnos, prostíbulos, casas de massagens e outros relacionados à chamada indústria do sexo, na qual há situações de exploração.

Sebástian Arévalo, diretor da ONG colombiana Pasos Libres
Sebástian Arévalo, diretor da ONG colombiana Pasos Libres - Divulgação

Também estamos colocando informações sobre aeroportos e rotas de ônibus, com locais apontados como pontos de parada de grupos que atuam no tráfico de pessoas. Nos Estados Unidos, muitas informações obtidas no Texas estão sendo incluídas, como registros policiais e relatos de vítimas. Tudo isso será relacionado com fatores socioeconômicos, como pobreza, presença de grupos armados no território, zonas de mineração e de agricultura, para identificar pontos de atuação, como locais onde há recrutamento de pessoas, e locais que mantêm vítimas sob exploração.

E como usar esses dados para combater o problema? O desafio é criar ferramentas capazes de analisar esses grandes volumes de dados. Queremos unir todos os atores e criar formas para que possam compartilhar dados entre si. Juntar jovens e especialistas para criar um ecossistema de inovação aberta. Queremos atrair mais entidades, incluindo governo e empresas da América Latina, e também organizações do Brasil. A ferramenta TA Hub já é capaz de ler automaticamente documentos em inglês, mas não em espanhol ou em português. Estamos "treinando" ela para processar materiais também nessas línguas.

Quais são as próximas etapas? O primeiro desafio é criar modelos para tentar prevenir a ação do tráfico de pessoas em determinadas situações, como em momentos de alta na migração, em meio à Covid-19, a desastres naturais e grandes eventos esportivos. Queremos saber como prevenir isso, com base em dados. Relatórios de entidades apontam que, em meio a campeonatos mundiais, as taxas de tráfico de pessoas se elevam. Há denúncias gravíssimas de exploração laboral na construção de estádios. Nos mundiais, foi comprovado que há casos de exploração sexual. Muitos turistas vão em busca de serviços sexuais, e parte deles acaba indo a lugares onde as mulheres são exploradas. Outro ponto é criar uma estratégia para armazenar e compartilhar os dados de forma segura, respeitando a privacidade das vítimas.


Raio-X

Sebástian Arévalo, 26, é cofundador e diretor da ONG Pasos Libres, da Colômbia. É graduado em relações internacionais, embaixador da iniciativa One Young World e professor da disciplina Crime Organizado e Inovação na universidade Sergio Arboleda, em Bogotá.

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