Acusado de fraudar eleição, ditador da Belarus toma posse e elogia policiais

Governo não divulgou previamente data e horário da cerimônia; protestos voltaram a ser reprimidos com violência

Bruxelas

Eleito em um pleito considerado fraudado no mês passado, o ditador bielorrusso Aleksandr Lukachenko, 66, tomou posse na manhã desta quarta (23), em evento não anunciado previamente nem transmitido ao vivo, como haviam sido todas as posses presidenciais na Belarus desde o colapso da URSS, nos anos 1990.

Segundo a imprensa local, cerca de 700 convidados foram trazidos de ônibus, e data e hora do evento foram mantidas em segredo até mesmo de embaixadores e ministros.

A “cerimônia secreta” foi interpretada por analistas bielorrussos como uma forma de evitar protestos. Desde que foi anunciado o resultado oficial que deu ao ditador 80% dos votos, na noite de 9 de agosto, milhares de pessoas têm protestado todos os dias, pedindo a renúncia do ditador e a realização de novas eleições.

Homem de bigode, terno preto e gravata vermelha repousa a mão direita sobre a constituição ao lado de bandeira vermelha e verde
Aleksandr Lukachenko toma posse no Palácio da Independência, em Minsk - Reuters

Mais de 100 mil pessoas marcharam no último domingo (20), o sétimo seguido a concentrar manifestantes em várias cidades do país.

Lukachenko, no poder há 26 anos, disputou e venceu todas as eleições desde 1994. Só a primeira delas foi considerada livre e justa. Na posse, ele repetiu que não deixaria o cargo, como pedem tanto seus opositores quanto líderes da União Europeia.

“Não tenho o direito de abandonar os bielorrussos, que me confiaram não só o curso do Estado mas também o seu destino, o futuro dos seus filhos”, afirmou o ditador depois de fazer o juramento com a mão direita sobre a Constituição do país.

Ele agradeceu aos que “permaneceram leais ao país num período tão difícil para a Belarus e preservaram o bom senso diante da desorientação da sociedade” e elogiou as forças de segurança, “que mostraram firmeza, coragem e solidez”.

A menção aos policiais foi considerada uma afronta por opositores, que pedem a punição dos responsáveis por espancamentos, estupros e tortura durante a repressão aos protestos.

Mulher com sangue no rosto e curativo branco na cabeça
Manifestantes socorrem mulher que ficou ferida durante repressão a protesto contra a posse de Lukachenko em Minsk - Tut.by/AFP

Desde a noite da eleição, ao menos cinco morreram e há cerca de 500 casos documentados de tortura. O regime já fez mais de 10 mil detenções e estão na cadeia cerca de 250 presos políticos, segundo membros do conselho de coordenação, criado pela oposição para tentar negociar uma transição pacífica e novas eleições.

Nesta quarta (23), houve protestos em várias cidades no país contra a posse de Lukachenko, com prisões violentas —de acordo com a agência de notícias AFP, 150 pessoas foram detidas. A polícia antidistúrbios usou canhões de água contra milhares de manifestantes que se reuniram no centro de Minsk.

Também voltaram a ocorrer detenções de jornalistas: um repórter da agência russa Tass que estava perto do Palácio da independência foi levado pela polícia, o editor-chefe do site Nasha Niva foi preso sob acusação de difamação de um vice-ministro e um fotojornalista que registrou uma marcha feminina em Pinsk foi condenado a dez dias de prisão.

Apesar dos protestos que completaram 46 dias nesta quarta, Lukachenko afirmou que evitou que a Belarus realizasse uma revolução colorida (uma referência às que aconteceram em outros países pós-soviéticos como Ucrânia, Geórgia, Quirguistão e Armênia) e prometeu “devolver a república à vida segura que sempre existiu”.

‍Após a posse, os militares fizeram um juramento de lealdade ao povo e ao ditador.

Em resposta à cerimônia, a Alemanha, assim como os EUA, disse não reconhecer Lukachenko como o presidente devido à falta de "legitimidade democrática".

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