Brasil não deve escolher lado entre Washington e Pequim, diz ex-embaixador dos EUA

Para Thomas Shannon, diplomacia brasileira pode ajudar ambos os países a se entenderem melhor

São Paulo

O governo brasileiro precisa atuar de forma a manter as boas relações com os EUA e com a China, sem escolher um lado na disputa, avalia Thomas Shannon, embaixador americano no Brasil entre 2010 e 2013.

"Obviamente, as duas relações comerciais são importantes. A proeza para a diplomacia brasileira será manter essas duas relações e conseguir obter o máximo de coisas boas para o Brasil, sem gerar revolta ou danos ao relacionamento com nenhum dos lados", disse Shannon, em um debate virtual organizado pelo CEBC (Conselho Empresarial Brasil-China) na manhã desta quinta (24).

"O governo do presidente Bolsonaro tem sido muito claro no apoio aos EUA e em sua relação com o presidente Trump. Em seu discurso na [Assembleia Geral da] ONU, Bolsonaro deixou claro que o Brasil vai se engajar com países que não apenas trazem vantagens comerciais, mas que refletem os valores do Brasil. Foi uma mensagem significativa aos chineses", prosseguiu.

O ex-embaixador dos EUA no Brasil Thomas Shannon
O ex-embaixador dos EUA no Brasil Thomas Shannon - Pedro Ladeira - 17.dez.16/Folhapress

Shannon, que se aposentou da carreira de diplomata em 2018 e hoje atua como consultor, disse ainda que o Brasil pode ajudar ambos os países, que vivem uma espécie de Guerra Fria 2.0, a se entenderem melhor.

"A relação entre EUA e China depende muito de como os outros parceiros se relacionam com os EUA e com a China, e nisso o Brasil tem um papel muito importante, de ajudar os EUA a entenderem a importância da China em uma América do Sul globalizada, e de ajudar a China a entender a importância da democracia, do respeito aos direitos humanos e às regras e acordos internacionais", afirmou.

O ex-embaixador destacou que a percepção negativa sobre o país asiático cresceu rapidamente nos últimos anos nos Estados Unidos e atualmente atinge cerca de 60% da população do país. "Essa visão ruim da China limita o que [o candidato democrata] Joe Biden poderá fazer, caso vença."

O índice citado por Shannon encontra ressonância em pesquisas —e em patamar ainda mais elevado. De acordo com levantamento realizado pelo Instituto Pew e divulgado no fim de julho, 73% dos americanos afirmam ter uma visão desfavorável do país asiático.

"A China se tornou uma questão importante na campanha de Trump. Ele deixou muito claro no discurso na ONU que os EUA a veem como uma potência que precisa ser ao menos constrangida", afirmou. "E outros nomes do Partido Republicano, que podem ser candidatos à Presidência em 2024, como Mike Pompeo, Nikki Haley, Ted Cruz, Tom Cotton, Marco Rubio, também têm fortes plataformas anti-China".

Shannon lembrou que Trump iniciou o mandato, em 2017, tentando uma aproximação pessoal com o dirigente chinês, Xi Jinping, num movimento que envolveu as conversas de paz com a Coreia do Norte. Entretanto, as relações diplomáticas se esgarçaram e as disputas comerciais se tornaram o ponto central.

"Há uma divisão no governo Trump: um grupo vê o comportamento da China como predador e perigoso, mas como algo que pode ser mudado com o tempo. Eles reconhecem a importância econômica das relações entre os dois países e não querem gerar danos à economia chinesa", analisa.

"Já outros acreditam que se trata de um país implacável e que a única salvação para os EUA é se afastar e arruinar a China, econômica e tecnologicamente, de modo que ela não possa se recuperar rapidamente."

Apesar da tensão atual, o ex-diplomata avalia que a relação entre as potências não está fadada ao conflito. "Minha visão pessoal é que a ideia de separar [as relações econômicas] é loucura. Somos tão conectados que não pode haver um afastamento. O sucesso econômico dos dois países está interligado."

Shannon começou a carreira como diplomata nos anos 1980. De 1989 a 1992, serviu pela primeira vez no Brasil. Depois, de 2010 a 2013, foi embaixador dos EUA em Brasília, nomeado por Barack Obama.

A relação entre os dois países viveu um crise naquele período: a revelação de que o governo dos Estados Unidos espionou conversas da então presidente Dilma Rousseff. Em resposta, a petista adiou uma visita que faria a Washington. Shannon deixou o cargo de embaixador pouco depois da revelação do escândalo.

Durante sua gestão à frente da embaixada, a cooperação com autoridades dos Estados Unidos ajudou a Operação Lava Jato a avançar em investigações sobre corrupção que envolviam empresas brasileiras.

Após deixar o cargo no Brasil, Shannon se tornou conselheiro do Departamento de Estado. Ao se aposentar, no começo de 2018, era o número três na hierarquia da instituição, responsável pela diplomacia dos EUA. Atualmente, trabalha como consultor de relações internacionais em um escritório de advocacia.

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