Caso de paraquedista do Missouri ajudou a pavimentar decisão que protege comunidade LGBT

Estado recebeu pior classificação em relatório anual que detalha leis e políticas estaduais favoráveis a minorias sexuais

São Paulo

Cinquenta dias antes da eleição americana, a Folha passa a publicar a série de reportagens “50 estados, 50 problemas”, que se debruça sobre questões estruturais dos EUA e presentes na campanha eleitoral que decidirá se Donald Trump continua na Casa Branca ou se entrega a Presidência a Joe Biden.

Até 3 de novembro, dia da votação, os 50 estados do país serão o ponto de partida para analisar que problemas o próximo —ou o mesmo— líder americano terá de lidar.

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Pouco antes de completar 30 anos, Don Zarda revelou à família que era gay. Na mesma época, o americano nascido em um subúrbio de Kansas City, no conservador estado do Missouri, descobria a paixão pelo paraquedismo, primeiro de forma amadora e depois como profissional.

Como instrutor da escola Altitude Express, em Long Island, no estado de Nova York, Zarda saltava acoplado a novatos. Em determinada ocasião, em 2010, uma aluna não estava à vontade com o contato físico, e ele disse a ela que era gay, com a intenção de deixá-la mais confortável.

Após o salto, o namorado da mulher ligou para a escola e fez uma reclamação. A aluna também afirmou que o professor a tinha tocado de maneira inapropriada durante o salto —o que nunca foi confirmado.

Ativista com bandeira símbolo da comunidade LGBT em frente à Suprema Corte americana, em Washington
Ativista com bandeira símbolo da comunidade LGBT em frente à Suprema Corte americana, em Washington - Chip Somodevilla - 15.jun.20/Getty Images/AFP

Zarda foi demitido e processou o empregador por discriminação sexual, alegando que a empresa tinha violado seus direitos e o despedido por ser gay.

O episódio foi o começo de uma batalha legal que se arrastaria por dez anos e se tornou um dos casos que impulsionariam a Suprema Corte dos EUA a tomar uma decisão histórica.

Em junho deste ano, o colegiado deliberou que homossexuais e transexuais não podem sofrer discriminação no ambiente de trabalho, afetando positivamente a vida de 11 milhões de americanos.

Foi uma grande vitória para o movimento LGBT, que há anos luta na Justiça para que pessoas não sejam demitidas ou penalizadas por sua orientação sexual ou identidade de gênero.

A decisão surpreendeu, pois veio de uma corte majoritariamente conservadora, e contou com o voto de Neil Gorsuch, juiz indicado pelo presidente Donald Trump.

O Missouri, onde Zarda nasceu, está longe de ser um porto seguro. No relatório anual da organização Human Rights Campaign, que detalha leis e políticas estaduais favoráveis a minorias sexuais, recebeu a pior classificação, assim como Geórgia, Michigan, Nebraska, Flórida e outros 24 estados.

Isso se deve à ausência de leis claras que protejam a discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero, embora 17 cidades no estado tenham legislação própria neste sentido, a exemplo de St. Louis e Kansas City —em cada uma delas, 3,6% da população se identifica como LGBT, um dos índices mais baixos dos EUA, segundo pesquisa do instituto Gallup de 2015.

Em paralelo, há diversas organizações que lutam há 22 anos pela aprovação do MONA, sigla em inglês para Ato de Não Discriminação do Missouri, que pretende deixar as garantias a pessoas LGBT explícitas na lei —pauta comum também a outros estados, como o vizinho Kansas.

A batalha promete se estender, pois no atual ano legislativo do Missouri, que terminou em maio, foram apresentados 19 projetos de leis anti-LGBT. As pautas visam reverter o direito de casamento entre pessoas do mesmo sexo, atacam o acesso de jovens transgêneros a cuidados de saúde e tentam impedir a prática de esportes por crianças trans e dificultar a troca de gênero em documentos de identidade.

Nenhuma delas avançou.

Na corrida presidencial, Joe Biden —que apoiou a recente decisão do Supremo e se posiciona publicamente a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo— se coloca ao lado da comunidade LGBT. Promete lutar para que leis e instituições protejam minorias sexuais e de gênero.

Segundo o site da campanha do democrata, o ex-vice-presidente propõe expandir o acesso a cuidados de saúde para essas minorias e diz que trabalhará para acabar com a violência contra transgêneros, sobretudo mulheres negras, além de garantir tratamento justo para pessoas LGBT no sistema de Justiça.

O republicano Donald Trump, que concorre à reeleição, por outro lado, não apresentou nenhuma proposta para minorias sexuais e de gênero, embora seu site oficial conte com uma seção na qual é possível ver os conselheiros do atual presidente para questões LGBT.

Durante seu mandato, Trump revogou um memorando da era Obama que orientava escolas a proteger de discriminação alunos trans e proibiu que pessoas dessa minoria pudessem servir no Exército. Em 2018, o governo decidiu que prisioneiros trans deveriam ser alojados segundo o sexo designado no nascimento.

Zarda, o paraquedista, não viveu para ver a decisão histórica do Supremo. Depois da demissão, ele se apaixonou pelo “base jump”, esporte que consiste em saltar de paraquedas de lugares como pontes, antenas e penhascos. Morreu ao fazer um salto malsucedido em 2014.​

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