Cristofobia citada por Bolsonaro em discurso na ONU contradiz dados brasileiros

No Brasil, maioria dos casos de intolerância religiosa tem como alvo crenças afrobrasileiras

São Paulo

Em seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (22), o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez um apelo à comunidade internacional “pela liberdade religiosa e pelo combate à cristofobia”, sem especificar onde esses problemas seriam fonte de preocupação. Caso se referisse ao Brasil, o presidente seria contrariado por dados do próprio governo.

O balanço mais recente divulgado pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos apontou que pelo menos 30% das denúncias de intolerância religiosa no país foram registradas por adeptos de religiões de matrizes africanas. É bastante provável que o número real seja maior, uma vez que 51,5% das denúncias recebidas não identificam a crença da vítima.

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) grava o seu discurso para a Assembleia Geral da ONU
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) grava o seu discurso para a Assembleia Geral da ONU - Divulgação/Marcos Correa/PR

Um relatório do Centro de Promoção da Liberdade Religiosa e Direitos Humanos apontava uma proporção bem maior: de 1.014 casos registrados entre abril de 2012 e agosto de 2015, os adeptos dessas religiões seriam 71% das vítimas de intolerância.

Outro documento, elaborado pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, registrou 200 casos de intolerância contra religiões de matrizes africanas nos primeiros nove meses de 2019. O número mais que dobrou: no ano anterior, foram 95.

De acordo com o censo de 2010, apenas 558 mil pessoas —ou 0,3% da população— se identificavam como praticante de umbanda ou candomblé.

As denúncias que tiveram cristãos como alvo foram 13,6% em 2018. Segundo o IBGE, 87% dos brasileiros se identificavam como cristãos em 2010. Numa pesquisa do Datafolha realizada em 2016, essa porcentagem caía para 79%. Ainda que cristãos sejam maioria, a declaração do presidente no discurso —de que “o Brasil é um país cristão e conservador”— fere o princípio constitucional do Estado laico.

Em outros países, a perseguição sistemática a cristãos é um problema real. Segundo a ONG americana Open Doors, 260 milhões de cristãos no mundo residem em países nos quais são minoria perseguida.

Em 2019, diz a entidade, 2.983 cristãos foram mortos por razões relacionadas à fé, e 9.488 igrejas ou construções relacionadas de alguma forma ao cristianismo sofreram algum tipo de ataque.

Os países mais cristofóbicos, segundo a ONG, são a Coreia do Norte —onde o Estado é oficialmente ateu e reprime práticas religiosas não autorizadas—, o Afeganistão —onde é ilegal deixar o islamismo— e a Somália. A maior parte dos 50 países nos quais a perseguição a cristãos é considerada preocupante está no norte da África, no Oriente Médio e no sudeste asiático.

Na América Latina, o único país citado no relatório é a Colômbia. Ainda que lá a proporção de cristãos seja ainda maior do que no Brasil (95%), há registros de violência vinda de facções criminosas contra grupos missionários envolvidos em missões de paz.

Os Emirados Árabes Unidos, que receberam um aceno de Bolsonaro no discurso na ONU, são considerados cristofóbicos pela ONG, ocupando a 47ª posição de 50. Lá, o proselitismo e a conversão são proibidos. Os cidadãos não podem mostrar publicamente cruzes e outros símbolos cristãos, e as mulheres muçulmanas não podem se casar com homens de outras religiões.

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.