Descrição de chapéu The Wall Street Journal Eleições EUA 2020

Em política externa, Trump e Biden concordam sobre China e divergem sobre Irã

Republicano questiona alianças dos EUA, enquanto rival quer reconstruir relacionamentos

Warren Strobel Michael Gordon
Washington | The Wall Street Journal

O presidente dos EUA, Donald Trump, e seu rival democrata, Joe Biden, têm diferenças profundas em áreas chaves da política externa dos EUA, mas suas posições são semelhantes em relação a algumas metas importantes, incluindo limitar o envio de tropas ao Oriente Médio e ao Afeganistão.

Nas últimas semanas da campanha, Trump vem procurando ressaltar suas credenciais na área da política externa. Em um prazo curto, direcionou acordos entre Israel e dois países árabes do Golfo; ajudou a lançar negociações de paz no Afeganistão, reduziu as tropas americanas no Iraque e no Afeganistão e pressionou por um acordo de controle de armas com a Rússia.

Soldado americano participa de ofensiva de tropas iraquianas contra o grupo terrorista Estado Islâmico em Mosul, em 2017
Soldado americano durante ofensiva de tropas iraquianas contra o grupo terrorista Estado Islâmico em Mosul, em 2017 - Mohamed el-Shahed - 21.jul.17/AFP

Biden, que tem décadas de experiência internacional como ex-senador e ex-vice-presidente, critica Trump por enfraquecer as alianças dos EUA, fortalecer laços do país com ditadores e não conter o programa nuclear iraniano, depois de retirar os EUA de um acordo com Teerã negociado em 2015, quando Biden era vice na Presidência de Barack Obama.

A visão que cada um tem das alianças americanas “é a maior e mais importante diferença entre os dois candidatos, superando até mesmo as posições divergentes sobre clima, programa nuclear iraniano e manutenção de níveis mínimos de tropas americanas no Iraque, Síria e Afeganistão”, disse o almirante da reserva James Stavridis, ex-comandante da Otan.

Alianças dos EUA

Biden escreveu na revista Foreign Affairs que Trump “menosprezou, prejudicou e, em alguns casos, abandonou aliados e parceiros dos EUA”, enfraquecendo a posição mundial dos Estados Unidos.

O ex-vice-presidente assinalou que, se for eleito, vai cerrar fileiras com os aliados da Otan. Ele criticou a decisão de Trump de retirar quase 12 mil tropas americanas da Alemanha e prometeu revê-la. Biden já disse que pretende voltar para pactos internacionais como o Acordo de Paris sobre a mudança climática.

Trump tem sido cético em relação às alianças formadas por Washington no pós-Segunda Guerra Mundial, encarando os membros da Otan como concorrentes econômicos que deveriam pagar significativamente mais por sua própria defesa.

Ele pressionou o Japão e a Coreia do Sul a pagarem mais para reembolsar os EUA pela presença de tropas nesses países. Ele avisou que retiraria o país do acordo de Paris no ano passado, dizendo que o tratado penaliza trabalhadores americanos injustamente.

Irã e Coreia do Norte

Trump e Biden divergem fortemente em relação a como conter o programa nuclear iraniano. Biden defende o retorno ao acordo nuclear de 2015 fechado com o Irã, sob a condição de que Teerã também respeite os termos do acordo, cujos limites quanto ao enriquecimento de urânio foram ultrapassados após a decisão de Trump de retirar os EUA do pacto.

Biden já disse que procurará negociar um segundo acordo mais intransigente, mas não deu detalhes.

Trump, se for reeleito, deve continuar sua campanha de pressão econômica máxima. Mas as condições que definiu para um novo acordo —o fim de todo enriquecimento nuclear e um recuo iraniano na região— foram rejeitadas por Teerã.

A Coreia do Norte parou de se reunir com negociadores americanos, e nenhum dos dois candidatos explicou publicamente como buscará induzir Pyongyang a se desfazer de suas armas nucleares. Biden diz que continuará a coordenar a ação dos EUA com a China e outros países para negociar a eliminação das armas nucleares norte-coreanas.

Trump teve duas reuniões de cúpula com o líder norte-coreano Kim Jong-Un, mas não conseguiu persuadir Pyongyang a abrir mão de seu arsenal nuclear e seus mísseis de longo alcance.

A Rússia e o controle de armas

Tanto Trump quanto Biden se dizem a favor do controle de armas, mas as estratégias que delinearam são diferentes.

Trump quer um acordo nuclear provisório neste ano com a Rússia que defina em termos gerais os objetivos de um futuro tratado que cubra todas as ogivas nucleares e preveja verificações rigorosas.

Se a Rússia concordar, Trump estenderá o tratado Novo Start, cuja vigência se encerra em fevereiro. A exigência de mais longo prazo de Trump é que a China participe de um novo tratado, ao lado de Washington e Moscou.

Joe Biden diz que sua meta é reduzir o papel das armas nucleares na doutrina militar dos EUA. Ele defende uma extensão do Novo Start como base para a definição de um novo acordo.

Tropas dos EUA no exterior

Biden diz que, se for eleito, trará para casa a maior parte das tropas americanas no Afeganistão e no Oriente Médio, concentrando atenções sobre a missão de combater a Al Qaeda e o Estado Islâmico.

Trump diz que quer uma retirada completa do Afeganistão. As tropas americanas nesse país, que em fevereiro chegavam a cerca de 13 mil, devem ser reduzidas para 4.300 até o outono americano deste ano.

Nenhum dos dois candidatos anunciou seus planos de longo prazo para as tropas americanas no Iraque e na Síria.

Oriente Médio

As relações com a Arábia Saudita serão muito mais frias sob uma Presidência de Joe Biden, se ele aderir a seu discurso de campanha.

Biden prometeu acabar com as vendas de armas americanas a esse país e disse no ano passado ao think tank Council on Foreign Relations que vai “ordenar uma reavaliação de nosso relacionamento com a Arábia Saudita”, citando a guerra saudita no Iêmen e o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em 2018.

Trump apoia fortemente a Arábia Saudita e seu príncipe herdeiro, Mohammed bin Salman, que encara como aliado estratégico contra o Irã. Ele ignorou uma conclusão da inteligência americana de que foi provavelmente o príncipe Mohammed quem ordenou o assassinato de Khashoggi e vetou tentativas do Congresso de limitar as vendas de armas a Riad.

Biden há muito tempo se define como apoiador forte de Israel e promete ajudar esse país a conservar sua liderança militar. Ele defende a chamada solução de dois Estados para encerrar o conflito israelo-palestino e desaconselhou a anexação de partes da Cisjordânia por Israel.

Trump, que em 2018 transferiu a embaixada dos EUA de Tel Aviv a Jerusalém, propôs um acordo de paz no Oriente Médio que dará aos israelenses os termos e o território que eles buscam há muito tempo, ao mesmo tempo em que prevê um Estado palestino sob condições rejeitadas pelos palestinos.

China

Um dos poucos pontos de concordância bipartidária em Washington diz respeito à necessidade de adotar posição mais dura em relação à China. A despeito disso, cada uma das campanhas lançou anúncios na TV criticando o histórico de atuação da outra. Tanto Trump quanto Biden prometem uma resposta forte a Pequim, mas seus métodos diferem.

Sob Trump, algo que começou como guerra comercial se converteu em um confronto em várias frentes, com Washington combatendo a espionagem chinesa, adotando medidas contra suas empresas de alta tecnologia e retaliando iniciativas chinesas de acabar com a autonomia de Hong Kong.

Biden já disse que concorda em relação ao desafio representado pela China e descreveu Xi Jinping como gângster. Mas classificou a guerra comercial lançada por Trump como errática e enfatizou a necessidade de coordenar uma resposta aliada às práticas comerciais de Pequim.

Tradução de Clara Allain

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