Descrição de chapéu Governo Trump China

EUA agravam crise entre China e Taiwan com nova visita de autoridade

Pequim enviou aviões militares em advertência; Washington pode vender mais armas à ilha

São Paulo

A crise entre China e Taiwan, ilha que o país asiático considera uma província rebelde, agravou-se nesta quinta (17) com a chegada de mais uma alta autoridade americana à república insular.

O Ministério das Relações Exteriores chinês afirmou que "dará uma resposta necessária" à visita de Keith Krach, subsecretário de Estado para Assuntos Econômicos. Ele chegou à ilha nesta quinta e ficará três dias, encontrando-se com a presidente Tsai Ing-wen.

Krach é a mais alta autoridade do Departamento de Estado, o Itamaraty americano, a visitar Taiwan desde que os EUA reconheceram a China comunista —de forma ambígua, dando suporte à pretensão territorial de Pequim sobre Taipé, mas ao mesmo tempo fornecendo armas para a ilha.

O subsecretário Keith Krach (primeiro da fila, de máscara) chega ao aeroporto de Taipé
O subsecretário Keith Krach (primeiro da fila, de máscara) chega ao aeroporto de Taipé - Pei Chen/Pool via AFP

Em agosto, o governo de Donald Trump já havia despachado o secretário de Saúde, Alex Azar, para aquela que seria a visita de mais alto nível desde 1979. Na ocasião, a China fez uma ameaça militar direta a Taiwan, e dois caças seus chegaram a ficar na mira de baterias antiaéreas da ilha.

A fórmula foi repetida nesta quarta (16), véspera da chegada de Krach. Dois aviões de patrulha marítima Y-8 chineses voaram até a porção sudoeste da Adiz (sigla inglesa de Zona de Identificação de Defesa Aérea) de Taiwan e deram meia-volta.

A Adiz é uma área que vários países estabelecem, além de seu espaço aéreo, para identificar aeronaves suspeitas que se dirijam a seu território. Os EUA usualmente testam a rapidez de reação dos chineses em sua própria Adiz.

Caça taiwanês dispara iscas incandescentes para despistar míssil em treino para invasão chinesa
Caça taiwanês dispara iscas incandescentes para despistar míssil em treino para invasão chinesa - Ann Wang - 16.jul.2020/Reuters

"A China vai dar a resposta necessária dependendo de como a situação evoluir. Nós pedimos ao lado americano que reconheça a extrema sensibilidade da questão de Taiwan", afirmou Wang Wenbin, do Ministério das Relações Exteriores.

Krach tem a missão, segundo relatos da mídia de Taiwan, de tentar azeitar um acordo de livre comércio entre a ilha e os EUA —algo a que a China obviamente se opõe. Poderá deixar Taipé no mínimo com o fim da restrição à compra de carne suína e bovina dos EUA, como Tsai prometeu.

Taiwan é um dos problemas mais complexos para a ditadura chinesa. A política oficial é a de reabsorver a ilha, que concentrou os derrotados pelos comunistas em 1949, pacificamente, mas a guerra nunca foi descartada.

Ela é considerada uma impossibilidade neste momento, e talvez nos próximos anos, devido ao alto grau de proteção militar em Taiwan —a China poderia ou não conseguir tomá-la à força, ou sofrer baixas inaceitáveis no processo, que incluiria evitar danos civis excessivos.

Além disso, documentos que tiveram o sigilo levantado recentemente mostram o que se sabia: os EUA estão comprometidos, ao fim, com a defesa da ilha contra uma invasão, apesar de reconhecer que ela faz parte da China.

Ao mesmo tempo, os chineses têm aumentado o número de exercícios militares que simulam talvez não uma invasão, mas a tomada de alguma das ilhas e ilhotas controladas por Taiwan do estreito que leva seu nome até o disputado mar do Sul da China.

O governo taiwanês, como seria de se esperar, diz aguardar uma invasão. Mas mesmo o relato alarmista do Departamento de Defesa dos EUA ao Congresso sobre as capacidades militares da China considera a hipótese remota.

Assim, apesar de não comentar, a China não deve ter gostado nada da informação de que os EUA estão dispostos a vender mais armas sofisticadas para a ilha. Segundo a agência de notícias Reuters publicou na quarta, isso incluiria drones armados e mísseis de cruzeiro para interditar o estreito de Taiwan.

Se concretizada, a compra de US$ 7 bilhões (R$ 36 bilhões) elevaria para US$ 22 bilhões (R$ 115 bilhões) o valor de aquisições bélicas americanas feitas por Taiwan desde 2017. Nos dez anos anteriores, o acumulado era de US$ 14 bilhões (R$ 72 bilhões).

Isso sem contar um megacontrato fechado em agosto para a compra inicial de 90 unidades da mais recente versão do caça F-16, que pode chegar a astronômicos US$ 62 bilhões (R$ 325 bilhões) em até dez anos.

Com tudo isso, Trump deixou a política mais acentuadamente dúbia das últimas décadas e integrou a ilha ao rol de itens de seu contencioso com o regime comandado por Xi Jinping.

É um assunto ainda mais explosivo do que os já complicados temas da autonomia de Hong Kong e a pretensão de Pequim sobre as águas do mar do Sul da China, ambas alvos diretos de Trump em sua Guerra Fria 2.0.

Ao fim, o que o americano quer é barrar o crescimento comercial e político chinês, tanto que a disputa iniciada em 2017 tem grande foco em guerras tarifárias e tecnológicas —nessa última frente, os EUA têm tido sucesso em barrar a expansão da gigante Huawei em mercados da tecnologia 5G.

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