Grupos antiditadura pulverizam protestos para driblar repressão na Belarus

Polícia cercou centro de Minsk e prendeu ao menos 400 neste domingo no país; grupo de hackers ameaça sites do regime

Bruxelas

Apesar do grande número de tropas nas ruas de Minsk neste domingo, repressão violenta no final da tarde e ao menos 400 prisões, dezenas de milhares de bielorrussos protestam contra a ditadura, no 36º dia seguido de manifestações na Belarus.

O ditador Aleksander Lukachenko reforçou o número de tropas na capital, o que reduziu o efetivo em outras cidades do país, onde o número de protestos cresceu. Houve marchas em 17 locais, segundo o governo.

Em Minsk, os manifestantes alteraram rotas para desviar dos bloqueios policiais em direção ao centro e fizeram atos menores pela cidade, segundo relatos feitos à Folha por telefone e rede social.

A partir das 15h, a internet começou a falhar na capital. A agência oficial afirmou que a largura de banda da internet móvel foi reduzida, o que dificulta a transmissão de dados e pode interromper o serviço.

A repressão usou arame farpado para isolar ruas em Minsk e canhões d'água para dispersar manifestantes em várias cidades do interior.

Em Zhodzino, um policial bateu no rosto de uma mulher com tanta força que ela caiu no chão, provocando revolta nos que participavam do protesto.

Além das marchas nos finais de semana, os bielorrussos têm feito "protestos internos" nos pátios e jardins comuns dentro de superquadras de prédios de apartamento.

Há campanhas inusitadas, como pendurar de forma alternada peças de roupa vermelha e branca —uma foto com três calcinhas formando a bandeira antiditadura viralizou nas redes sociais.

Brinquedos dos parquinhos, cercas e bancos de jardim são pintados de branco e vermelho, cores da bandeira histórica, que virou símbolo da oposição à ditadura.

No bloco de Sônia (que preferiu não dizer o sobrenome), em um bairro de Minsk, fitas brancas e vermelhas foram amarradas por toda a extensão do jardim interno.

Cartazes com críticas ao ditador Aleksandr Lukachenko e frases de apoio aos manifestantes também são comuns. “Nosso movimento não tem líderes. Nós somos a rua” e “Três cabeças surgirão a cada cabeça cortada” são algumas delas.

A violência crescente do governo contra as mulheres começou a provocar reações femininas. Em alguns pontos, elas arrancaram máscaras dos policiais e investiram contra eles para tentar impedir que manifestantes fossem arrastadas para dentro dos camburões. ​

Uma das figuras mais ativas nessa luta contra as detenções é a ativista Nina Bahinskaia, 73, que ficou conhecida como a “bisavó dos protestos”.

Apesar das reações, foram detidas 114 pessoas (99 na capital) no sábado, segundo o governo.

Algumas manifestantes trocaram flores e fitas por panelas e frigideiras. “Quanto mais eles tentarem nos calar, mais barulho faremos”, disse Sônia.

As manifestantes também pediam a libertação de Maria Kalesnikava, líder da oposição detida desde 8 de setembro, quando frustrou uma tentativa da ditadura de tirá-la à força do país.

Ao menos dois jornalistas, da TV Belsat, foram detidos no sábado. Desde o começo dos protestos, policiais têm levado repórteres mesmo que eles estejam credenciados e identificados.

À noite, um grupo de hackers soltou um comunicado ameaçando invadir o sistema da Receita da Belarus se houvesse repressão no domingo.

“Se pelo menos um manifestante for detido em 13 de setembro de 2020, a Belarus vai esquecer o que são os impostos até que as prisões parem e Lukachenko deixe seu posto”, disse o comunicado.

Na semana passada, hackers invadiram o site do Ministério do Interior, responsável pela segurança no país, e estamparam mensagens de apoio aos oposicionistas.

No novo comunicado, prometeram uma resposta “dolorosa” ao governo: “Primeiro vai cair o sistema tributário, depois vai acabar a eletricidade no país, depois vai cair o sistema bancário”.

Eles também exigiram que Lukachenko pedisse desculpas pessoalmente, por alto falante, à população.

Em entrevista publicada pelo jornal britânico Financial Times, o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, disse que o bloco está “engolfado pelas chamas, da Líbia à Belarus”. Segundo ele, as sanções a responsáveis por fraude eleitoral e repressão violenta no país vizinho devem ser decididas até o dia 21.

A inclusão de Lukachenko na lista dos punidos, no entanto, ainda não está definida, segundo ele.

Nesta segunda, o ditador bielorrusso deve se reunir em Moscou com o presidente da Rússia, Vladimir Putin. Lukachenko quer que o governo russo o ajude a acabar com os protestos, o que pode lhe custar maior dependência e integração aos planos de Putin. ​

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