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Guerra no Cáucaso é cadáver insepulto do ocaso soviético e opõe Rússia à Turquia

Pode parecer distante, mas conflito em Nagorno-Kabarakh ocorre em território europeu

São Paulo

Há uma guerra em formação na Europa. Não se trata, claro, daquilo com que o Ocidente costuma chamar de Velho Continente: é uma disputa numa empobrecida zona de transição entre o mundo europeu e o asiático a que ocorre neste momento em Nagorno-Kabarakh.

Mais do que isso, ela liga simbolicamente um cadáver insepulto da dissolução da União Soviética a uma das relações geopolíticas mais complexas do mundo, entre a Rússia de Vladimir Putin e a Turquia de Recep Tayyip Erdogan.

Vídeo do Ministério da Defesa armênio mostra suposto veículo blindado azeri destruído
Vídeo do Ministério da Defesa armênio mostra suposto veículo blindado azeri destruído - Ministério da Defesa da Armênia/AFP

A história de Nagorno-Kabarakh remonta ao começo do século 20, quando a Primeira Guerra Mundial (1914-18) viu desorganizada toda a arquitetura mundial baseada em impérios. O Russo morreu em 1917 com as duas revoluções que pariram a União Soviética em 1922, e o Otomano foi retalhado em 1920.

Ambos disputavam a região do Cáucaso há séculos, alternando controles territoriais. Após muita confusão, os soviéticos estabeleceram controle sobre a área, vital devido à bacia de hidrocarbonetos do mar Cáspio e pelo controle de navegação no mar Negro.

Sob o manto do império comunista, as tensões foram relativamente controladas, e a colcha territorial, mantida. Nagorno-Kabarakh era um pedaço de maioria armênia no Azerbaijão, assim como Naktchivan era uma região azeri encravada na Armênia.

Em 1988, inspirados pela abertura dos anos de Mikhail Gorbatchov à frente da União Soviética (1985-1991), os armênios de Nagorno-Kabarakh passaram a defender sua independência. O desmantelamento da ditadura comunista levou isso a acontecer de fato em 1991.

A bagunça degenerou, diferentemente do que ocorreu em locais como os Estados Bálticos, numa guerra em que morreram cerca de 17 mil pessoas de 1992 a 1994, enquanto Armênia e Azerbaijão se formava como países independentes.

O resultado foi um cessar-fogo precário, com o governo de Nagorno-Karabakh autônomo na prática.

No meio tempo, a velha rivalidade russo-turca se colocou. O genocídio armênio de 1915 colocou o governo de Ierevan automaticamente contrário ao de Ancara, que nega ter havido tal crime por parte dos otomanos, enquanto o de Baku buscou alinhar-se com seus colegas muçulmanos turcos.

Essas linhas étnico-confessionais só fizeram recrudescer ao longo dos anos, com a ortodoxia cristã armênia cada vez mais próximo da russa.

Houve ao longo dos anos escaramuças fronteiriças aqui e ali, e o estreitamento das alianças de lado a lado —em especial entre russos e armênios. Moscou tem 3.000 soldados em uma base militar no país vizinho e forneceu equipamento sofisticado, como mísseis balísticos Iskander-M, a Ierevan.

Em julho deste ano, as tensões voltaram a ficar altas, com mortes na região e ameaças bizarras: os azeris disseram que poderiam bombardear a central nuclear de Mestamor, que fornece um terço da energia do país vizinho, enquanto relatos davam conta de que Ierevan poderia destruir a represa de Mingatchvir e inundar parte do Azerbaijão.

Economicamente, Baku está muito à frente de Ierevan. É um centro de produção de óleo e gás, e tem um pé na vida europeia —até sediava um GP de Fórmula 1, não por acaso chamado de Grande Prêmio da Europa, antes da pandemia.

Se os conflitos escalarem para uma guerra aberta, estarão na linha Putin e Erdogan. Os dois líderes têm uma relação complexa, que alterna parcerias de ocasião que dão certo na área energética com quase desastres, como o momento em que as forças militares de ambos os presidentes estavam em lados opostos na guerra civil da Síria.

Obviamente, esses interesses e a posição ao lado tanto da Armênia quanto do Azerbaijão levam a crer que turcos e russos irão trabalhar por um acordo. Mas é notável que Putin tenha pedido comedimento após ser chamado ao telefone pelo premiê armênio. Eles estão do mesmo lado.

Rússia e Turquia se estranham também na Líbia, onde apoiam lados opostos na guerra civil local, e esse ativismo todo passa pelo desengajamento crescente dos Estados Unidos na sua política externa que não envolva a China e na impotência europeia.

O problema é que a Turquia, mesmo sendo uma cliente militar de Moscou em sistemas antiaéreos sofisticados, para ranger de dentes nos EUA, é um membro da Otan (aliança militar ocidental).

Isso sempre gera arrepios em planejadores geopolíticos ao analisar os riscos de conflito direto nas periferias onde seus interesses se chocam aos de Putin.

Na última escalada no Cáucaso, Putin respondeu com uma mobilização surpresa de 150 mil homens. Neste fim de semana, acabaram as maiores manobras conjuntas do ano, que tinham forças armênias mas não azeris, justamente no Cáucaso.

Os 80 mil soldados frescos de jogos de guerra ainda não foram para casa, e podem ser um elemento de dissuasão para Moscou. Só que isso não foi suficiente na última vez.

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