Descrição de chapéu The New York Times racismo

Justiça de Louisville indicia apenas um dos três policiais envolvidos na morte de Breonna Taylor

Decisão provocou nova onda de protestos em diferentes cidades americanas; dois agentes são baleados

Rukmini Callimachi
Louisville (EUA) | The New York Times

A Justiça indiciou um ex-policial de Louisville nesta quarta-feira (23) por exposição de cidadão a risco injustificado durante uma operação antidrogas que levou à morte da jovem negra Breonna Taylor, em março. Nenhuma acusação foi anunciada contra outros dois policiais que dispararam durante a ação.

A tripla acusação é feita contra Brett Hankison, na época um detetive, que atirou contra a porta de vidro do quintal e contra a janela do prédio de Breonna, ambos cobertos com persianas, violando uma regra do departamento de polícia que exige que os agentes tenham uma linha de visão.

Policiais empurram manifestantes que protestam contra a morte de Breonna Taylor, em Louisville
Policiais empurram manifestantes que protestam contra a morte de Breonna Taylor, em Louisville - Brandon Bell/Getty Images/AFP

Ele é o único dos três oficiais que foi demitido da polícia, com uma carta de rescisão declarando que ele demonstrou "extrema indiferença pelo valor da vida humana".

A decisão foi tomada após mais de cem dias de protestos e de uma investigação de um mês sobre a morte de Breonna, uma profissional de saúde de 26 anos baleada cinco vezes no corredor de seu apartamento por policiais que executavam um mandado de busca.

Como os policiais não atiraram primeiro —foi o namorado da jovem que abriu fogo; ele disse que confundiu a polícia com intrusos—, juristas achavam improvável que os oficiais fossem indiciados.

O nome e a imagem de Breonna se tornaram parte de um movimento nacional contra a injustiça racial, com celebridades escrevendo cartas abertas e erguendo outdoors exigindo que os policiais brancos sejam acusados criminalmente pela morte da jovem negra.

Autoridades municipais e estaduais temiam que uma decisão do júri de não processar os agentes inflamasse a cidade, que tem sido agitada por manifestações que por vezes se tornam violentas.

A mãe de Breonna processou a prefeitura de Louisville por homicídio culposo e recebeu US$ 12 milhões (R$ 63 milhões) em um acordo fechado na semana passada.

Ela e seus advogados, no entanto, insistiram que só aceitariam acusações de homicídio contra os três policiais, demanda aprovada por milhares de manifestantes em Kentucky e em todo o país.

A opinião dos juristas é baseada na legislação do Estado, que permite aos cidadãos usar força letal em legítima defesa. John W. Stewart, ex-secretário-assistente de Justiça em Kentucky, disse acreditar que pelo menos dois dos oficiais que abriram fogo estavam protegidos por essa lei.

"Como um afro-americano, como alguém que também foi vítima de má conduta policial, sendo parado na rua e revistado, sei como as pessoas se sentem", disse Stewart. "Já vivi isso, mas também fui promotor, e as emoções não podem interferir aqui."

Dois oficiais, o sargento Jon Mattingly e o detetive Myles Cosgrove, reagiram aos tiros na direção do namorado de Breonna, Kenneth Walker, de acordo com documentos internos. No caos que se seguiu, Mattingly foi baleado, com ferimento na artéria femoral, e os outros se esforçaram para arrastá-lo para fora do apartamento e aplicar um torniquete em sua perna.

Em antecipação à decisão do júri, o Departamento de Polícia de Louisville cancelou as férias de oficiais, e o chefe de polícia, Robert Schroeder, ordenou um estado de emergência de dez dias.

Um juiz local assinou uma ordem fechando o tribunal federal no centro da cidade, onde vitrines e prédios de escritórios foram lacrados com tábuas devido aos protestos.

Policiais também ergueram barricadas e cercas metálicas bloqueando as ruas próximas a um parque da cidade que havia sido o núcleo de atos e anunciaram outras restrições.

Em uma publicação no Twitter na manhã de terça-feira (22), o prefeito Greg Fischer disse que, com essas medidas, "o objetivo é garantir espaço e oportunidade para os possíveis manifestantes se reunirem e expressarem seus direitos da Primeira Emenda", além de "manter todos seguros".

Manifestantes em Nova York protestam contra decisão da Justiça de indiciar apenas um de três policiais envolvidos na morte de Breonna Taylor
Manifestantes em Nova York protestam contra decisão da Justiça de indiciar apenas um de três policiais envolvidos na morte de Breonna Taylor - Jeenah Moon/Reuters

Logo após o anúncio da Justiça, manifestantes foram às ruas para expressar frustração com a decisão. Centenas marcharam enquanto gritavam "nenhuma vida importa até que as vidas dos negros importem".

Ainda que os atos tenham sido, em sua maioria, pacíficos, no bairro de Highlands, no limite do centro da cidade, vários ativistas jogaram garrafas de água em policiais, que responderam com bolas de pimenta. Seguiram-se brigas, e algumas janelas de lojas da área foram quebradas.

Mais tarde, na noite desta quarta, dois agentes foram baleados em Louisville, segundo a polícia metropolitana da cidade. Eles não correm risco de vida; um suspeito de fazer os disparos foi detido.

Multidões de diferentes tamanhos também se reuniram em Nova York, Washington, Atlanta e Chicago.

Os policiais que arrombaram a porta de Breonna logo após a meia-noite de 13 de março tinham um mandado de busca e apreensão assinado por um magistrado local. Eles tinham a aprovação do tribunal para entrar no local sem aviso prévio, o que Louisville depois proibiu. As ordens, porém, foram alteradas antes da ação, exigindo que batessem primeiro e se identificassem como policiais.

Walker disse que ele e Breonna não sabiam quem estava à porta. Apenas um vizinho, entre quase uma dúzia, relatou ter ouvido os policiais gritarem "polícia" antes de entrar.

O mandado para o apartamento de Breonna foi um dos cinco emitidos em um caso que envolve o ex-namorado da jovem, Jamarcus Glover, acusado de comandar uma rede de tráfico de drogas. Nos outros endereços revistados, policiais encontraram uma mesa coberta de drogas embaladas para venda, incluindo um saco contendo cocaína e fentanil, segundo registros da polícia e um relatório de laboratório.

A vigilância que levou os policiais à casa de Breonna incluiu um rastreador GPS mostrando repetidas viagens de Glover ao apartamento dela; fotos dele saindo do apartamento com um pacote nas mãos; filmagem mostrando Breonna em um carro com Glover chegando a uma das "bocas" que ele operava; e o uso do endereço dela em registros bancários e outros documentos.

O FBI abriu uma investigação para saber se a inclusão de seu nome e endereço no mandado violou seus direitos civis, como alegaram os advogados da família.

Há meses, a morte de Breonna tem sido um grito de guerra. A ex-primeira-dama Michelle Obama e Kamala Harris, candidata democrata à vice-presidência, gritaram seu nome durante a convenção democrata. A apresentadora Oprah Winfrey pagou outdoors com mensagens exigindo que os policiais fossem acusados.

A frustração aumentou em Louisville com a lentidão da investigação. Essa frustração foi agravada por uma administração municipal que se recusou a divulgar os registros básicos —incluindo a autópsia e a filmagem feita pelos policiais que reagiram aos tiros— e cometeu erros inexplicáveis em alguns dos documentos que divulgou, incluindo um relatório alegando incorretamente que Breonna não foi ferida e que a porta de seu apartamento não foi arrombada.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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