Descrição de chapéu Caixin China Coronavírus

Morte de enfermeira na China chama a atenção para categoria profissional em crise

Pandemia de Covid-19 intensifica sobrecarga de trabalho e serve de gatilho para problemas de saúde mental

Zhao Jinchao Yan Ge Matthew Walsh
Caixin

Depois de concluir suas rondas numa manhã no final de julho, uma enfermeira em um grande hospital de Wuhan despencou do 13º andar do prédio interno e morreu.

As circunstâncias do incidente ainda não estão claras, mas a polícia disse mais tarde que a morte de Zhang Yanwan, 28, precisava ser avaliada por “departamentos especializados em saúde pública mental”. Em um país onde mortes raramente são declaradas como sendo suicídios, trata-se de um forte indício de que a enfermeira, casada e mãe de um filho, provavelmente se matou.

A morte de Zhang chocou sua família, amigos e colegas de trabalho, muitos dos quais afirmam acreditar que os meses que ela passou combatendo a epidemia devastadora de coronavírus em Wuhan e discutindo sobre condições de trabalho com a administração do hospital Wuhan Union, seu empregador, teriam contribuído para sua morte. O hospital disse pouco publicamente sobre o que aconteceu.

O incidente também intensificou a discussão que já vinha sendo travada na surdina sobre a difícil situação dos enfermeiros chineses mal pagos e sobrecarregados de trabalho, alguns dos quais agora enfrentam as consequências psicológicas da pandemia de Covid-19, que exacerbou os efeitos de anos de exaustão e estresse intenso.

Profissionais de saúde tentam descansar em hospital construído para atender vítimas do coronavírus em Wuhan, na China - Fei Maohua - 10.mar.20/Xinhua

Mas essas discussões não chegam a ser grande consolo para uma família enlutada que procura respostas após a perda repentina de sua filha. O pai de Zhang, que pediu anonimato por temer represálias das autoridades, disse ao Caixin que viver entre os objetos que eram de sua filha é doloroso demais, razão pela qual ele se mudou da casa da família para um hotel diante do hospital.

“Estou profundamente triste, não importa aonde eu vá ou o que eu faça”, disse ele.

Extrovertida e sem papas na língua

Entrevistados pelo Caixin, vários dos amigos e familiares de Zhang descreveram sua morte como inesperada e difícil de entender.

Seu pai disse que Zhang era uma pessoa alegre e extrovertida, mãe amorosa de um filho de 1 ano e enfermeira dedicada à profissão.

Mas seus colegas no hospital Wuhan Union, onde Zhang trabalhava havia cinco anos, disseram que sua franqueza havia desagradado à administração do hospital neste ano.

Zhang foi uma das profissionais na linha de frente da resposta do hospital à Covid-19 quando a epidemia letal tomou conta da cidade, em janeiro. Sendo uma unidade médica chave situada a poucos quilômetros do mercado de alimentos no epicentro da pandemia, o Wuhan Union foi rapidamente sobrecarregado por centenas de pacientes.

Em pouco tempo, diante da escassez crônica de equipamentos de proteção individual, funcionários do hospital começaram a adoecer. As autoridades de saúde anunciaram os primeiros casos de Covid-19 entre funcionários do Wuhan Union em 20 de janeiro, e, até o final da epidemia, cerca de 174 funcionários haviam contraído a doença –mais de um quarto dos casos entre profissionais médicos no distrito.

O pai de Zhang disse que o fracasso do hospital em proteger seus profissionais deixou sua filha “insatisfeita”. No final de janeiro, Zhang publicou duas mensagens em redes sociais pedindo que seus colegas se demitissem se a diretora de enfermagem do hospital permanecesse no cargo.

“Tudo bem ser mártir e lutar constantemente na linha de frente”, escreveu Zhang. “Mas eu preferiria ser mártir com armadura corporal e munição na minha arma, e não ser um escudo humano!”

Zhang entregou seu pedido de demissão dias depois disso, mas o hospital se recusou a aceitá-lo devido às “circunstâncias especiais” e a disciplinou por suas publicações, contou seu pai.

Departamento reage com rancor

O que aconteceu nos meses entre o início da pandemia e a morte de Zhang ainda permanece incerto.

Quando a crise do vírus em Wuhan diminuiu, em março, Zhang voltou a exercer suas funções anteriores na ala de cardiologia do Wuhan Union. À primeira vista, ela parecia estar bem: o hospital a elogiou por seu trabalho na linha de frente, e ela parecia estar “feliz e bem disposta” quando conversou com seus pais pelo aplicativo WeChat dois dias antes de morrer, contou seu pai.

Mas também havia sinais de que Zhang estava sofrendo pressão. Seu pai alega que ela sofria bullying por parte da enfermeira-chefe, que a transferiu sumariamente para a UTI, supostamente para finalidades de treinamento, e lhe mandou redigir repetidas autocríticas em que ela humildemente pedia desculpas ao departamento de enfermagem pelas publicações que fizera nas redes sociais.

Uma colega de Zhang disse que havia um clima de conflito entre Zhang e o departamento de enfermagem, mas se negou a dizer mais que isso.

Zhang morreu no dia 29 de julho. A polícia descartou a possibilidade de crime, mas um inquérito ainda apura o que aconteceu.

O Wuhan Union divulgou um comunicado público breve em resposta à morte de Zhang, dizendo que estava “cooperando ativamente com a família e as autoridades relevantes para lidar com as consequências deste incidente”.

Vários pedidos de entrevista feitos pelo Caixin a funcionários seniores do hospital ficaram sem resposta.

Quase todos os funcionários do hospital que estavam em serviço no momento da morte de Zhang se negaram a ser entrevistados pelo Caixin, temendo represálias da administração. Aqueles que falaram conosco exigiram anonimato.

A família de Zhang disse ao Caixin que um pedido de reunião com autoridades hospitalares para discutir a morte de sua filha foi recusado. A família continua a se esforçar para descobrir a verdade dos fatos.

Sobrecarregados, mal pagos, demissionários

A morte de Zhang voltou a chamar a atenção pública para os enfermeiros chineses, uma categoria com profissionais em número insuficiente e sobrecarregados de trabalho.

Apesar dos esforços do país para recrutar enfermeiros em número maior e mais qualificados, há uma falta crônica desses profissionais. Em 2018 havia 2,94 enfermeiros para cada mil pessoas na China, significativamente abaixo da meta para 2020 de 3,14 enfermeiros por mil habitantes e apenas um terço do índice visto na União Europeia. A razão entre enfermeiros e médicos na China também continua abaixo do objetivo.

Muitos enfermeiros reclamam dos baixos salários. Segundo uma pesquisa nacional feita pela Fundação de Bem-Estar Social, ligada ao governo, mais de três quartos dos enfermeiros chineses recebem menos de 5.000 yuans (R$ 4.045) por mês. Para alguns deles, acordos contratuais que distribuem o pagamento conforme o desempenho empurra os salários reais ainda mais para baixo.

Cargas horárias pesadas fazem parte do trabalho. De acordo com outra pesquisa nacional publicada em 2016, metade dos enfermeiros chineses trabalha mais de oito horas por dia, uma parcela 24% mais alta que em 2010. Quase metade dos enfermeiros faz mais do que sete turnos noturnos por mês, um aumento de 13% no mesmo período.

Muitos enfermeiros dizem que são obrigados a cumprir tarefas administrativas demais, como redigir relatórios de ocorrências, que intensificam sua carga de trabalho e os impedem de dedicar todo seu tempo ao cuidado dos pacientes. Uma enfermeira no Wuhan Union disse: “Desde meu primeiro dia neste emprego, nunca, em turno algum, consegui fazer uma refeição completa ou ir ao banheiro nas minhas horas de trabalho, por medo de que alguma coisa aconteça com meus pacientes”.

A consequência disso é um êxodo em massa de enfermeiros. Esse fato, somado à relutância de muitos hospitais em gastar dinheiro com enfermagem, intensifica a sobrecarga dos enfermeiros que permanecem.

“A enfermagem chinesa precisa desesperadamente de profissionais excelentes dotados de conhecimentos especializados, que sejam capazes de tomar decisões clínicas sobre questões de saúde complexas, agudas e crônicas, e combinar sua formação, pesquisas e habilidades de enfermagem individuais para lidar com os pacientes”, escreveu Jiang Yan, diretor de enfermagem do hospital Sichuan University West China, em artigo publicado em janeiro no periódico especializado Chinese Nursing Management.

Esgotamento sistêmico

Os enfermeiros chineses frequentemente relatam sofrer problemas de saúde mental ligados ao trabalho, incluindo alto nível de estresse, depressão e exaustão.

Vários estudos com abrangência limitada indicam que problemas de saúde mental podem ser comuns entre os enfermeiros chineses. Em janeiro, uma revista especializada publicou uma sondagem na qual 31% dos enfermeiros de oito hospitais em Pequim relataram sofrer agressões psicológicas “moderadas” no trabalho, mais comumente bullying verbal ou provocações de colegas mais antigos.

A síndrome do burnout ocupacional é outro problema. Em um estudo de 2018, quase 3.500 enfermeiros de seis grandes hospitais da província de Anhui, no leste da China, disseram que enfrentam principalmente sofrimento emocional devido à exaustão no trabalho.

A pandemia de Covid-19 exacerbou muitos desses problemas. Um estudo publicado neste ano pelo American Journal of Psychiatry, revisto por pares, constatou que quase metade de mais de 2.000 profissionais médicos da linha de frente ou não em hospitais chaves de Wuhan sofreram depressão durante o pico da epidemia, enquanto 41% tiveram ansiedade e 62% tiveram estresse elevado.

Especialistas disseram ao Caixin que existe o perigo de que alguns enfermeiros continuem a sofrer sintomas de estresse pós-traumático muito tempo depois de a pandemia ter recuado.

Apesar dos chamados lançados nos últimos anos para que o governo intensifique a reforma da saúde e amplie a legislação para dar mais apoio ao setor da enfermagem, muitos enfermeiros entrevistados pelo Caixin disseram que pouco mudou em seus hospitais.

Liao Xinbo, ex-diretor do departamento de saúde da província de Guangdong, no sul da China, disse que, devido à pressão para agradar a muitos setores de status elevado, como médicos e funcionários de salas de emergência, os hospitais frequentemente relegam as reivindicações dos enfermeiros para o último lugar entre suas prioridades. Para ele, a China precisa pesquisar como oferecer gestão mais personalizada e enfrentar o poder exercido por profissionais médicos mais especializados.

“Eles [os enfermeiros] sofrem estresse profissional e psicológico elevado”, disse Liao.

Tradução de Clara Allain

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